Legião Urbana: a banda que é o nosso Queen

Resenha - Legião Urbana (Centro de Eventos, Fortaleza, 11/06/2016)

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Fotos: Rafael Allan

O LEGIÃO URBANA é o QUEEN brasileiro. Sim. Ora, não faz sentido comparar o quarteto que teve Fred Mercury como porta-voz com o quarteto brasiliense. Não musicalmente, não tecnicamente. Ora, faria mais sentido, se é que comparações chegam perto de fazer algum sentido, comparar a banda dos Renatos (Russo e Rocha), do Dado e do Marcelo com os SMITHS (coisa que na verdade, justamente ou não, sempre aconteceu), ou mesmo com o U2, em sua primeira fase, pós-punk. Mas a afirmação que escolhemos começa a fazer algum sentido quando vemos o tanto de emoção que canções lançadas há décadas atrás ainda são capazes de emocionar multidões em uma turnê de reunião, mesmo que a voz em que nos acostumamos a ouví-las não possa mais pronunciar nada neste plano físico. É o caso do QUEEN, que leva às lágrimas milhares de pessoas ao se apresentar com uma nova voz e com o guitarrista e baterista da formação clássica. É o caso do LEGIÃO URBANA, que, também, leva às lágrimas milhares de pessoas ao se apresentar com uma nova voz e com o guitarrista e baterista da formação clássica, facilitando a escrita de pelo menos uma linha desta resenha (bastou copiar e colar a linha anterior).

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O show deste sábado, 11, no Centro de Eventos do Ceará, faz parte da turnê comemorativa dos trinta anos do primeiro álbum da banda, o homônimo "Legião Urbana", hoje já beirando os 32. Apresentaram-se em Fortaleza os músicos Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, guitarrista e baterista da formação clássica do LEGIÃO URBANA, acompanhada por Lucas Vasconcellos (do duo LETUCE) na guitarra, Mauro Berman (também conhecido como Formigão, do PLANET HEMP) no baixo, Roberto Pollo, no teclado, e o ator e cantor André Frateschi, nos vocais, além de alguns convidados. Para iniciar a noite, um DJ tocava hits nacionais e gringos, principalmente das décadas de 80 e 90, período em que reinou a Legião.

Por volta de 11h, o DJ interrompe o set para fazer o sorteio de algumas bolsas de estudo em uma escola de línguas onde houve venda de ingressos. O púbico aproveitou o momento sem música para gritar repetidas vezes.

"Fora, Temer. Fora, Temer. Fora, Temer". Pode-se dizer que foi aí que, mesmo antes da banda subir ao palco, começou o show da LEGIÃO URBANA. Seria curioso ver o que Renato Russo diria do cenário atual. Ou melhor, talvez não. O apoio que uma parcela da juventude de hoje dá a políticos como o execrável Jair Bolsonaro, ou a forma como os combatentes da corrupção e do fisiologismo (que dominava na era-PT, sejamos claros) calam-se hoje um mes após o Golpe, fariam Renato Russo morrer de vergonha e desgosto. "Estejamos alertas. Porque o terror continua. Só mudou de cheiro. E de uniforme". Ele tinha dito, em 1987. Que vergonha dele eu teria se ele pudesse ver que até poucas semanas atrás, havia quem defendesse uma intervenção militar. Felizmente, aqueles presentes no show, tinham ainda nos corações o espírito contestador da Geração Coca-Cola, mesmo aqueles que pertenciam à Geração Coca-Cola Diet, os que ainda eram crianças ou sequer eram nascidos antes daquele triste 11 de outubro de 96.

Sigamos para o show. Pontualmente, à meia-noite, horário divulgado nas redes sociais, sobe ao palco o LEGIÃO URBANA. O ambiente estava completamente lotado, gerando inclusive a expectativa de um retorno da banda na mesma turnê. Não havia espaço sequer nem para rodas punk. Há de se notar que a dimensão das duas pistas, premium e comum, pareciam invertidas, uma vez que o frontstage parecia ser realmente maior que a metade do espaço. Nesta primeira parte da apresentação foram tocadas (na ordem) todas as músicas do primeiro álbum do LEGIÃO URBANA, que também atendia pelo próprio nome da banda, com André na maior parte dos vocais, mas também revezando com Dado e Bonfá. Assim, André cantou o hit "Será", passando a bola para Dado cantar "A Dança" e recebendo novamente a incumbência de cantar "Petróleo do Futuro". Em "Ainda É Cedo", é a vez de Bonfá cantar. A canção recebe um solo de Dado (que obviamente evoluiu bastante desde a época em que ficava experimentando na guitarra enquanto Renato Russo dizia "continua que tá legal"), mas é o solo de Vasconcelos que é mais rock and roll. E ao contrário do que acontecia muitas vezes (com Renato e também nessa turnê), a canção não recebeu nenhum trecho de qualquer outra. A certeza de cantar "Gimme Shelter", como no "Musica Para Acampamentos" ficou só na vontade mesmo.

