Manilla Road: Metal da mais alta qualidade em Londrina
Resenha - Manilla Road (Hush Pub, Londrina, 12/07/2014)
Por Fernanda Tavares
Postado em 19 de julho de 2014
Ah, julho! O mês perfeito para se ouvir música ruim tocando exaustiva e gritantemente nos pátios de uma igreja lotada. Boa companhia e boas comidas típicas, mas os ouvidos cansam depois da primeira rodada das canções tradicionais. Chego ao Hush Pub em Londrina – PR já cansada de mais uma festa julina, mas na luz baixa da pequena casa de shows recobro minhas energias – hoje é dia de metal, bebê.
Metal da mais alta qualidade: dos primórdios das guitarras épicas, Manilla Road se apresenta pela primeira vez em Londrina, fechando sua primeira turnê em terras brasileiras. Recebemos os dinossauros norte-americanos, que estão na ativa desde 1980 com o álbum "Invasion", numa celebração do epic metal – gênero dos quais eles são considerados pioneiros. Nos outros três shows da banda no Brasil, a turnê sul-americana Between The Hammer and The Axe contou com a presença da banda Omen, também dos EUA. Porém aqui na pequena Londres estivemos à sós neste momento épico, e quando digo à sós, é também para sinalizar a grande surpresa que tive: pouquíssimas pessoas prestigiando o som. Desconheço o número exato da casa, mas éramos poucos os fãs e curiosos ali presentes. Tive a tensa sensação de que era a única ali com menos de 25 anos de idade, e a quantidade de mulheres era mínima também... p*#%a, cadê os headbangers dessa cidade?! É um ambiente bastante underground para uma banda que vêm criando música verdadeiramente épica, de qualidade indiscutível, a mais de 30 anos.
Existe público para o Heavy Metal em Londrina? Numa estranha contradição, fui completamente surpreendida pelo som da banda local Dead Reward, que abriu o show. Numa troca de olhares entre os músicos e sem muito anúncio, por volta das 23h30 começou um pocket show digno de grandes festivais. Doom Metal de alta qualidade, com guitarras pesadas e sombrias, passagens melancólicas e riffs mais lentos criando atmosferas taciturnas. Lembra os primórdios do Black Sabbath, com muito peso, sem frescuras, com arranjos bem resolvidos. O certo tom de terror dramático também me recordou algumas passagens da banda holandesa Carach Angren.
Mas bem além de simples comparações, a banda se apresentou com muita firmeza, sem intimidação pelo público magro, mostrando um instrumental sensacional. Notei a ausência de um baixista, mas mesmo assim a atmosfera da música era perfeita – e então o vocalista e guitarrista Felipe Côrtes anunciou que Saulo Marlier, o baixista da banda, não estava presente naquela noite por problemas pessoais. Os solos de Rogério Marlier "Black" ditavam o peso, junto com a bateria de um bumbo apenas, ‘seca’, de Alysson Farinazo. Apesar de estarem em diferentes "categorias" do metal, o som da banda Dead Reward casou de forma muito agradável com os principais da noite. Os vocais oscilam entre o limpo e o gutural. Foi com certeza uma ótima escolha para abertura.
Para quem quiser conferir os caras, estão disponíveis alguns vídeos em sua página oficial no YouTube ("Dead Reward"), sendo um deles de uma apresentação ao vivo. Ou melhor ainda: sugiro uma visita à página oficial no Facebook ("Dead Reward") e contato via inbox para adquirir um EP gravado em 2013, contendo duas músicas. São 20 minutos de puro metal. Vale a pena!
Setlist Dead Reward:
Your Weakness
Loneliness and Sadness
Failure
Crossing Over
Insomnia
Choices
Banda:
Felipe Côrtes (vocal/guitarra)
Rogério Marlier "Black" (guitarra)
Alysson Farinazo (bateria)
Saulo Marlier (baixo)
- Participação especial: Carol Calliari (vocal)
E então exatamente à uma hora da manhã tem início uma longa jornada épica. Flaming Metal Systems, faixa bônus da reedição do ano 2000 do álbum Crystal Logic, abre a noite. O vocalista Bryan "Hellroadie" Patrick demora um pouco para subir ao palco, mas tudo bem, porque o público já está idolatrando a lenda Mark "The Shark" Shelton e se divertindo com os muito carismáticos Joshua Castillo (baixo) e Andreas "Neudi" Neuderth (bateria). Desde já nós entendemos como será o show: o estilo da música dos americanos é, de certa forma, "estacionado" no tempo, mantendo um tom muito tradicional de seu epic metal. Isso não é, de forma alguma, uma coisa ruim! É uma característica marcante da fidelidade e QUALIDADE da banda. Mas talvez justifique a pouca aceitação de um público mais comercial. Sem problemas, nós permanecemos curtindo lá. Há um pouco de metal em Londrina!
The Shark anuncia a quadra seguinte, o "coro": uma compilação de terror. Começando pelas viradas marcantes da guitarra e bateria, aí vem The Masque of The Red Death, seguidas de Death By The Hammer, Hammer of The Witches e Witches’ Brew. Uma atrás da outra sem piedade, levantando o público com os temas medievais e solos intensos. É a primeira parte do show, e em todos os momentos a banda executa perfeitamente suas músicas e o público acompanha – os fissurados da primeira fila, quase em cima do palco, cantam junto e colocam os punhos no ar acompanhando as letras – "death/by/the hammeeer!".
