Guns N' Roses: Revólveres carregados no melhor show da turnê

Resenha - Guns N' Roses (Centro de Eventos do Ceará, Fortaleza, 17/04/2014)

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Como explicar o GUNS N' ROSES? A banda foi um fenômeno que sacudiu o planeta nos anos 80 e 90, se envolveu em diversas polêmicas, passou por inúmeras mudanças de formação (algumas atraindo uma legião particular de fãs) e escreveu para sempre seu nome na história do rock e algumas de suas canções transformaram-se em trilha sonora da vida de milhões de pessoas em todo o planeta. O que faz com que, apesar de receber críticas tão duras, continue levando multidões aos seus shows e arrancando sorrisos de orelha a orelha de quase todos eles? O que faz mais sentido ao se falar de GUNS N' ROSES? "Once there was this rock and roll band rolling on the streets, time went by and it became a joke" ou "This fire is burnin' and it's out of control, It's not a problem you can stop. It's rock n' roll"? É preciso ir a um show deles para tentar responder essas perguntas.

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Foto: Dayse Anne Meneses
Foto: Dayse Anne Meneses

O texto abaixo é longo. Seria impossível não sê-lo ao falar de um show que durou três horas e de uma espera que demorou vinte e dois anos. Também é muito emocional, como também seria impossível que não fosse.

As filas começaram a se formar no Centro de Eventos do Ceará logo cedo. Por volta de 9 da manhã, algumas dezenas de fãs do GUNS N' ROSES já haviam se posicionado em frente às entradas para tentar curtir o show o mais próximo possível do palco (naquele momento nem se sabia se começaria no final daquele dia ou se apenas no dia seguinte, dada a fama, confirmada durante esta turnê, de Mr. Axl Rose de debochar dos horários). Quando, às 8 da noite os portões foram abertos, a pressa dos fãs do frontstage e um pouco de falta de informação dificultou a troca dos tickets de bebida do frontstage. Apesar do valor do ingresso do setor em frente ao palco ter sido bem menor que em todas as outras localidades, o bilhete ainda dava direito a três bebidas (cerveja, água ou refrigerante). Que o canhoto do ingresso deveria ser trocado por três tickets já havia sido divulgado, mas, mesmo assim, na hora de entrar, muitas pessoas não viram onde fazer esta troca e, na ânsia por um lugar melhor para ver AXL e cia., acabaram não podendo desfrutar do benefício (pelo menos puderam ficar com um souvenir).

A estrutura do Centro de Eventos comporta com folga eventos da magnitude daquele que aconteceria naquela noite. A mega-estrutura montada pela Social Music, com o suporte da Arte Produções, para a apresentação do GUNS N' ROSES era impressionante, mas alguns pecados ainda puderam ser percebidos. Em primeiro lugar, a proporção do frontstage em relação à pista comum era exagerada. A segunda área mais cara do evento parecia tomar mais da metade do espaço disponível, deixando mesmo os primeiros ocupantes da pista a uma distância do palco bem maior do que o que se poderia esperar (é preciso lembrar também que a pista comum era o único setor que aceitava meia-entrada). Como se isso não bastasse, houve quem reclamasse da torre de delay, mal posicionada entre o palco e a pista e atrapalhando a visão. Comentários negativos acerca da audibilidade do som na pista também foram feitos, alguns instrumentos ficavam embolados ou abafados. Mais um ponto que deve ser mencionado é a falta de um local apropriado para cadeirantes. Francisco Wilker Girão, cadeirante, tinha iniciado uma cruzada por um lugar digno para assistir ao show de uma de suas bandas preferidas. Na empreitada, teve o apoio da mídia local e até de um vereador, recebendo a promessa de que seu direito de ver o octeto seria respeitado. Pelas fotos abaixo, vemos que não foi isso que aconteceu. O local reservado para os sete cadeirantes, alguns amputados e seus acompanhantes, ao lado da parede do camarote não era elevado, impedindo a visão do palco. Já demos aqui outros exemplos em que estas pessoas foram respeitadas e exemplos em que não foram tratadas como qualquer outro pagante de ingresso.

