RPM: Show recheado de clássicos e poucas músicas da nova fase

Resenha - RPM (Musique, Fortaleza, 09/08/2014)

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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No sábado, 9 de agosto, algumas milhares de pessoas foram à casa de shows Musique, em Fortaleza, para ver ou rever a banda REVOLUÇÕES POR MINUTO, ou, como todos realmente a conhecem, pela sua sigla, RPM. Ali estavam pessoas de todas as idades, desde pessoas que testemunharam o fenômeno de uma banda de rock vender mais que o Roberto Carlos (fato inédito e jamais repetido) ou jovens que tomaram contato com a musicalidade do RPM através de seus pais, tios e irmãos mais velhos a outros que estavam ali apenas para a balada da semana.

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Fotos: Marcelo Sousa

Luiz Schiavon é o primeiro a ocupar seu posto e disparar a intro do que seria uma curta versão de "Radio Pirata", seguido de Deluqui com o riff da música, mas foi quando Paulo Ricardo chegou com o pulsar de seu baixo que o público quase derrubou a casa. "Loiras Geladas", primeiro remix de música brasileira foi a próxima. Apesar de Paulo Ricardo ser o galã, a estrela, o frontman por excelência, é Schiavon que dá alma às músicas, do alto dos sete teclados que comandava (às vezes, mais de um por vez).

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Um dos motivos porque o RPM é uma banda interessante é a inversão dos papeis no palco, as posições dos músicos, o tecladista Luiz Schiavon muitas vezes é o responsável por alguns dos melhores solos e também pelos riffs de base, junto com o baixista (e vocalista) Paulo Ricardo, enquanto Deluqui enriquece o som, como faria um bom tecladista. E Paulo Pagni, um pouco eclipsado ao fundo do palco, imprimia o ritmo frenético que fazia todo mundo dançar.

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Da trilha sonora do reality show global, vem "Vida Real", responsável por trazer de volta os holofotes para as cabeças dos quatro coiotes. Seguida de "Juvenília", lado B do disco de estreia, com sua letra sombria e complexa, às vezes desconexa e excepcional trabalho de teclado de Schiavon. E, por falar em holofotes, em termos de luz a produção do show se esmerou, com incontáveis canhões e, às vezes, imagens no telão de fundo de palco de acordo com o tema da música em execução. O som, um desafio enorme para os mesários, numa mistura de rock, pop, electro, synth-pop e até progressivo. Outro fato que muitas vezes passa despercebido é que Paulo Ricardo, além de cantor, é excelente baixista, fugindo, inclusive, muitas vezes das linhas de Pagni.

Ao final de "Liberdade/Guerra Fria", na qual os quatro músicos se destacaram, Paulo Ricardo, que sempre foi bastante politizado, fala sobre como nunca estivemos tão próximos de uma guerra como agora, das três aeronaves ucranianas abatidas pelos russos e do governo brasileiro que, em suas palavras, finge que não está acontecendo nada. Faz isso antes de seguir com "Muito Tudo", canção que em sua letra explica a nova direção musical assumida no novo disco, chuta o balde e liga o foda-se.

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A banda que apresentou THE DOORS para muita gente dedicou "A Cruz e a Espada" a Renato Russo, falecido líder da LEGIÃO, que teve tanta importância na época do auge do RPM e ainda hoje, com direito a trecho de "Save A Prayer", a primeira citação da noite.

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Deluqui finalmente mostra todo o seu feeling de guitarrista, mas Schiavon ainda consegue dar um toque GENESIS ao blues "Partners", excelente faixa de "Quatro Coiotes". O clima continua bluesy com "Exagerado", de CAZUZA, outro ícone do rock nacional. Aqui Pagni e Schiavon apenas aguardam enquanto Deluqui detona em uma guitarra lap steel, com o acompanhamento de Paulo Guitarra na gaita e o público nas palmas. A canção ainda teve direito à citação da canção escrava norte-americana "You Gotta Move" (gravada pelos STONES e pelo AEROSMITH).

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O RPM conseguiu a façanha de colocar um tema instrumental nas músicas mais tocadas nas FMs do Brasil. E é também um momento raro em um show de uma banda pop-rock a inserção de não uma, mas duas instrumentais. "Mergulho", de Fernando Deluqui, num momento que remete a "Last Horizon", de Brian May. E "Naja", uma canção que, sem palavras, vale por um show inteiro.

Antes da canção irmã de "Debaixo dos Caracóis", do Rei, Paulo Ricardo mencionou que Caetano compôs essa pequena obra prima durante o governo de Garrastazu Médici. Casais apaixonados aproveitavam para se beijar, mas... a canção é sobre tudo menos amor, amor romântico. É exílio. É dor. É distância. É Gaza. Haveriam artistas em Gaza compondo canções assim? Não, pera, eles estão morrendo debaixo das bombas.

