Iron Maiden: Quem foi ao show do Rio sabia o que ia encontrar
Resenha - Iron Maiden e Anthrax (HSBC Arena, Rio de Janeiro, 17/03/2016)
Por Fernando Yokota
Postado em 18 de março de 2016
Na noite dessa última quinta-feira, 17 de março, o IRON MAIDEN iniciou sua décima primeira visita ao país no Rio de Janeiro em apresentação na HSBC Arena. Há praticamente cinco anos, sua última visita ao local (o Maiden também esteve na cidade em 2013, fechando o Rock in Rio) foi marcada por um problema na barreira em frente ao palco e o subsequente adiamento da apresentação para o dia seguinte (relato à época no link abaixo).
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O trânsito para a Barra da Tijuca é velho conhecido dos cariocas, e em dia de chuva e outros eventos na região ao mesmo tempo (incluindo o famigerado WESLEY SAFADÃO), o que provavelmente ocasionou um pequeno atraso no início do show. Na quarta música, muitos eram os fãs que corriam desesperados do lado de fora do local.

A donzela não é de aprontar surpresas, e não haveria de ser desta vez. O repertório da noite era sabido pela maioria dos espectadores e é baseado no último trabalho de estúdio da banda, The Book of Souls. A julgar pela boa saída de ingressos em todas as apresentações da turnê até agora, o álbum, representado por seis de suas faixas, parece ter ampla aprovação dos fãs.

Bruce Dickinson surge ao fundo do palco em frente a uma espécie de púlpito esfumaçante com temas maias, com If Eternity Should Fail, canção inicialmente pensada para uma eventual nova empreitada solo do vocalista. Speed of Light, também nova, foi escolhida como primeiro single do disco novo e sua pegada mais rocker cai bem ao vivo. Depois de causar preocupação nos fãs por problemas de saúde, Dickinson se mostra totalmente recuperado e não economiza na voz. Se é algo deliberado, não se sabe ao certo, mas o próprio fato de o vocalista abrir o show sozinho no palco serve de cartão de visita e comprovante de qualquer alta hospitalar. O Bruce Dickinson de 2016 pode não ter a potência da sua versão mais nova do primeiro Rock in Rio mas tem uma urgência na voz que, difícil de ser descrita, talvez seja em parte explicada pela experiência de lidar com o infortúnio do câncer. Seu grito no início de Speed of Light não só é uma homenagem ao seu heroi IAN GILLAN como uma prova de que tudo vai bem.

Ao pegar uma bandeira do Brasil arremessada ao palco, Dickinson disse ter acompanhado o noticiário para, diplomática e elegantemente, esperar que as pessoas ruins paguem pelo que fizeram, sejam quem for. Em temas como Blood Brothers executada no bis, o Maiden mostra que aposta mais no tom fraternal da comunhão entre seus fãs do que num discurso político mais incisivo.

O setlist, enxuto em quantidade de músicas (quinze), privilegia temas mais longos e cheios de variações, seja os antigos (Powerslave e Hallowed Be Thy Name) ou os novos (The Red and the Black ou The Book of Souls). O livro das almas maideniano sem dúvida funciona melhor em carne e osso do que gravado, talvez pelo fato de o registro em estúdio ter sido intencionalmente dotado de uma atmosfera de gravação ao vivo. Longas passagens como as de The Red and the Black ficam melhor contextualizadas ao vivo.

Em outra longa faixa, The Book of Souls, o Eddie em sua versão "boneco de Olinda" surge no palco. O resultado: é "trollado" por Janick Gers e torna-se paciente do agora Dr. Bruce Dickinson que arranca seu coração e o arremessa ao público. Alguém na plateia, literalmente, saiu com o coração na mão ao fim do show.

Contudo, a lealdade de vários dos fãs que parecem saber todas as letras das músicas novas, é abafada a cada medalhão que é executado. Favoritas com The Trooper, Fear Of The Dark, Wasted Years (inusitadamente fechando o show) e a victorhuguiana Hallowed Be Thy Name (com Dickinson chicoteando os pratos da bateria com a corda do cadafalso) não são somente grandes canções. Marinados por suor e lágrimas dos fãs por anos e anos, essas músicas ganham o status de clássico porque passaram pelo crivo do tempo e, de maneira justa, têm a precedência no coração da plateia.

Cada um à sua maneira, os três amigos das guitarras engrossam as icônicas harmonias da resgatada Children of the Damned e, escorados na bateria de Nicko McBrain, garantem a grossa parede sonora de Tears of a Clown. Na tempestade guitarrística do Iron Maiden, Dave Murray é a chuva, Janick Gers é o trovão e Adrian Smith é a lua que ilumina a noite. Funcionalmente, o último é a cola que mantém o Maiden como uma unidade, liberando o cavalo chamado Steve Harris para cavalgar à vontade sobre os compassos.