Foto: Wilker Girão
Foto: Wilker Girão

Foto: Wilker Girão
Foto: Wilker Girão

O HSBC Brasil, casa em São Paulo, apresenta uma solução bem simples e fácil de copiar. Basta colocar portadores de necessidades especiais em uma área elevada junto a seus acompanhantes devidamente sentados (a área foi disponibilizada, mas a falta de elevação fez toda a diferença negativamente). Cadeirante não pode ficar no mesmo nível das outras pessoas, senão não vê nada. Cadeirante não pode ficar no espaço entre o público e o palco. Isso dificulta a sua visão, isola-os de seus acompanhantes e ainda atrapalha o trabalho dos fotógrafos. Acompanhante de cadeirante não pode ficar em pé (como aconteceu no show do BLACK SABBATH, no Campo de Marte, em São Paulo). Isso atrapalha a visão de quem está atrás. São regras bem simples, mas tem sido esquecidas em todo o Brasil e Fortaleza poderia, mas não fez diferente.

Como ponto positivo, é necessário ressaltar que a imagem dos telões era de altíssima definição. E, durante o show, veríamos que as imagens captadas fariam justiça a cada integrante em seu momento de brilho. Parabéns para quem estava responsável pela edição. Além disso, as saídas de emergência estavam bem sinalizadas (embora, felizmente por não ter sido necessário usá-las, não possamos afirmar se atenderiam à demanda) e bombeiros e enfermeiros de prontidão eram facilmente localizados. Esses pontos, no Brasil pós-Santa Maria, merecem ser sempre lembrados.

A produção da turnê (dizem até que a palavra final foi do próprio AXL) escolheu como banda de abertura a cearense ZERO85 (dois dias antes, outra cearense, a VATZ já tinha aberto os trabalhos em Recife). Com um som mais voltado ao pop rock e de estilo bem distante do da banda principal, a preferida também de NANDO REIS não conseguiu empolgar todo o público, mas não fez feio no maior show de suas vidas. Entre os descontentes, havia quem confundisse banda de abertura com banda que antecede o headliner em um festival (como os RAIMUNDOS que participaram do mesmo festival que o GUNS na capital mineira, por exemplo), havia quem torcesse por outras bandas que representassem melhor o variado cenário roqueiro da cidade, mas a ZERO85 e a VATZ se equiparam a outras bandas que abriram a turnê, como DR. PHEABES e GUNPORT. O melhor desempenho em palco coube ao baterista PH Barcellos, sempre enérgico. Completam a banda os guitarristas Tony Pontes e Abraham Carlos, o baixista Hermano Bezerra e o vocalista Paulo Sérgio Porto. Fizeram parte do show, entre outras, as bonitas e bem pop "Em frente à Porta" e "Falta", "Na Sua Direção" (cujo clipe tem feito parte da programação do canal Multishow) e sua melhor composição, "Aqui". Com bom trabalho de baixo, "O Tempo" deu por encerrado o show do quinteto cearense. O vocalista Paulo Sérgio declarou: "a gente tá aqui tão fã quanto vocês. A gente veio pra ver o GUNS e aproveitou para mostrar o nosso trabalho". Apesar do som deles não ser mesmo a minha praia, parabenizo-lhes a coragem. Poderiam ter ido pelo caminho fácil das covers, mas optaram (ou tiveram que fazer isso) por seu trabalho autoral. O fim do show (de apenas cerca de meia-hora) também representava o início de uma longa espera.

Foto: Dayse Anne Meneses
Foto: Dayse Anne Meneses

Felizmente, esta espera não aconteceu. Apenas dez minutos após o horário previsto, AXL Rose, Duff McKagan, Richard Fortus, D.J. Ashba, Frank Ferrer, Chris Pitman, Dizzy Reed e Ron "Bumblefoot" Thal subiram ao enorme palco. Além da parte principal do palco, ainda havia uma parte elevada onde ficavam posicionados Reed e seu piano, Pitman e seus teclados (com as teclas voltadas para o público - todo tecladista deveria tocar assim) e o baterista Ferrer. A emoção tomou conta do local e a loucura era geral logo que soaram as primeiras notas de "Chinese Democracy" na guitarra de D.J. Ashba (mesmo com algumas pessoas com cérebro pequeno e tablets grandes filmando e tomando a visão de outros para assistir mais tarde, com péssima qualidade, em seus sofás ao show que deveriam estar assistindo naquela hora). Por falar em sofás, analisar um show do GUNS N' ROSES do sofá de casa é muito fácil. A apresentação no Rock In Rio é triste. O DVD gravado em Nurburgring é desprezível. Analisar o show do GUNS N' ROSES quando o GUNS N' ROSES está à sua frente, no palco, é outra estória.