Paulo Ricardo dá alguns autógrafos enquanto seus três amigos coiotes se arrumam no palco para um momento acústico, com Pagni num pandeiro, Deluqui num violão e não me perguntem o nome do instrumento tocado por Schiavon. "Dead Flowers", dos STONES é a primeira do set. Paulo Ricardo comenta que resolveram criar aquela "célula acústica para ficar mais perto de vocês". Um trecho de "Ruby Tuesday" também entra no set antes de "Onde Está O Meu Amor", trilha de novela que casa mais com a carreira solo de Paulo Ricardo, cantada por (quase) todos na plateia. As primeiras notas de "Wish You Were Here", clássico floydiano transformaram a Musique num grito só, para, em seguida, dar lugar ao maior sucesso da carreira solo de Paulo Ricardo, "Dois".

Fernando, Pagni, Luiz, pedido de amigo, em nome de tudo que há de mais sagrado, não deixem mais o Paulo Ricardo compor sozinho não. Ele não lida muito bem com isso. Bem, o resto do público não concordou comigo e cantou palavra por palavra da canção. O set acústico fechou com um trecho de "Easy", dos COMMODORES e, concluindo, "Wish You Were Here". Ao final do show dentro do show, Paulo Ricardo nem se incomoda de assinar mais camisas de fãs.

Com citação a "No Woman No Cry", "Flores Astrais" é a homenagem a quem, segundo Paulo Ricardo, transformou uma banda de coral numa banda de verdade, NEY MATOGROSSO, diretor do show que deu origem ao disco "Rádio Pirata Ao Vivo". Este colaborador tem nas memórias de infância a imagem de um verme caminhando em uma lua cheia. E "Radio Pirata Ao Vivo", ao lado de um disco do QUEEN foram os responsáveis por inserir o rock em sua vida.

Com Paulo Ricardo de volta ao baixo, "Revoluções Por Minuto" parece ser novamente o início do show, dada a catarse do público. Ao fundo, imagens das manifestações de junho de 2013. E quem lembra dos avisos de proibição de veiculação pública na capa do LP? Hoje, pelo menos temos um pouco mais de liberdade. Parece. No mesmo pique, vem "Alvorada Voraz". Coroa Brastel, o crime da mala, o escândalo das joias hoje deram lugar ao mensalão, ao trensalão, à privataria tucana, aos descaminhos de Pasadena e do Porto de Cuba. Essas letras curiosamente parecem ter sido escritas semana passada. "Esse ano temos eleição pra presidente. Mas eu não tenho saco pra política. Esse é o nosso Olhar 43", declama Paulo Ricardo antes de mais um estrondoso sucesso do RPM, com louca levada de baixo e imagens da banda em programas como os da Xuxa e do Chacrinha, nos agora já distantes anos 80.

No bis, "Dois Olhos Verdes", do Elektra, que funciona bem melhor ao vivo. O show fecha com uma reprise de "Radio Pirata", mas, dessa vez, numa longa e imperdível jam, na rádio pirata de Paulo Ricardo, Paulo P.A. Pagni, Fernando Deluqui e Luiz Schiavon tocam THE DOORS, mais ROLLING STONES, LED ZEPPELIN.

Quem venceu o preconceito em assistir a uma banda que se rende cada vez mais à inclusão de música eletrônica em seu rock (ou até mesmo de rock em sua música eletrônica), assistiu a um dos melhores shows de rock nacional dos últimos tempos na capital cearense. E, após a despedida dos quatro coiotes, quem ficou por lá ainda pode conferir FETS DOMINO e sua banda, apresentando clássicos do hard rock que foram sucesso nas vozes de gente como Steven Tyler.

Agradecimentos: Denor Sousa, pela atenção e credenciamento.

Set List RPM
1. Rádio Pirata
2. Loiras Geladas
3. Rainha
4. Vida Real
5. Juvenília
6. Liberdade/Guerra Fria
7. Muito Tudo
8. A Cruz e a Espada/Save a Prayer (DURAN DURAN)
9. Partners
10. Exagerado/You Gotta Move (ROLLING STONES)
11. Mergulho
12. Naja
13. London London
14. Dead Flowers (ROLLING STONES)/Wish You Were Here (PINK FLOYD)/Ruby Tuesday (ROLLING STONES)/Onde Está o Meu Amor/Dois (PAULO RICARDO)
15. Flores Astrais/No Woman No Cry (BOB MARLEY)
16. Revoluções Por Minuto
17. Alvorada Voraz
18. Olhar 43
19. Dois Olhos Verdes
20. Radio Pirata/Light My Fire (THE DOORS)/You Can't Always Get What You Want (ROLLING STONES)/Whole Lotta Love (LED ZEPPELIN)

Todas as fotos por Marcelo Sousa. Confira mais logo abaixo:

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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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