Mr. Big e Winger: Como um encontro da turma do colegial

Resenha - Mr. Big e Winger (HSBC Brasil, São Paulo, 07/02/2015)

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Por Fernando Yokota
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Do mesmo jeito que aquele seu melhor amigo da oitava série que você nunca mais vê, algumas de nossas bandas favoritas de outrora simplesmente somem do seu fone de ouvido e, até que a ficha caia, lá se vão quinze anos desde a última vez que você pegou apertou o play para determinado disco. Numa situação normal, fotógrafos fotografam e redatores escrevem, mas quiseram as rodas da fortuna que três shows ocorressem ao mesmo tempo na cidade (Arch Enemy e The Sirens tocavam em outros pontos de São Paulo), e assim fui em missão dupla para contar como foram os shows de WINGER e MR.BIG e, quem sabe, ter meu reencontro com alguma lembrança do passado.

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Em seu podcast, Eddie Trunk recentemente vem demonstrando incômodo com o excesso de bandas e projetos cujas vidas não duram mais que um álbum, e que a maioria deles ganha vida por meio do selo italiano Frontiers, com o qual as duas bandas da noite mantêm relacionamento. Para além do que Trunk diz, esse excesso de lançamentos, aliado às facilidades do mundo moderno e da (maravilhosa, diga-se) possibilidade de se gravar discos a um oceano de distância, acaba por pasteurizar um gênero que morreu no início dos anos 90. A morte do estilo, atribuído às camisas de flanela (que seriam mais como um bode expiatório), teria ocorrido pelas mãos da própria indústria e o que a Frontiers faz hoje nada mais seria que uma releitura do sepultamento da cena oitentista.

Faço essa digressão para alertar o leitor quanto ao saco de ceticismo que este redator carregava nas costas a caminho do HSBC Brasil, e para que saiba do ponto de vista enviesado e conflitante de um fã que está para ver a banda favorita da juventude ao vivo pela primeira vez sem saber muito o que será dele quando as luzes apagarem e o show começar.

WINGER

Minha febre pelas bandas dos anos 80 foi aguda e duradoura, mas por algum motivo o Winger nunca chegou a ser uma cepa identificada nas prateleiras de casa. A banda, que mantém três quartos de sua formação clássica, promove seu último lançamento, Better Days Comin’ que, assim como seu antecessor, Karma, teve boa recepção da crítica especializada. Talvez puxada pelas facilidades tecnológicas, talvez pela própria passagem dos anos, muitas bandas tendem atualmente a soar mais pesadas e o WINGER é o caso em seus últimos discos.

O início do show, com a recente Midnight Driver of a Love Machine, mostrou uma divisão interessante do público (que ainda era mediano): enquanto a faixa etária do público do MR.BIG era bem mais abrangente, os fãs do WINGER visivelmente aqueles doutrinados pelos comerciais de cigarros de vinte e tantos anos atrás (por exemplo, veja o vídeo abaixo).

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A moderação desses bravos veteranos, entretanto, ficou em casa junto com a tinta de cabelo quando das primeiras notas da clássica Easy Come Easy Go, emendada na também antiga Hunger. Pull Me Under (que não é um cover) mostra o lado mais metal da banda, assim como Rat Race, com um Kip Winger mostrando vigor vocal, além da mecha grisalha devidamente “esquecida” no topete.

Numa noite em que ambas as bandas estão forradas de músicos brilhantes, os solos não podem faltar nem no show de abertura, ainda que este tenha apenas uma hora. Reb Beach, que é membro fundador do WINGER mas é atualmente mais conhecido por assumir o posto que outrora fora de STEVE VAI e JOHN SYKES no WHITESNAKE, dispensa apresentações. Rod Morgenstein remanesce no trono percussivo dos mais que virtuosos Dixie Dregs há mais de quarenta anos e até Donnie Smith, músico de apoio -- e que parecia bastante feliz com a voracidade do público paulistano -- teve direito à sua porção solitária das luzes da ribalta.

