Ghost, Slayer e Iron Maiden: resenha dos shows no Anhembi

Resenha - Ghost, Slayer e Iron Maiden (Anhembi, São Paulo, 20/09/2013)

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Por Haggen Kennedy
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.













Eram exatamente 18:30 quando o som operístico de "Infestissumam", música de abertura do Ghost, primeira faixa do disco homônimo, soou nos altos-falantes do Anhembi. O playback logo deu lugar a "Per Aspera ad Inferi", segunda faixa do novo petardo do conjunto – o já mencionado "Infestissumam" –, de abril de 2013. Papa Emeritus II, surgindo no palco com seu báculo, arrancou gritos do pessoal mais à frente, ansiosos pela apresentação da banda. Ao contrário do público do Rock in Rio do dia anterior, que pareceu repudiar o som dos suecos, a plateia que se encontrava na pista VIP de São Paulo festejou com gosto a música dos Nameless Ghouls, chegando inclusive a cantar as letras. A empolgação continuou durante os 7 sucessos que se seguiram, com destaques para “Stand by Him”, “Year Zero” e, principalmente, “Monstrance Clock”, que fechou o set com todos entoando em uníssono o refrão.

Fotos: Diego Camara

O Ghost é uma banda única. Tanto para o bem quanto para o mal. No CD, o som dos caras é interessante, diferente, com uma temática que não deixa o satanismo transbordar para uma militância exacerbada – e vazia. É entretenimento em sua forma mais pura. Explicado, portanto, o sucesso da teatralidade da banda, feita com muita categoria, desde o crucifixo invertido com o “G” do grupo até os detalhes personalizados das roupas de cada instrumentista. Até aí, só elogios. O problema começa quando a tendência à levada doom da rapaziada vê-se obrigada a preencher a largura do mesmo palco compartilhado por Slayer e Iron Maiden. Espremida entre dois nomes dessa estirpe, é complicado esperar tanto de um conjunto que parece estar ainda ensaiando os passos que solidificarão sua carreira. Sim, os caras não se movem. Sim, é monótono. Sim, tem gente que não gosta. Mas isso vale para muitas bandas de doom. Além disso, shows com mais de uma banda servem para isso mesmo: fazer com que quem começa alcance um público maior, ao surfar na onda de quem já tem mais tempo no batente – em alguns casos, até vice-versa. Da mesma forma que houve gente que não gostou do som dos suecos, houve quem gostasse; e houve ainda quem, não conhecendo, passou a gostar. É assim que a coisa funciona. Vale destacar que a banda se esforçou, e Papa Emeritus II comunicou-se – várias vezes, inclusive – em português com os presentes. Não são todas as bandas que fazem isso. Meia hora depois, os bicos-de-corvo deixavam o palco para dar lugar à presença triunfal dos estado-unidenses do Slayer.

Vale começar dizendo: Slayer é uma daquelas bandas que não decepciona ao vivo. A frase é valiosa porque encerra uma verdade fundamental: mesmo com o som baixíssimo que assolou a apresentação do grupo, a energia que Araya, King, Bostaph e Gary Holt (EXODUS) jogavam para a plateia era devidamente sorvida e devolvida cem vezes maior pelo público, sedento por um som sem conversa mole. O quarteto explodiu sua fúria num set de 11 músicas, trazendo a pancadaria de sucessos como “World Painted Blood”, “Disciple”, “Seasons in the Abyss”; surpresas muito bem-vindas como “Hallowed Point” e “Dead Skin Mask”; e, claro, as impagáveis “Raining Blood” e “Angel of Death”, dedicadas especialmente ao falecido Hanneman (1964-2013), cujo logotipo, baseado numa cerveja de nome similar, figurava imponentemente no pano de fundo do palco. No telão, imagens do guitarrista alternavam-se numa sequência que, apesar de não fazer jus à história de mais de 30 anos da banda, pôde capturar algo da essência de seu membro fundador.