O show continua com André cantando "Perdidos no Espaço", com uma versão cheia de ecos para a mais hawkwingesca canção do LEGIÃO. André também é ator, mas seu preparo vocal é muito superior ao de Wagner Moura, que ficou com o mic da LEGIÃO URBANA em homenagem anterior. André não imita Renato, nem tenta alcançar notas que o ídolo falecido alcançava. Sua dancinha, também desajeitada, lembra mais o Thom Yorke no clipe de "Lotus Flower". Mas, assim como Renato, não perde a oportunidade de dizer o que pensa e sente. Em "Geração Coca-Cola", alfineta o presidente afastado da Câmara dos Deputados. "Depois de vinte anos na escola / não é difícil aprender /todas as manhas do seu jogo sujo, Cunha".

A inserção de "Guns of Brixton" seria uma das únicas da noite no reggae da LEGIÃO URBANA, "O Reggae", que foi seguida por "Baader-Meinhof Blues" e "Soldados", com Dado metralhando o público com sua guitarra, o público acompanhando com palmas e André "morrendo" no final. Algo importante a ser mencionado é que velhos cartazes apareciam projetados no fundo do palco em vários momentos do show, dando ou lembrando, mesmo num ambiente enorme e com milhares de pessoas, aquele aspecto de "música de faculdade", de contestação, de contextualização e descoberta que a música da LEGIÃO URBANA sempre teve. Se ainda fossem moleques e não os cinquentões de hoje, talvez até estivessem tocando nos DCEs. A propósito, no mesmo sábado, no DCE da Universidade Federal do Ceará havia ocorrido o evento "Nada A Temer", "homenageando" o Presidente Interino. Seriam crias da LEGIÃO? Quem sabe?

Fechando a primeira parte do público, "Por enquanto", sem vocais nos microfones, só o público, em uníssono
alguns, muitos, com a voz embargada, fechada com "Heroes", de DAVID BOWIE, outro que nos últimos tempos também resolveu que cantar lá em cima era mais tranquilo.

Dado, que se ausentara um pouco no início da canção, fortemente baseada nos teclados, agradece: "Obrigado. Tocamos o primeiro disco na íntegra. A gente comemora e celebra nossas canções, nossas vidas e compartilha com vocês".

"É bom poder fazer um trabalho que se gosta de verdade.
Amizade é uma das coisas mais importantes do mundo. E é sobre isso que eles falam nas suas músicas. Não é protesto. Não é ataque. Eles falam do que eles vêem todos os dias na rua, na TV, em todos os lugares. O mundo não perfeito e nem todas as pessoas são felizes.
É quase impossível esquecer o menor abandonado, a nossa dívida, o racismo, as guerras...

Mas, graças a Deus, existe sempre a música", fala Renato Russo, em uma gravação antes do início da segunda parte do show com "Tempo Perdido" e Dado e Bonfá dividindo a música. Nenhum dos dois tem os dotes de Renato, mas o que importa é a celebração. Até os seguranças cantam em seus postos. Discretamente os lábios se mexem acompanhando a canção...discretamente, discretamente...

Sem medo de levar um choque, André brinca com uma das lâmpadas que fazia parte da decoração em "Daniel na Cova dos Leões" e não esquece de conclamar "Viva Renato Russo, viva Renato Rocha" em "Há Tempos", um hit após o outro. Chega a hora da primeira participação especial da noite e Dado anuncia Fernando Catatau, cearense guitarrista e vocalista da CIDADÃO INSTIGADO, que canta "Andrea Doria", que ficou parecendo do CIDADÃO INSTIGADO, estranha, difícil de engolir, mas, falando do CIDADÃO esse é o esperado, assim como o seu solo "massa" que merece ser eternizado numa gravação melhor que a do batalhão de celulares da plateia.