O momento maior, como era de se esperar, veio com o já tradicional “one-two punch” Miles Away/Headed for a Heartbreak. O próprio Kip Winger, velho de guerra, parecia impressionado com a resposta do público que, de fato, era acima do normal para uma banda de abertura. Foi com uma sequência de clássicos, Kip e seus capangas fecharam a conta, incluindo Can’t Get Enuff, Madalaine e Seventeen, e levaram os três pontos para casa.

Às portas do carnaval, era como uma matinê invertida, com a molecada esperando para que os mais velhos se divertissem primeiro, pulando com suas camisetas surradas (devidamente para dentro da calça), ostentando o tão característico cinza do manto em tantas batalhas vestido. Casais trocavam olhares, sem falar uma palavra, recordando do verão de 1991, dos maços de Hollywood, das calças semibag e dos tênis M2000.

MR.BIG

A dura tarefa de fotografar e escrever ao mesmo tempo é, em parte, explicada pelo fato de que a experiência de estar ali no photo pit, espremido entre o público os artistas é, na falta de palavra melhor, surreal. Geralmente são dadas as três primeiras músicas (que foi o que ocorreu) para que os bravos que conquistaram o direito aos cotovelos na barreira assim o façam sem ter que desviar das nucas dos fotógrafos estressados. Não atrapalhar, fotografar, fazer anotações mentais, prestar atenção na reação do público: tudo e fazendo com que três músicas passem num turvo instante. Apenas ao final da aventura na trincheira foi possível perceber a quantidade de gente aumentou muito, principalmente de fãs mais novos. O MR.BIG não vai lotar estádios, nem vai tocar para cem mil pessoas em Santos outra vez, mas, de alguma forma, conseguiu fazer com que sua base de fãs transcendesse a barreira do tempo.

É a primeira turnê da banda como um “quarteto mais um”, tendo Matt Starr (ACE FREHLEY) dividindo as baquetas com Pat Torpey, recentemente foi diagnosticado com Mal de Parkinson e que, por conta disso, não se sente plenamente apto a dar conta dos números mais complexos.

Com o local agora bem cheio, a apresentação começou com o que parecia ser Daddy, Brother, Lover, Little Boy, ou “a música da furadeira”. “Parecia”, porque a histeria era tão grande que só era possível ouvir gritos e o baixo de Sheehan, que parecia um ataque de um enxame de marimbondos mirando diretamente nos tímpanos deste fotógrafo que se posicionou no lado esquerdo do palco. O primeiro bloco foi fechado com Gotta Love the Ride (ao que parece, a primeira contribuição Gilbert/Martin a entrar num álbum), American Beauty e Undertow, single do penúltimo álbum What If, e que parece ter caído no gosto dos fãs.

Os dois últimos álbuns têm distribuição pela Frontiers e, What If, produção do renomado Kevin Shirley. Não fica claro se é pela influência do selo (em entrevistas, artistas da Frontiers costumam se referir ao seu dono, Serafino Perugino, pelo primeiro nome e de forma até afetiva, o que sugere uma proximidade entre selo e artistas), por causa do produtor ou se é simplesmente uma questão das pessoas não serem mais como elas eram há vinte ou trinta anos e isso se refletir nas músicas, mas da mesma forma que aconteceu com outra banda próxima ao coração deste redator, o IRON MAIDEN (que mantém parceria com Shirley há mais de quinze anos), o resultado parece ser mais seguro do que brilhante. Em ...The Stories We Could Tell, a banda chamou Pat Regan, amigo de longa data, para a produção. São canções eficientes e bem escritas, e tanto Shirley como Regan não são daqueles que apelam para expedientes calhordas como mostrar o primeiro disco de uma para que ela tente fazer a mesma coisa, mas tanto What If como ...The Stories We Could Tell são, por assim dizer, como um chili correto mas sem pimenta. Digressão à parte, nada disso parecia ser motivo de muita preocupação para a plateia, que cantava de volta qualquer coisa que saísse daquele palco.