Alguns problemas técnicos marcam esse início, com Bryan Hellroadie sinalizando para o técnico de som algum problema com seu retorno, além do microfone distintamente baixo de Mark, que impede que suas partes vocais sejam escutadas com muita clareza. O problema do retorno logo é resolvido, mas o microfone permanece estranho e a voz cansada, característica do guitarrista, fica um pouco prejudicada.
Após uma breve fala de agradecimento, o show segue com Open the Gates, do álbum homônimo de 1985. Este álbum, em especial, é mencionado diversas vezes durante o show, sempre com muita empolgação – Bryan até menciona, antes de começar mais uma, que percebe o quanto Open the Gates é querido para o público londrinense. Only the Brave, que a segue, é a única do setlist pertencente ao mais recente álbum da banda, Mysterium, de 2013: pessoalmente, ainda me era desconhecida, e então acompanho com curiosidade. É ritmada, com o baixo bastante marcante, é breve, mas ainda sim bastante característica ao Manilla Road: se o vocalista não tivesse avisado, acho que eu a teria confundido com alguma outra canção mais antiga da banda.
Road of Kings, mais uma de 1985, é praticamente "by request": Bryan pergunta o que queremos ouvir agora. Um fã mais exaltado grita "Witches’ Brew" – dando risada, o vocalista o relembra que essa já foi! Alguém grita "Road of Kings" e acerta em cheio. A música é rápida, objetiva, e o coro final é cantando em uníssono "strong we will be, on the road of kings, for what glory it brings us!". Ponto alto para o querido baterista Neudi! Ele, com uma bandana e camiseta do N.W.O.B.H.M., saúda o público: "eu amo todos vocês aí no fundo!", e cai na risada para emendar logo em seguida "ah, e vocês aqui na frente também!". Divertido, simples, e muito agitado, mandando a ver nas baquetas. E então em Divine Victim (The Deluge, 1986), ouso dizer que a dupla baixo + bateria consegue ultrapassar a guitarra: elas guiam completamente a música, se destacam de forma única, e ao vivo a fórmula funciona ainda melhor! Fiquei mais uma vez surpresa com a intensidade dos "dinossauros".
Segue The Ninth Wave, mais uma de Open The Gates, em 9 minutos de puro metal. Quando digo que o som da Dead Reward casa muito bem com o do Manilla, talvez seja porque algumas passagens dos americanos aqui também me lembrem o sabá negro. The Ninth Wave, e também a seguinte Cage of Mirrors, são bons (ótimos!) exemplos dessa semelhança.
É a hora dela, Cage of Mirrors. Aah! A única aqui presente do segundo álbum da banda, Metal (1982), é simplesmente sensacional: os 8 minutos são o momento de ouro do mestre The Shark, iniciando suave na guitarra e cantando sozinho a introdução, iniciando a história de magia, religião e uma eternidade presa em uma "gaiola de espelhos". Infelizmente, aquele problema com o microfone do guitarrista permanece, está baixo e prejudica a introdução. Bryan Hellroadie percebe e "empresta" seu microfone, antes de começar ele mesmo a cantar. O ‘dueto’, que já seria arrepiante pela própria composição, fica ainda mais épico com esse "compartilhamento": a cena é bonita, de uma banda que se conhece bem, que já tem uma boa bagagem e sabe lidar com as mais diversas situações no palco.
The Ram, a primeira aqui do magistral álbum Crystal Logic de 1983, é uma abertura necessária para o show continuar com perfeição para a trinca seguinte de canções, que explicam por quê a banda é considerada legendária. Começando com a ótima Crystal Logic, homônima ao álbum: o grito inicial da guitarra já é arrepiante, e os riffs que a seguem levantam mais uma vez o Hush Pub. O refrão e as sequências melódicas de "Logic/ Crystal logic/ Crystal magic/ Crystal logic" são emocionantes e a voz nasalada de Bryan segura perfeitamente o coro. É um clássico. Seguindo, Mystification é anunciada como uma continuação antes do clímax da noite. A canção dispensa comentários – faixa-título do álbum de 1987, segue um caminho mais direcionado ao power metal e é uma das melhores. O longo solo é mais um momento mágico de The Shark, e os refrãos cadenciados são cantando em uníssono.
E então, com grande expectativa, a canção que seria o fechamento perfeito da noite é Necropolis! Um dos maiores hits da banda, faz jus à fama: grudenta, rápida, fácil de ‘apaixonar’. O mini-refrão "lost in Necropolis" é cantando por todos com ânimo crescente! É ponto alto da noite, como Hellroadie já havia anunciado. Chave de ouro!
Fazendo menção de finalizar o show, Manilla Road começa a se despedir... mas os fãs, mesmo que em pouco número, estão de corpo e alma ali. Queremos mais! Depois de alguns pedidos e algumas negociações da banda, somos presenteados com mais dois momentos para assim fechar a noite: Up From The Crypt, rápida e matadora em seus riffs meio thrash; e o HINO Heavy Metal To The World, com a carinhosa (?) menção "Heavy Metal to Londrina tonight". Há! A Pequena Londres agradece a força dessa lenda, e com certeza vamos nos lembrar da promessa de "esperamos voltar logo!".
Setlist Manilla Road:
Flaming Metal System
Masque Of The Red Death
Death By The Hammer
Hammer Of The Witches
Witches’ Brew
Open The Gates
Only The Brave
Road Of Kings
Divine Victim
The Ninth Wave
Cage Of Mirrors
The Ram
Crystal Logic
Mystification
----
Necropolis
----
Up From The Crypt
Heavy Metal To The World
Banda:
Mark "The Shark" Shelton (guitarra/vocal)
Bryan "Hellroadie" Patrick (vocal)
Josh Castillo (baixo)
Andreas "Neudi" Neuderth (bateria)
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