Catatau continua no palco para "Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar" - ele que fez a escoilha. O ôôô do fim vira solo de guitarra, mas não há como não sentir falta de Renato, de sua rendição ao fim da música cantando "Cordeiro de Deus", do citado ôôô...Ao fim, todos trocam elogios. Catatau é citado por Dado como como o melhor guitarrista do Brasil, enquanto fala que o LEGIÃO é a banda do seu coração. Dado ainda faz merchan do "Fortaleza", último disco da CIDADÃO INSTIGADO antes de anunciar outro cearense: o irreverente Jonnata Doll (JONNATA DOLL E OS GAROTOS SOLVENTES).

"A gente lutou muito tempo pela democracia. Vamos preservá-la. Começa em casa, com seus pais, seus irmãos", começa Jonnata em "Fábrica". Esse sim é todo performático, cria perfeita de Renato, mas também de IGGY POP. Sua parte do show é louca, transgressora, inconsequente... ele até derruba o microfone no chão, simula masturbar-se e não para de pular nem quando acaba "1956", outra canção que canta. "O Brasil é o país do futuro, haha". E haja risada irônica. Pra terminar, ele desce do palco, sobe na grade, se joga em meio ao público, faz crowd surfing, tudo isso cantando ainda. E volta para o palco e continua por lá mesmo quando é hora de outra participação especial, a de Marina Franco (GLASS AND GLUE), com "Dezesseis". Não sei se estava no script, mas Jonata não está nem aí. Esse é o estilo dele. É isso que ele faz.

André volta pra cantar "Meninos e Meninas" em dueto com ela e arrancam aplausos ao trocar "São Francisco" por "Fortaleza" em "Meninos e Meninas". "Acho que gosto de São Paulo, gosto de São João, gosto de Fortaleza..." E se havia uma LEGIÃO no palco, havia uma legião nas pistas, uma legião de celulares gravando cada minuto de canções como "Eu Sei" em vídeos que provavelmente nunca mais serão vistos. No último show com Renato não haviam celulares. Haviam isqueiros. E guardar na memória as lembranças era o que o público mais sabia.

Em "Pais e Filhos", Bonfá assume o posto de frontman, enquanto André vai para a bateria. Alguns maldosos dizem "finalmente a LEGIÃO tem um baterista" - que maldade! Mas, fora toda a emoção da música, há ainda um detalhe a ser notado. No backstage, Marina não para de pular. E o motivo dela fazer isso, mesmo acompanhando a banda na turnê, mesmo sendo participar dos shows uma parte do seu trabalho, mesmo sendo esta a enésima vez que ela escuta a música ao vivo, é o mesmo porque aqueles dois seguranças que citei se permitiam cantarolar as músicas que foram cantadas por Renato Russo: a incrível força destas canções, a forma como elas, mesmo tão enigmáticas às vezes, transformam-se em matemática simples, filosofia de buteco, psicologia adolescente, poesia de verdade. E em "Angra dos Reis", com todos os seus teclados, é hora de ficar como está o baixista Formigão: de olhos fechados.

Adiante, anunciam: "A gente vai cantar uma música sobre a televisão. A TV tem mostrado um espetáculo dantesco". A resposta do público é mais um coro "Fora Temer, Fora Temer, Fora Temer", ao que a banda responde, "Fora todos eles". E a canção é "Teatro dos Vampiros", na voz de Dado, com letra atualizada. "Meus amigos todos estão tomando Rivotril". Sim, o tempo passou. Isso é refletido na plateia. Muitos na casa dos trinta, quarenta anos. Mas o público da LEGIÃO também se renova. Há ali muitos jovens emocionados que sequer estavam na barriga de suas mães quando Renato Russo se despediu desse mundo.

Anunciando "Índios" como a última canção do set, Bonfá a descreve como uma canção que "Fala do Rio Cocó. Lembra Caicó. Lembra Werner Herzog. Fala sobre todos os nossos índios, que foram todos mortos" e canta uma parte da canção.