O público do HSBC Brasil, que a essa altura virara um grande forno humano, voltou para o fogo alto com Alive & Kickin’ e Pat Torpey no palco, que se juntou a seus companheiros num kit de percussão ao lado da bateria, a essa altura pilotada por Matt Starr e seu ousado bigode.

Quanto à presença de Torpey no palco, é algo sentimentalmente difuso de difícil descrição. Ao mesmo tempo em que se percebe a conexão dele com o resto da banda, funcionalmente sua lacuna é preenchida por outra pessoa. A ruptura entre o significante (Torpey) e o significado (o baterista do MR.BIG) causa essa confusão que por vezes era possível perceber no palco. Aquele que um dia foi o baterista de Robert Plant hoje parece um tanto quanto perdido no banco de reserva dos tambores. Definitivamente é algo com que a banda ainda está se acostumando.

O primeiro bloco de músicas foi fechado com a nova I Forget To Breath, com reminiscências dos tempos do Get Over It, Take Cover (com fãs empolgadamente correndo dos bares e banheiros ao ouvir a introdução) e a obrigatória Green-Tinted Sixties Mind, para a ampla satisfação do público. Se os anos custaram parte de sua tessitura vocal, Martin compensa com seu timbre indefectível. Com meio tom a menos para escalar nas músicas, malabarismos vocais deixam de ser necessários e a performance não fica prejudicada.

Out of the Underground, do subestimado Hey Man, foi tirada do baú (nas palavras de Eric Martin), para abrir uma série de canções que serviu como um refresco para os presentes, sendo seguida pelo solo de guitarra de Paul Gilbert que, desta vez, tocou sem seus fones de ouvido gigantescos que protegem sua prejudicada audição (Gilbert parecia utilizar algum tipo protetores intra-auriculares mais discreto). The Monster In Me veio seguida de Rock and Roll Over (que teve reação abaixo do que se esperava por ser uma das antigas) e As Far As I Can See, de What If.

Wild World teve Martin empunhando o violão, Torpey voltando ao palco e o público cantando como se não houvesse amanhã. East/West, do último álbum, é uma homenagem de Torpey aos fãs do mundo inteiro que têm lhe dado a energia recebida no palco e que, de certa forma, é parte do processo terapêutico. Quase que em tom de agradecimento, ele se senta à bateria para tocar Just Take My Heart e Fragile. Curiosamente, era possível perceber neste momento que casais namorando e discutindo eram contados em quantidades semelhantes.

Around the World precedeu o solo de baixo de Billy Sheehan que, para aqueles que nunca colocaram as mãos num instrumento musical, e para alguns que já o fizeram, esses solos costumam ser a “hora do banheiro” dos shows. Num “double bill” com WINGER e MR.BIG, é de se esperar vários desses momentos para que a cota de músicos na plateia -- mais alta que de costume -- seja devidamente atendida. De qualquer forma, a volta do solo trouxe a clássica Addicted to that Rush, com os “trade-offs” e duetos que são a marca registrada da banda, para ensurdecedora recepção.

Ao longo dos anos, To Be With You provou ser um trunfo valiosíssimo nas mãos do músico de churrasco que por um acaso acabou com um violão nas mãos naquele momento desolador, já tarde da noite, em que o carvão acabou e um resto de carne padece esturricado na grelha, defumando melancolicamente o ar de um sábado à noite qualquer. Entretanto, quando tocada ao vivo por seus intérpretes, é o momento em que anos e anos de construção do arquétipo do cabeludo/barbudo/tatuado/malvado vai por água (em alguns casos, nos olhos) abaixo. O único momento de deslize técnico mais aparente se deu em Colorado Bulldog, com Starr penando para descascar o abacaxi percussivo deixado por Torpey, que tenta ajudar tocando prato e caixa ao seu lado.