Harris, recém ingressado no clube dos sexagenários, toca seu baixo com um olho nas cordas e o outro nos fãs. Ao vivo, não é o som agudo do baixo mas o contato visual que acende as primeiras fagulhas nas primeiras fileiras de fãs. O vigoroso gestual dos braços de Dickinson se encarrega de propagar o fogo para e incendiar o resto do ginásio. Já no bis, um respeitoso capirotão, maior a cada turnê, surge soturnamente ao fundo do palco e, enquanto rajadas de fogo sobem pelo palco, um mar de telas de telefones celulares se acende tentando registrar o momento apocalíptico da noite. Era o cenário para que a HSBC Arena virasse o caldeirão do inferno em The Number of the Beast.

Depois de quase duas horas de show, o Maiden mostra que não tem a intenção de ganhar seus fãs com o elemento-surpresa. Quem vai a um show do IRON MAIDEN sabe o que vai encontrar e isso não é necessariamente algo ruim. O Eddie gigante em Iron Maiden, o ursinho Sooty em cima do bumbo de McBrain e a bandeira do Reino Unido em The Trooper já não são novidade há anos. A velha camiseta preta , ter a certeza de que Doctor Doctor é a deixa par ao início do show e que só se vai embora ao som de Always Look on the Bright Side of Life são pequenas coisas que dão ao fã o senso de pertencimento quando se vai a um show do Maiden, de identificação com um sentimento coletivo e, até, de encontro de um denominador comum geracional (adultos e crianças mostravam reações muito semelhantes ao ver o Eddie gigante surgindo ao final de Iron Maiden). Assim, os capítulos que constituem a história da banda não são caracterizados por rupturas mas por uma certa linearidade, ainda que com variações pontuais e oscilações. O livro, que a cada página parece mais próximo do fim, não peca pela falta de reviravoltas estilísticas: pelo contrário, seu forte é a constância, virtude à qual apenas aqueles que forjaram um gabarito estético musical têm o direito.
The Raven Age e Anthrax
Mais cedo, o RAVEN AGE, se apresentou para um público que, em sua maioria, ainda travava a batalha contra o trânsito carioca e chegava à longínquia HSBC Arena. A banda, que ocupa o posto que já foi de grupos de outros rebentos de membros da donzela (RISE TO REMAIN, de Austin Dickinson, e LAUREN HARRIS abriram turnês anteriores), mostrou o material de seu (único até agora) EP autointitulado. O som da banda, e principalmente o vocalista Michael Burrough, talvez não seja exatamente a escolha mais óbvia para um fã mais ortodoxo do IRON MAIDEN, mas a apresentação teve momentos interessantes como em The Death March e Angel in Disgrace. Provavelmente, a banda deve ter agradado mais os filhos do que os pais que os levaram até a Barra da Tijuca e ao pessoal que estava logo à frente do palco (um fã em especial, vindo da Sérvia, sabia cada frase de cada música). No mais, ser jogado aos leões noite após noite e sobreviver ao final é uma lição cujo valor é impossível de se quantificar e a banda de George Harris parece aproveitar a oportunidade, com uma ajudinha do respeito da plateia, que parecia não querer contrariar o patrão da donzela de ferro.

Logo depois da breve apresentação do RAVEN AGE, os veteranos do ANTHRAX assumiram o palco e fizeram questão de mostrar que, mais que a banda de abertura, não só são um gigante do metal como estão promovendo seu excepcional novo álbum, For All Kings. O disco é um sucessor natural dos igualmente ótimos We've Come For You All e Worship Music, e foi representado na noite por Evil Twin e o single Breathing Lightning. Apesar do set diminuto (menos de uma hora), a banda usou de sabedoria para montar seu repertório, passando o rolo compressor logo de início com a dobradinha Caught in a Mosh/Got the Time, sobrando tempo para Antisocial (da banda francesa TRUST, com a qual o Maiden mantém uma incestuosa ligação no que diz respeito a seus bateristas) e fechando com Indians e Joey Belladonna ostentando seu cocar e conclamando os presentes a participar da dança da guerra. Além do set curto, a única outra decepção fica por conta da ausência do cérebro da banda, o baterista Charlie Benante, substituído pelo pau para toda obra Jon Dette (aquele que é o autor do impressionante feito de tocar num show do Anthrax e outro do Slayer logo em seguida). Fica a torcida para que o ANTHRAX possa voltar com o show completo para promover seu For All Kings.

A turnê continua com a apresentação em Belo Horizonte, na Esplanada do Mineirão, no sábado, dia 19 de março, com ingressos restando apenas para a pista normal (informações em www.livepass.com.br).


















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