O bis é só desculpa, escada para que o público entoe o "É Legião, É Legião". Só poder gritar a plenos pulmões esse mantra já valeu a ida ao Centro de Eventos. Com o retorno da banda ao palco para "Faroeste Caboclo", Dado relembra a duração da canção. Ora, Dado, fique tranquilo. Ainda caberiam "Metal Contra as Núvens" e "A Montanha Mágica" até. Ao fim, André pede uma bandeira que alguém do público segurava, exibe, se fez, faz de máscara. Curiosamente, ele talvez nem tenha percebido que seu rosto ficara no centro da bandeira, ladeado por Bonfá e Dado, exatamente onde Renato estaria. Havia significado naquela imagem.

É tempo de terminar o show, apresentar a banda. Ao falar de Frateschi, Dado (ou Bonfá, já não dá pra ter certeza) afirma: "ele está conosco não por acaso, mas por uma grande circustância do tempo, da sincronicidade, dividindo o palco como dividiu o camarim quando tinha 11 anos". André devolve dizendo "Essa banda formou o meu caráter. Sou um legionário, como todos vocês aqui".

"Vamos lembrar quem fomos e quem somos e tentar mudar o que seremos" é o que é dito antes de "Perfeição", uma das melhores letras de Renato, talvez uma das melhores letras da música brasileira. E ainda rolou dedicatória a la congresso no domingo do Impeachment de Dilma: "Pela minha esposa Maria Eustáquia, pela minha cadelinha Fifi, pela Puta que Pariu". E ainda no tom de crítica social que sempre esteve presente no cancioneiro legionário, "Que País É Este" fecha o show, com o verso-resposta "É a porra do Brasil", que podemos até considerar que já faz parte da música.

Há o sentimento que faltou algo? Há. Claro. Óbvio. Há mais adjetivos para exprimir tamanha obviedade? Não tem como não haver. Respeitosamente, Renato é insubstituível. Mas é celebrável. E foi isso que milhares de pessoas fizeram em Fortaleza. É isso que milhares de pessoas tem feito nesta turnê em comemoração aos trinta anos, aos mais de trinta anos de LEGIÃO URBANA. Felizes foram aqueles que puderam ver Renato Russo, Marcelo Bonfá, Dado Villa-Lobos e Renato Rocha juntos e ao vivo. Mas, se os Renatos morreram, suas músicas jamais morrerão. E as sementes plantadas pela LEGIÃO URBANA no mundo que "anda tão complicado" continuam crescendo através de Dado e Bonfá, através dos CIDADÃOs INSTIGADOs e dos GAROTOS SOLVENTES, mas através também de várias outras bandas cabeçudas que apareceram no Ceará e no Brasil, dos SELVAGENS À PROCURA DE LEI, das MAFALDAs MORFINAs, das THRUNDAS, dos REITEs e inúmeras outra, neste e em outros estados, fazendo rock em português, falando para adolescentes e jovens adultos, não calando diante da política suja de Brasília e de cada uma de nossas prefeituras, mas falando também, muitas vezes e principalmente, de amor. Sim, Renato Russo é insubstituível. Fredie Mercury é insubstituível. John Bonham é insubstituível. Mas, sim, são celebráveis. E continuamos celebrando todo dia. Às vezes mais, como naquele sábado, 11 de junho.

Agradecimentos:
Maurílio Fernandes, Airlly Barbosa e D&E, pela atenção e credenciamento.
Rafael Allan, pelas imagens que ilustram esta matéria.

Veja mais fotos no álbum abaixo:
https://www.facebook.com/Legi%C3%A3o-Urbana-Fortaleza-611266...

Setlist:

1. Será
2. A Dança
3. Petróleo do Futuro
4. Ainda é cedo
5. Perdidos no Espaço
6. Geração Coca-Cola
7. O Reggae
8. Baader-Meinhof Blues
9. Soldados
10. Teorema
11. Por Enquanto
12. Interlúdio - Profecia Renato Russo
13. Tempo Perdido
14. Daniel na cova dos leões
15. Há Tempos
16. Andrea Doria
17. Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar
18. Fábrica
19. 1965 (Duas Tribos)
20. Dezesseis
21. Meninos e Meninas
22. Eu sei
23. Pais e Filhos
24. Angra dos Reis
25. O Teatro dos Vampiros
26. "Índios"

Bis
1. Faroeste Caboclo
2. Perfeição
3. Que País É Este?

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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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