Foto: Alexandre Meneses
Foto: Alexandre Meneses

Foto: Dayse Anne Meneses
Foto: Dayse Anne Meneses

Inatento aos "perils of rock and roll decadence", Mr. AXL não tem a mesma voz, gravada em nossas memórias por mais de vinte anos. Nestes mesmos vinte anos (vinte e nove, na verdade), o astro detonou a garganta imitando Dan McCafferty sem cuidado, abusando de drogas e álcool. Mesmo assim, ele ainda corre pelo palco, sobe e desce cantando as escadas do segundo palco, atinge notas altíssimas, emociona e impressiona. E também nos emociona a presença do grandalhão Duff McKagan também emociona, como também impressiona Ron Thal, com sua guitarra double neck. "Welcome To The Jungle" foi a primeira música "de rock pesado" que ouvi em minha vida (na ocasião, quase todas as músicas pareciam iguais), então não é possível não deixar marejado este texto ao ouvi-la sendo cantada pelo próprio AXL Rose em pessoa. Daquele disco tão icônico seriam nada menos que oito faixas. E que belo presente a Argentina, o Paraguai, a Bolívia e o Nordeste Brasileiro receberam. Nunca uma substituição foi tão feliz (e eu, a partir de hoje já sou fã do REPLACEMENTS "desde criancinha"). Duff McKagan está ali. É claro, não há como não desejar a presença também de um certo músico que usa cartola, ignorar isso seria ignorar todo o meu passado, mas, ver AXL e Duff cantando "It's So Easy" lado a lado já é algo a contar para os netos no futuro. Que belo presente.

Foto: Alexandre Meneses

Foto: Alexandre Meneses
Foto: Alexandre Meneses

Foto: Alexandre Meneses
Foto: Alexandre Meneses

AXL sai de palco até nos solos menores. Se vai tomar uma água, um ar ou apenas trocar de chapéu e jaqueta (pra que tantos?), não importa. Sua voz realmente falha em "Estranged", "Rocket Queen" mas nada que realmente atrapalhe o show e tudo o que essas músicas trazem de volta à nossa memória, pais perdidos e outras pessoas que o tempo levou. "Bons rapazes não tocam rock and roll", mas AXL está incrivelmente simpático, sorrindo várias vezes para seus fãs.

Foto: Alexandre Meneses
Foto: Alexandre Meneses

Duff. Foto: Dayse Anne Meneses
Duff. Foto: Dayse Anne Meneses

Ashba e Duff também mostram muita simpatia e jogam palhetas ao fim de cada música. A movimentação no palco é intensa, AXL, Duff, Ashba e Fortus vão o tempo inteiro de um lado para o outro, giram ao redor de si mesmos, sobem nos PAs, sobem ao segundo palco e brincam entre si. Bumblefoot é o mais calmo dos "cinco frontmen", incorporando o guitarrista mais técnico. Ao fim de "I Used To Love Her", AXL repete a brincadeira que fez em Recife. "Eu vou lhes apresentar um novato. O cara ainda está muito fresco, então sejam pacientes com ele".

Foto: Dayse Anne Meneses
Foto: Dayse Anne Meneses

Foto: Dayse Anne Meneses
Foto: Dayse Anne Meneses

Foto: Dayse Anne Meneses
Foto: Dayse Anne Meneses

O octeto de hard rock transforma-se num quinteto punk (com dois teclados!), AXL, Ashba e Thal se ausentam e Duff assume os vocais em "Attitude" (MISFITS), surpreende todos com um trechinho de "You Can't Put Your Arms Around A memory" (que já é bem comum nos shows da LOADED mas não tinha aparecido ainda num show do GUNS) e "Raw Power" (STOOGES). De volta ao palco, AXL expõe a fragilidade de sua voz ao confrontá-la com baixo forte de McKagan, mas, ainda assim, o sonho de adolescência desse velhinho que vos escreve ainda foi perfeitamente realizado.

Foto: Alexandre Meneses
Foto: Alexandre Meneses

A introdução irritante de "Better", na guitarra de Ashba não tira o brilho de uma das novas (nem tão novas assim) canções chiclete do GUNS (a música é boa, essa introdução é que é um porre). A música antecede o momento solo de Richard Fortus no show (e mais uma pausa para AXL). Apesar de ser o momento de Fortus, Duff e Ferrer também mandam ver sendo muito mais que uma boa cozinha para acompanhá-lo.