O único elemento descaracterizador dessa apresentação realmente foi o som anormalmente baixo de um conjunto tão baseado na força bruta como é o do Slayer. Se o público da pista VIP sentiu a problemática, imagine-se quem estava na pista normal. Pior: que dirão aqueles que estavam na parte final da pista comum? Não bastasse a timidez das medidas do telão, quem ficou ao fundo, além de não ver, tampouco ouviu as duas primeiras bandas. Uns gritavam para aumentar o som; outros vaiavam a qualidade da produção; e outros, preocupados com a possibilidade de a banda pensar que as vaias se dirigiam a ela, permaneciam entre a cruz e a espada. Indecisos, ficaram prensados, de um lado, pelo abate do volume do show e, de outro, pela incerteza em como protestar efetivamente contra aquele aparente descaso com quem pagou caro por um ingresso para estar ali e (não?) ver (nem ouvir) a banda dos sonhos. Em contraste, Araya, singelo, comunicava-se com a plateia aparentemente alheio ao que acontecia. Satisfeito, agradeceu diversas vezes – em português – ao público brasileiro pela apoio.

De fato, uma das maiores qualidades do Slayer é precisamente seu som “na cara”. Razão pela qual é fácil constatar que a energia que os caras colocam na apresentação de seu trabalho, intenso em sua energia e puro em seu desempenho, fecham perfeitamente o círculo com a frase que começou a resenha desse show: Slayer é uma daquelas bandas que não decepciona ao vivo.

Era pouco mais de 21:00 quando os famosos acordes de “Doctor, Doctor” ressoavam nos PAs e o público já se empolgava, cantando a letra da própria música de introdução da Donzela. Prática essa, frise-se, que se manteria constante pelas próximas duas horas. Quando entrou o playback de “Moonchild”, o Anhembi inteiro já era uníssono, uma massa compacta de vozes direcionadas ao palco. O Iron Maiden respondeu como de praxe: explosões, labaredas, fogo e 5 integrantes que irrompiam no palco deflagrando o bombardeio maideniano. Era energia pura. Ver Bruce correndo, pulando, cantando a plenos pulmões sem deixar a peteca cair é simplesmente um show à parte. Steve, por sua vez, dava, é claro, 101% de si. É incrível ver como os dois exploram bem o palco. De cima a baixo, da esquerda à direita, os caras têm o domínio de cada centímetro daquele tablado, e o público sabe disso com convicção.

O “uh 1, uh 2, uh 1, 2, 3, 4” de Bruce logo dava lugar a “Can I Play with Madness?”, e o público não cantava – entoava as letras. Não é exagero. Até os diálogos da introdução de “The Prisioner”, “The Number” e até a de “Aces High” (no bis, mais tarde) foram gritados pela plateia, sedenta por Iron Maiden aquela noite. Com “2 Minutes to Midnight” não foi diferente, e “Afraid to Shoot Strangers” mereceu um breve discurso de Bruce sobre a polêmica da letra nos dias atuais, com tudo o que anda acontecendo, declarando fatidicamente: “tirem suas próprias conclusões”. Emendaram com “The Trooper”, onde Bruce vestiu o tradicional uniforme vermelho da cavalaria da Batalha de Balaclava, e logo depois com “The Number of the Beast”, com direito ao bode mecânico e ao fogaréu em 6 lugares distintos do palco.

Rolaram ainda “Phantom of the Opera”, clássico que a Donzela voltou a tocar desde 2005, após a EdHunt Tour em 99, e também “Run to the Hills”, “Wasted Years” e a épica “Seventh Son of a Seventh Son”, com direito à presença de Michael Kenney nos teclados, figura desaparecida desde 1988 durante os shows do disco homônimo. Kenney, em verdade técnico do baixo de Steve Harris, estava lá usando a mesma máscara da turnê da Seventh Tour of a Seventh Tour (maio a dezembro de 1988), escondido sombriamente detrás de tubas de órgão semelhantes às que adornam o single de Run to the Hills ao vivo (edição de 1985).

