Epica: muito mais pesada e encorpada também no palco
Resenha - Epica (Opinião, Porto Alegre, 30/09/2012)
Por Paulo Finatto Jr.
Postado em 04 de outubro de 2012
Com uma década de existência, os holandeses do EPICA não podem mais ser considerados apenas um nome promissor do universo heavy metal. O metal sinfônico do conjunto, que encontrou a sua forma mais perfeita nos discos "Design Your Universe" (2009) e "Requiem for the Indiferent" (2012), evidencia uma banda muito mais pesada e encorpada dentro do estúdio. Em cima do palco, o conjunto parece trilhar pelo mesmo caminho. O mais recente espetáculo em Porto Alegre – proporcionado na noite do último domingo – mostrou uma banda contente e extremamente afiada em cena. O status de referência para o gênero não é um mero detalhe na atual fase do EPICA.
Fotos por Liny Oliveira

A abertura da noite ficou conta dos gaúchos de Butiá SASTRAS. A banda, que investe em um metal sinfônico e com letras em português, iniciou a sua trajetória em 2005 e já é dona de certo reconhecimento no cenário independente do sul do país. No entanto, o espetáculo proporcionado pelo grupo pouco empolgou os presentes, que já ocupavam boa parte da pista do Opinião às 21h30. Os problemas técnicos com o amplificador de uma das guitarras prejudicou boa parte da apresentação. E o mais importante: a banda do baterista Thiago Batistti – principal destaque do conjunto – precisa urgentemente aprimorar as suas músicas próprias. O repertório autoral do grupo carece de letras mais inspiradas e o vocal de Nathy Pfütze poderia ser menos operístico (e menos cansativo) na maior parte do tempo. O SASTRAS corre o sério risco de ser apenas mais uma banda do underground gaúcho se não lapidar melhor o seu trabalho. O espetáculo que antecedeu o show do EPICA foi apenas razoável.

O público que tomava a pista do Opinião – estipulado em um número entre 600 e 700 pagantes – mostrou certa ansiedade pelo início do espetáculo dos holandeses. Às 22h30 Simone Simons (vocal), Mark Jansen (vocal e guitarra), Isaac Delahaye (guitarra), Rob Van der Loo (baixo), Coen Janssen (teclado) e Arien Van Weesenbeek (bateria) entraram um por um em cena ao som da curtíssima e introdutória "Karma". O carisma evidente do conjunto e a iluminação impecável do palco enriqueceram de maneira extremamente positiva o espetáculo que iniciou de verdade com "Monopoly on Truth", um dos destaques do recente "Requiem for the Indiferent" (2012). Mark Jansen & Cia. estavam à vontade sobre o palco e puderam comprovar – já na primeira parte do show – o porquê do aclamado sucesso do EPICA na atualidade. A banda sabe muito bem como interagir com os fãs e "Unleashed" foi o primeiro destaque da noite. O público foi praticamente à loucura já nos primeiros acordes da música.

Embora possua uma sonoridade recheada com detalhes orquestrados e sinfônicos, o EPICA tem o bom senso de reproduzir em cima do palco um repertório mais direto e instrumentalmente intenso. A voz de Simone Simons ao vivo simplifica boa parte da complexidade sonora da banda, do mesmo jeito que o carismático Coen Janssen apenas complementa os riffs pesados de Mark Jansen e Isaac Delahaye. Com isso, o espetáculo proporcionado pelo EPICA se torna menos contemplativo e mais participativo. A pesadíssima "Martyr of the Free Word" e a novíssima "Serenade of Self-Destruction" foram duas porradas certeiras de um show que ainda estava longe de acabar. Na sequência, o hit "Cry for the Moon", retirado do debut "The Phantom Agony" (2003), foi provavelmente o ponto mais alto de toda a noite. Os fãs gaúchos cantaram a primeira estrofe sozinhos – para o deleite de Simone Simons – e criaram o ambiente perfeito para o que o sexteto holandês mostrasse o seu melhor em cena. O show já estava ganho aqui e todo resto serviu apenas para saciar o apetite dos mais famintos.

O EPICA possui claramente dois protagonistas. O guitarrista Mark Jansen é o principal compositor do conjunto e dono de uma voz gutural extremamente condizente à proposta da banda. De outro lado, a bela cantora Simone Simons pode até parecer um pouco tímida em cima do palco, mas assume o posto em frente ao grupo de maneira extremamente louvável, já que a maioria dos olhos da plateia foca justamente a sua figura. Embora o timbre do seu microfone mostrasse certas disparidades com aquilo que o EPICA queria executar em cena, foi a performance excepcional de Simone a principal alegoria da nova e potente "Storm the Sorrow". Depois de "The Obsessive Devotion", a anunciada "Sancta Terra" deu um continuidade a um concerto que fugia da imprevisibilidade com um repertório variado e visualmente atraente. As faixas "Quietus" e "The Phantom Agony" encerraram a primeira parte do espetáculo sem deixar a peteca cair um minuto sequer. O EPICA ao vivo é realmente sensacional.

Na volta para o bis, o sexteto holandês reservou duas pequenas surpresas. A banda levou a fã mais agitada da plateia para acompanhar de cima do palco a performance da balada "Delirium", que foi acompanhada por um pequeno trecho instrumental de – nada mais e nada menos – do hit impronunciável e inclassificável de MICHEL TELÓ. A faixa "Blank Infinity" – que possui um refrão muito bonito – e a pesadíssima "Consign to Oblivion" foram as escolhidas para a despedida do EPICA do Opinião. Em quase duas horas de espetáculo, a banda agradou e convenceu os mais céticos. A verdade é que o metal sinfônico foi reinventado por Mark Jansen & Cia. e goza atualmente o seu melhor momento através do trabalho do sexteto holandês. O EPICA comprovou ao vivo que é realmente um dos principais nomes do metal na atualidade.

Set-list:
01. Karma
02. Monopoly on Truth
03. Sensorium
04. Unleashed
05. Martyr of the Free Word
06. Serenade of Self-Destruction
07. Cry for the Moon
08. Storm the Sorrow
09. The Obsessive Devotion
10. Sancta Terra
11. Quietus
12. The Phantom Agony
13. Delirium
14. Blank Infinity
15. Consign to Oblivion















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