Mesmo com pirotecnia bem mais discreta do que a vista há quase um ano no show do autor da canção (PAUL MCCARTNEY), "Live and Let Die" explode corações (o trocadilho é inevitável). AXL desafina até em "This I Love", canção mais recente e que, na teoria, deveria se adequar mais às atuais condições do vocalista. O momento solo de Dizzy Reed vem em seguida. É um bonito solo, mas cada um desses momentos se torna um pouco anti-climático.

Foto: Alexandre Meneses
Foto: Alexandre Meneses

A também "chinese" "Catcher In The Rye" também não funciona muito, parece uma bagunça com a banda não tão entrosada como em todo o resto do show. Ferrer faz a chamada na bateria, iniciando o coro de "gan-zen-rou-sés, gan-zen-rou-sés" e o público volta a pular ao som de "You Could Be Mine", com imagens que lembram o Terminator no telão de centro do palco. Na parte rápida da canção, o desempenho de AXL é sofrível. Não influenciaria nenhum adolescente de "fourteen years" a querer aprender inglês (como já fez) só pra poder se orgulhar de declamar esse trecho tão rápido. Horrível. Apesar disso, o que se via era um imenso turbilhão, com vinte mil pessoas em perfeita ebulição. Mais um momento solo (dessa vez, de D.J. Ashba, com Bumblefoot no violão). E o Centro de Eventos do Ceará explodiu com "Sweet Child of Mine". Foi também o mote para a homenagem dos cearenses à banda. Como combinado nas redes sociais, muitos levaram um trechinho da música impresso em folhas de papel e o levantaram na hora da música. A homenagem foi bonita, mas, infelizmente, se a banda chegou a perceber, não fez nenhuma menção ao final da música.

Foto: Alexandre Meneses
Foto: Alexandre Meneses

Para o momento seguinte, a estratégia das longas jams (aqui com trecho de "I'm Gonna Leave You", do LED ZEPPELIN) tem explicação clara: é a hora em que o piano de AXL é empurrado para o centro do palco. A canção estilo "Layla" de AXL (como ele mesmo confidenciara a uma revista há muitos anos atrás), uma das top ten já compostas por qualquer banda do mundo, "November Rain" arranca lágrimas já no primeiro "fá", é um momento mágico para não se ver (é melhor ouvir, enlouquecer e ter um bom ataque epilético de olhos fechados).

Foto: Alexandre Meneses
Foto: Alexandre Meneses

Foto: Dayse Anne Meneses
Foto: Dayse Anne Meneses

"Abnormal", canção de Bumblefoot, que representa o seu momento no show, é uma composição interessante, um punk de estrutura interessante que desperta o interesse para o material solo do guitarrista e torcer por uma participação ativa dele na composição dos novos discos do GUNS (se houver algum). Impressionante também é que até aqui Duff se destaca com seu baixo. O baixista da formação clássica se impõe não só nas canções que foram gravadas quando era membro oficial, mas também nos solos de seus colegas e nas canções do "Chinese Democracy", mesmo com suas quatro cordas competindo com outras dezoito (ou vinte e quatro, quando Bumblefoot faz uso de uma double neck).

Se a plateia de Pernambuco foi ao delírio ao ouvir seu hino na hora da homenagem que Bumblefoot tem feito durante toda a turnê (ele também já tocou o Hino Nacional e o Tema da Vitória, lembrando Airton Senna), o mesmo efeito, shame on us, não teria sido alcançado aqui, então é AXL que homenageia o povo cearense usando um chapéu de cangaceiro em "Civil War". Você leu corretamente, mas eu vou repetir. William AXL Rose, aquela figura que é lembrada por episódios em que descia do palco pra meter o sarrafo em alguém da plateia, homenageou o público onde tocou. Um gesto simples mas que foi muito bem visto e desmistifica um pouco a imagem do AXL turrão, adquirida não inocentemente. Assim como em muitas outras que a antecederam, a canção tem sua letra cantada pelo público (até mesmo a parte falada do filme "Rebeldia Indomável/Cool Hand Luke" e a do guerrilheiro peruano chamado Jorge, "we create a vacuum/we fill that vacuum").

Foto: Victória Gallup
Foto: Victória Gallup

Em seguida é a vez de "Knocking On Heaven's Door", canção que jamais deixará de pertencer ao GUNS N' ROSES (BOB DYLAN apenas gravou uma cover num single lançado dezoito anos antes do lançamento de "Use Your Illusion II"). Os músicos se apropriam da canção do mítico norte-americano estendendo-a com solos sem fim (o que não é nem um pouco mau). AXL está tão feliz que finge que vai fazer um stage dive.

