Marcelo Nova: uma viagem musical no último show do ano em SP

Resenha - Marcelo Nova (Sesi Vila Leopoldina, SP, 07/12/2013)

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Por Alexandre Campos Capitão
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Alguns artistas são intimamente ligados não somente à um estilo musical, mas também à um determinado lugar ou à uma determinada cultura. E mesmo viajando com sua obra, aquele vínculo em particular sempre estará presente. É sempre muito bom assistir Marcelo Nova na São Paulo que ele adotou.

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O Sesi Vila Leopoldina possui um teatro de dimensões pequenas, mas com ótima estrutura. Ao entrar avistei o palco com a Gibson Chet Atkins de Marceleza postada à frente de um dos amplificadores. Logo Ari Mendes anunciou o show, o som foi ligado, e a microfonia da mítica guitarra anunciou que era hora do rei do rock. Seu conjunto foi entrando no palco, o baterista Célio Glouster golpeou seus tambores, e assim começou uma volta ao mundo.

Sinais de Fumaça, faixa do fantástico e mais recente álbum 12 Fêmeas, abriu os trabalhos. E de longe se avistou esses sinais e se pode perceber que não era Júlio Verne quem conduzia esse giro, estávamos falando da viagem e do mundo complexo, enigmático e particular de Marcelo Nova.

Após Hoje, viria Noite do álbum Blackout. Curiosamente, ela só entraria no setlist 22 anos depois do seu lançamento. Essa seria a segunda vez que ela ganharia vida nos palcos. E o coração dessa Noite pulsou numa nova versão, como é usual no trabalho ao vivo de Marceleza. “Noite, eu lhe adoro e lhe detesto, mas me conformo com seu resto, o dia que vai nascer”. A viagem seguia, ainda havia vários países a percorrer, não sem antes fazer outra parada no Blackout, então veio Robocop.

Era hora desse trem receber outro passageiro ilustre, e a primeira parceria de Marcelo Nova e Raul Seixas fez as honras. Inoxidavelmente atual, Muita Estrela Pra Pouca Constelação me faz pensar que é sempre assim, em qualquer lugar do mundo que se esteja é a mesma coisa, há alguém pensando que brilha, que é um astro rei, quando não passa de um nada. Se for falar do cenário musical então...

Para prosseguir, o meio de transporte escolhido foi um Dragster cuspindo fogo, e na esteira da sua arrancada veio Old Man Blues (Mose Allison) numa versão para curar a surdez de Pete Townshend. Definitivamente não era estávamos falando de Verne, meus amigos.

Um viajante experiente como Marcelo Nova sabe a hora de sair do volante. Então deixa o palco para seu conjunto brilhar numa versão instrumental de Strawberry Fields Forever (J. Lennon / P. Mccartney). Mas antes de sair explicou o porque se refere aos seus músicos como “conjunto” e não “banda”. “Banda qualquer cabeludo boco moco com camisa de banda de metal pode ter, eu tenho um conjunto”. Como se precisássemos de mais alguma explicação, Drake Nova (guitarra), Leandro Dalle (baixo) e Célio Glouster (bateria) justificaram os elogios do rei do rock. Aliás, fizeram isso por toda viagem, digo, por toda noite. Há de se resaltar que muitos “artistas” contratam grandes músicos, e os obrigam a tocar como juvenis, para não correrem risco de ser ofuscados. Mr. Nova sempre teve alguns dos melhores músicos do país ao seu lado, e sempre permitiu que tocassem tudo o que sabem, ao contrário do temor dos “artistinhas”, seus grandes conjuntos o fizeram brilhar ainda mais. E esse conceito permanece intacto nos seus shows e álbuns, como se pode comprovar a cada noite e em 12 Fêmeas .

E aqui me alongo ao falar desse conjunto. Que sonoridade! Um verdadeiro show dentro do espetáculo. Ao fechar os olhos a viagem ao mundo se transforma numa viagem no tempo. Drake apresenta timbres inusitados, mantém os pés firmes no chão e no wah wah, e a cabeça num horizonte sem limites, pra quem não para de evoluir. Leandro põe o baixo na linha de frente, transitando entre uma técnica limpa e as sonoridades sujas. Célio desce o braço com classe e força, e como boxeador amador, atrás da bateria, é um misto de Muhamed Ali com Mike Tyson. Referências do som que saía dali não faltam, pensei em Experience, Grand Funk Railroad, Cream. E mais uma vez somos obrigados a dar razão à Marcelo Nova e sua sentença “esse é um som em extinção”.

Marceleza volta, viagem que segue. E “navegar à esmo” também faz parte da sina dessa jornada. A Ferro e Fogo foi destruidora, como sempre. Quem se entrega verdadeiramente à essa canção nasce novamente cada vez que a ouve. E quando termina, se pode morrer. E quando se morre, bem... talvez seja mais apropriado tratar disso em outra canção.

Quando Eu Morri começou com um teatro em silêncio enquanto ouvia-se o dedilhar da Gibson Chet Atkins. Ali não se ouvia apenas um belíssimo, único e denso som de guitarra. O que se ouvia era a história do rock nacional sendo dedilhado. Nenhum músico no rock nacional possui associação tão grande com uma mesma guitarra quanto Marceleza com essa Gibson. O rei do rock e seu instrumento. O rei e sua espada. Quantas canções, quantos shows, quantas fotos, quantos sentimentos e emoções provocados tiveram origem nessa
dupla.

Marcelo interrompeu o dedilhado para falar sobre as dores contidas em Quando eu Morri, citando Mcbeth do inglês William Shakespeare. Reforçou que a obra escrita 400 anos atrás, num tempo onde o mundo não continha os paradigmas que nos conduz hoje, é extremamente atual e bela. A genialidade ignora o tempo, contorna o relógio, o calendário e o vento, e faz tudo parecer agora. Inclusive o feedback da guitarra que há pouco declamava e passou a gritar.

O Adventista e Eu Não Matei Joana D´Arc foram as últimas escalas antes do desembarque. Lugares tão conhecidos, cheios de lembranças, mas que ainda guardam novos ares e possibilidades de entretenimento.

O ponto final dessa volta teve a benção de Pastor João e A Igreja Invisível. Marcelo Nova deixava o palco quando passou por vários copos d´água, pegou um e retornou para jogar nos “fiéis” da primeira fila, benzendo à todos, em nome do pai, do filho, amém.

Enquanto eu pensava nos principais momentos dessa viagem, ainda indeciso ouvi Marcelo conversando no camarim com um americano sobre Nova Iorque. Então tudo se esclareceu pra mim, e pude resumir essa experiência em 3 pontos cardeais. A Inglaterra de Shakespeare, a Nova Iorque de Lou Reed e a São Paulo de Marcelo Nova.

Hora de desfazer as malas.

Confira a cobertura fotográfica desse show no blog
http://marcelonova.zip.net

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