A parte final do show foi aberta por Living After Midnight, do JUDAS PRIEST. Não é novidade aos iniciados que a primeira banda de Gilbert, o Racer X, foi apadrinhada pelo Priest (à época, a banda chegou a gravar a inédita Heart of a Lion, escrita por K.K. Downing e Rob Halford). Neste caso, Gilbert assumiu as baquetas, com Martin quase escondido atrás do baixo, Torpey cantando e Starr e Sheehan fazendo as guitarras. Seguiu-se com The Light of Day, que tem um detalhe curioso: a letra é de Gilbert e a melodia é de Martin, mas a música foi composta por Alex Dickson (aquele dos tempos do Skunkworks de Bruce Dickinson e que, sim, foi guitarrista de ROBBIE WILLIAMS). Com Torpey de volta à bateria, a banda se despediu do eufórico (e um pouco cansado) público paulistano com Mr.Big, clássico do sempre classudo FREE.

Em Gotta Love the Ride, fala-se sobre simplesmente aproveitar a viagem, não se preocupando muito com as coisas e aproveitando tudo que foi conquistado até o presente. Por ora, parece ser o estado atual da banda. Resta, entretanto, saber o que será do MR.BIG daqui para frente e, caso optem por continuar, o que pretenderão musicalmente falando. Ao vivo, contudo, continuam a ser a máquina avassaladora de rock que os garante a fama e a reverência entre músicos e não-músicos.

Quanto à experiência pessoal deste que lhes escreve, durante a semana que precedeu o show, voltei a ter contato com a discografia da banda, incluindo os últimos álbuns. Pensei que o “efeito Frontiers” me afastaria de vez do apego que tive outrora pela banda que, sinceramente, ainda que sejam álbuns competentes, dá a sensação de que “pregam apenas aos convertidos”. Por outro lado, o show funcionou como um daqueles encontros da turma de formatura do colegial: você coloca o papo em dia e cada um diz o que andou fazendo durante esse tempo todo mas, no fundo, o que todo mundo quer é chegar logo àquela hora em que se começa a contar todas aquelas histórias dos velhos tempos.

Winger - Setlist

Midnight Driver of a Love Machine
Easy Come Easy Go
Hungry
Pull Me Under
Down Incognito
(solo - Donnie Smith)
Rat Race
(solo - Rod Morgenstein)
Miles Away*
Headed for a Heartbreak*
Can't Get Enuff
Madalaine
(solo - Reb Beach)
Seventeen

* Kip Winger no teclado e Donnie Smith no baixo

Winger é:
Kip Winger: voz, baixo e teclados
Reb Beach: guitarra e voz
Rod Morgenstein: bateria
Donnie Smith: guitarra, baixo e voz

Mr.Big - Setlist

Daddy, Brother, Lover, Little Boy (The Electric Drill Song)
Gotta Love the Ride
American Beauty
Undertow
Alive and Kickin' *
I Forget to Breathe *
Take Cover *
Green-Tinted Sixties Mind *
Out of the Underground
(solo - Paul Gilbert)
The Monster in Me
Rock & Roll Over
As Far as I Can See
Wild World *
East/West *
Just Take My Heart **
Fragile **
Around the World *
(solo - Billy Sheehan)
Addicted to That Rush *

To Be With You *
Colorado Bulldog *

Living After Midnight ***
The Light of Day ****
Mr. Big **

* Pat Torpey na percussão e backing vocals
** Pat Torpey na bateria
*** Pat Torpey nos vocais, Billy Sheehan e Matt Starr nas guitarras, Eric Martin no baixo e Paul Gilbert na bateria)
**** Pat Torpey e Eric Martin nos vocais

Mr.Big é:
Eric Martin: voz e violão
Paul Gilbert: guitarra e voz
Billy Sheehan: baixo e voz
Pat Torpey: bateria, percussão e voz
Matt Starr: bateria e voz









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