Foto: Alexandre Meneses
Foto: Alexandre Meneses

Ashba, que já tinha simulado mais de uma vez que jogaria a cartola que o acompanha desde que apareceu para o mundo e até a guitarra, pega o celular de um fã, faz um selfie não muito convencional e tira uma foto do público.

Foto: Alexandre Meneses
Foto: Alexandre Meneses

Foto: D.J. Ashba-Brayttner Yuri
Foto: D.J. Ashba-Brayttner Yuri

O show, que já passa das duas horas e meia se encaminha para o seu final, com mais uma jam e "Nightrain". Ashba dá uma de ARTUR MENEZES e desce no palco, entra no meio do público (levando a segurança à loucura) e vai tocar no bar.

Foto: Alexandre Meneses
Foto: Alexandre Meneses

"Patience" vem com mais uma jam (se alguém ainda não tinha sido conquistado por Fortus e Bumblefoot, deve ter se rendido aos dedilhados de "You Can't Always Get What You Want", clássico dos STONES. Quando "Patience" começou pra valer, os gritos emocionados do público chegaram a abafar o assobio de AXL. Algumas notas diferentes no solo de Ashba poderiam ter sido evitadas porém. Se foi um erro, é inadmissível à esta altura. Se foi mais um improviso, já não era mais hora. A seguir, "The Seeker", música do THE WHO foi incorporada ao repertório do GUNS, mas recebeu a assinatura do grupo (tomara que apareça em alguma release futura). Mais uma jam e "Paradise City" põe fim ao show de mais de três horas (que pareceu curto). Apesar do apego dos fãs à canção, é preciso reconhecer a verdade, esta é uma das faixas que o GUNS N' ROSES deveria parar de tocar, ou pelo menos, ser adaptada para as condições atuais de AXL. É um clássico, eu sei, mas é nela e em "You Could be Mine" que a voz dele soa pior e municia todos os seus detratores. O DEEP PURPLE não toca "Child In Time" há doze anos, ELTON JOHN canta uma versão de "Your Song" com voz completamente diferente da original e continua conquistando fãs, porque AXL ROSE insiste nesta canção para ser "the dog they all tried to beat". "Paradise City" tem estado presente nos shows desde 10 de outubro de 1985, em número de execuções só perde para "Welcome To The Jungle" e "Mr. Brownstone", mas o GUNS N' ROSES tem repertório para substituí-la e continuar arrancando do público a mesma emoção. "So Fine", por exemplo, que todos aguardávamos que fosse cantada (devido a uma foto postada por McKagan em seu twitter) acabou não sendo executada em nenhuma das cinco apresentações do GUNS com Duff. Assim como é preciso carregar os revólveres, às vezes é preciso podar algumas rosas.

Mesmo assim, todos os percalços não impediam que, ao fim daquele show, um certo sentimento de saudade tomasse conta dos presentes. Veremos aquele cara de chapéu novamente? E o girafão? E o trio de guitarristas que conquistou até mesmo os mais resistentes fãs de Slash? São também carismáticos e o maior pecado do chapeludo Ashba é ter nascido e conhecido Axl Rose depois que Saul Hudson. Alguns deles perderam a fase áurea da banda mas já são GUNS N' ROSES há mais tempo que os integrantes da formação original. Na despedida, que era também a despedida da turnê sul-americana, AXL agradeceu a Fortaleza, ao Brasil e até aos hermanos da Argentina, Paraguai e Bolívia. Prometeu voltar. Se o fizer, estaremos todos e mais alguns novamente prontos para vê-los. Um colega da imprensa afirmou que alguém da produção da banda confidenciara que tinha sido o melhor show da turnê. Não duvidamos disso.