Apagadas as luzes, Steve puxa “The Clairvoyant” em seu Fender (o mesmo que já foi repintado 4 vezes), e logo depois Bruce sobe à parte superior do palco, escurecido a não ser pelo holofote sobre o vocalista, para dar o efeito dramático de “Fear of the Dark”. Desnecessário dizer que todo mundo cantou junto. A banda fecha então a primeira parte do set com “Iron Maiden” e sai do palco.

No bis, é o telão que acusa a próxima música: o discurso de Churchill entrega o jogo e o público enlouquece com “Aces High”, música sempre muitíssimo bem-vinda. Bruce, usando um chapéu de aviador, brincava no palco fazendo de conta que estava voando – agora uma realidade, já que o vocalista, apaixonado por aviões, hoje, entre outras coisas, trabalha profissionalmente como piloto comercial da Astraeus Airlines, a mesma que cedeu o boeing utilizado pelo conjunto durante as turnês.

“The Evil that Men Do”, logo depois, provocou risos quando Nicko demorou de começar a marcação de tempo na bateria, e Bruce, rindo, declarava: “Evil McBrain, pode começar quando quiser, viu”. Cantada com gosto pelos presentes, logo deu lugar à última música da noite, “Running Free”, escolhida para terminar o show enquanto Bruce apresenta a banda ao público.

Ao final do show, não dá pra deixar de notar como a Donzela parece contar sua idade em anos de um bom vinho. Explique-se: os anos passam, mas os músicos da banda são simplesmente vintage. Ao contrário de muitos grupos que voltaram à ativa, a energia do Iron Maiden é algo particular e inimitável. Só compreende isso quem vê o grupo ao vivo. Assistir um DVD é legal, mas o que se sente ao testemunhar o grupo logo ali na frente, pessoalmente, é incomparável. Duas horas de show depois, após muita empolgação, gritos e emoção, é espetacular sentir que dá pra voltar pra casa de alma lavada, sabendo que aqueles momentos tão épicos valeram cada momento do esforço feito pra estar ali no local. Seja quem é de São Paulo, seja quem veio de longe, não importa. O fim de noite com o Iron Maiden é sempre motivo de plena satisfação.

SET LIST GHOST

1. Infestissumam
2. Per Aspera ad Inferi
3. Con Clavi Con Dio
4. Prime Mover
5. Stand by Him
6. Year Zero
7. Ritual
8. Monstrance Clock

SET LIST SLAYER

1. World Painted Blood
2. Disciple
3. War Ensemble
4. Mandatory Suicide
5. Hallowed Point
6. Dead Skin Mask
7. Hate Worldwide
8. Seasons in the Abyss
9. South of Heaven
10. Raining Blood
11. Angel of Death

SET LIST IRON MAIDEN

1. Moonchild
2. Can I Play with Madness
3. The Prisoner
4. 2 Minutes to Midnight
5. Afraid to Shoot Strangers
6. The Trooper
7. The Number of the Beast
8. Phantom of the Opera
9. Run to the Hills
10. Wasted Years
11. Seventh Son of a Seventh Son
12. The Clairvoyant
13. Fear of the Dark
14. Iron Maiden

- BIS -
15. Aces High
16. The Evil That Men Do
17. Running Free

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Sobre Haggen Kennedy

Nascido ao fim dos anos 70 e adolescido em meio ao universo metálico, Haggen Heydrich Kennedy já trabalhou e atuou numa vultosa gama de atividades, como o jornalismo, o desenho, a informática, o design e o ensino, além de outros quefazeres. Atualmente vive em Atenas, Grécia, onde estuda História, Arqueologia e Grego Antigo na Universidade de Atenas. A constante nesse turbilhão de ofícios, todavia, sempre constituiu-se de dois fatores: as línguas (ainda hoje trabalha com tradução e interpretação) e a música - esse último elemento, definitivo alimento espiritual.

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