Finalmente concluindo, se a banda se tornou uma cover de si mesma? Não, não dá pra afirmar isso. Eu também seria um cover daquele adolescente que eu era quando conheci o GUNS N' ROSES. Há quem me considere melhor agora, há quem não. Você também não é mais o mesmo que há alguns anos atrás. Tudo aqui é verdadeiro, como pode ser verdadeiro em 2014. Talvez a presença de Duff McKagan influencie nesta conclusão, mas, mesmo com as limitações inegáveis de AXL, foi uma aula de show e 20 mil pessoas (não só de Fortaleza, mas, também do interior do estado e de estados vizinhos) voltaram pra casa dizendo ter assistido ao show de suas vidas. Os "p...q...p...", numa entonação de desmedido êxtase, povoaram as redes sociais no dia seguinte. O GUNS N' ROSES não é mais uma locomotiva, mas não "gone off the track", não saiu dos trilhos. O amor é cego, mas AXL ainda não deve comprar sua bengala (como disse que faria em "Locomotive"). Por uma via tão esburacada quanto as ruas fortalezenses, o Nightrain continuará sem parar. Que não pare.

Quanto à produção, mesmo com os pecados listados acima, minimizados pela grandiosidade do evento, merece o agradecimento dos fãs por ter lhes dado tamanha oportunidade (inicialmente o último show seria em Assuncion, mas La Paz foi incluída no roteiro e a Social Music, com o suporte da Arte Produções, trouxe a banda de volta ao Brasil para os shows de Recife e Fortaleza). Parecia impossível ver um show do GUNS N' ROSES em Fortaleza. Arte Produções e Social Music, não é mais impossível que eles voltem. E vocês podem trazer METALLICA, IRON MAIDEN, U2, AC/DC (mesmo sem o Malcolm), etc também. Queremos rock. Vinte mil pessoas não me deixam mentir.

Foto acima: Grupo GUNS N' ROSES Fortaleza
https://www.facebook.com/groups/260652194114819/

Quanto à pergunta principal lá de cima, a resposta é: "This fire still burns, although kinda controlled. It's a problem we don't wanna stop. It's still rock and roll".

Este texto é dedicado aos amigos Francisco Antônio, Flávio e seu irmão Wilton e ao Ernesto (Manin), amigos de adolescência em Tianguá que me apresentaram à banda que praticamente mudaria minha vida, mesmo que nem o orkut e o facebook tenham sido capazes de nos reunir novamente. Também é dedicado à minha sobrinha Emanuella. Na próxima vez, quando você tiver idade, prometo que levo você a um show do GUNS N' ROSES, onde quer que eles se apresentem no Brasil.

Agradecimentos: Pedro Aryel, por toda a atenção durante o processo de credenciamento e após o show. Apesar do Whiplash.net ter ficado de fora da cobertura oficial em Fortaleza (assim como ficariam o Andy Secher, da Hit Parader, o Mick Wall, da Kerrang, e o Bob Guccione Jr da Spin), entramos no ringue, fizemos nosso trabalho e ainda recebemos as excelentes fotos do Pedro Aryel que estão no final desta matéria. Agradecimentos também a Brayttner Yuri, Wilker Girão, Victória Gallup, Dayse Anne Meneses e Alexandre Meneses, pelas fotos que ilustram o texto acima e, apesar da qualidade amadora, transmitem a emoção do evento de forma única. Agradecimentos também a Eden Duarte, do Vitrine do Rock, que também nos brinda com um vídeo de alta qualidade (e ao Fernando Pessoa por postá-lo) com mais de meia-hora do show e que você confere abaixo.

Set List ZERO85

1. Outono;
2. Em frente a porta;
3. Falta;
4. Na Sua Direção;
5. Aqui;
6. O Tempo.

Set List GN'R

01 - Chinese Democracy
02 - Welcome To The Jungle
03 - It's So Easy
04 - Mr. Brownstone
05 - Estranged
06 - Rocket Queen
07 - Nice Boys (ROSE TATOO
08 - Used To Love Her
09 - Attitude (MISFITS)
10 - You Can't Put Your Arms Around A Memory (JOHNNY THUNDERS)/Raw Power (STOOGES)
11 - My Michelle
12 - Better
13 - Instrumental de Richard Fortus
14 - Live and Let Die
15 - This I Love
16 - Instrumental de Dizzy Reed
17 - Catcher In The Rye
18 - You Could Be Mine
19 - La Bella Vita (instrumental do D.J. Ashba)
20 - Sweet Child Of Mine
21 - Jam/ November Rain
22 - Abnormal (BUMBLEFOOT)
23 - Don't Cry
24 - Civil War
25 - Knockin' On Heaven's Door (BOB DYLAN)
26 - Jam / Nightrain
27 - Jam / Patience
28 - The Seeker (THE WHO)
29 - Jam /Paradise City

Créditos das fotos abaixo: Alana Andrade/divulgação

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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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