Stick Men Trio: Um tipo de música para ouvir com o cérebro

Resenha - Stick Men Trio (Teatro do CIEE, Porto Alegre, 18/03/2011)

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Por Micael Machado
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Chapman Stick, Touch Guitar, Warr Guitar, Frippertronic. Se você não for fã do KING CRIMSON, provavelmente nunca ouviu estes nomes, nem conhece estes instrumentos ou tem ideia de como eles soam. Se você sabe do que estou falando, saiba que passei quase duas horas na última sexta-feira (18) ao som destas belezinhas, e foi muito bom!

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O nome do grupo era STICK MEN TRIO, o que, em si não dizia muita coisa para mim. Mas quando se sabe que ele é composto por dois membros do KING CRIMSON a coisa muda de figura. O genial e monstruoso “baixista” Tony Levin (o baixista aqui é entre aspas mesmo, pois chamar apenas de baixista um cara que toca baixo elétrico, Chapman Stick, Upright Bass, contrabaixo e outros instrumentos exóticos é subestimar a sua capacidade...) – que também tocou com PETER GABRIEL, ANDERSON, BRUFORD, WAKEMAN & HOWE, LIQUID TENSION EXPERIMENT e muitos outros - e o percussionista Pat Mastelotto são dois terços do trio, completado pelo guitarrista alemão Markus Reuter, que tem uma carreira solo e, ao que pude entender, foi aluno de Robert Fripp (o guitarrista e “dono” do KING CRIMSON), e tem um estilo semelhante ao do mestre de tocar, apesar de se apresentar em pé, e não sentado como o inglês.

No STICK MEN TRIO, ou pelo menos neste show, Tony tocou apenas o Chapman Stick, e Markus a Touch Guitar. Pat ficou responsável pela bateria (tanto acústica quanto eletrônica) e pelos efeitos pré-gravados e samplers, que em sua maioria soavam como os famosos Frippertronics usados por Fripp.

Tentar explicar o que são o Chapman Stick e a Touch Guitar é complicado. São instrumentos que misturam cordas e afinações de baixo e guitarra em um mesmo corpo (ou braço, no caso do Stick), e podem soar tanto como um quanto como o outro. Além disso, é tocado usando-se a técnica do tapping, ou pressionando a corda como em uma steel guitar. Nada de palhetas, ou de puxar as cordas como em um baixo comum.

Parece que os músicos estão tocando piano nas cordas dos instrumentos, e a sonoridade que sai deles lembra a guitarra e/ou o baixo, dependendo de quais cordas se usa, mas não é exatamente igual. Só ouvindo mesmo para sacar o lance, mas é diferente do que se ouve convencionalmente por aí.

O show foi no teatro do CIEE, em Porto Alegre, um belo lugar para espetáculos deste estilo, e que estava quase lotado, apesar da divulgação ter começado apenas pouco mais de uma semana antes da data marcada. Confesso que fui atraído por Levin e Mastelotto (como muitos lá), e esperava um show nos moldes dos improvisos do KING CRIMSON. Mas fui surpreendido por músicas prontas e ensaiadas, onde os músicos sabiam o que fazer e não se perdiam em improvisos.

Abrindo com uma música própria (que não foi anunciada), logo em seguida tocaram “Vrooom Vrooom”, do disco "Thrak" (1995) do KING CRIMSON, mostrando que a banda dos “famosos” não seria esquecida. A partir daí o show alternou músicas do disco lançado pelo trio, e que infelizmente não estava à venda no local (como “Soup” e “Hands”), músicas novas (como “A Crack in the Sky”, “Speedball”, as poucas anunciadas), poucas canções do KING CRIMSON (“Industry” e “Indiscipline” apenas, sendo que na última Tony Levin assumiu os vocais, não devendo nada a Adrian Belew – o que não é tão difícil assim), uma música do álbum "Exposure" (1979), de Robert Fripp (a saber, “Breathless”), e fechando o set regular com uma versão de 15 minutos para alguns movimentos da “Firebird Suite” de Igor Stravinsky, conhecida de muitos por ter o encerramento da mesma como tema de abertura dos shows do YES nos anos 70.

Foi um show recheado de melodias à la KING CRIMSON, principalmente dos discos "The Power to Believe" (2003) e "The ConstruKction of Light" (2000). Definitivamente, como disse Robert Fripp certa vez, um tipo de música para ouvir com o cérebro, e não com os pés. E prestando atenção para absorver as sonoridades que os instrumentistas criam.

Claro que para mim os pontos altos foram os sons do KING CRIMSON (se bem que “Industry” nunca me agradou muito), mas várias músicas do trio são bastante atraentes. E a versão de “Firebird Suite”, principalmente quando chegou à melodia mais conhecida, foi de chorar (no bom sentido, claro). Além disso, ver Pat usando um arco de violino para “tocar” os pratos de sua bateria (ele não batia com o arco nos pratos, ele o passava pelos mesmos como se eles tivessem cordas, e arrancava sons estranhos e curiosos), ver Tony Levin tocando seu stick também com um arco de violino, e ouvir como os dois instrumentistas das cordas aproveitavam a capacidade de seus instrumentos e alternavam-se fazendo às vezes de baixo e guitarra durante as músicas (ou na mesma música) geraram momentos memoráveis na noite de sexta-feira.

Após o bis (com “Indiscipline” e “Breathless”, que segundo Levin foi apresentada possivelmente pela primeira vez ao vivo em toda a história!), a banda recebeu os fãs para fotos e autógrafos. Bastante cordiais e solícitos, eles não vieram juntos, mas um de cada vez, e conversaram bastante com quem se dispôs a esperá-los. Eu e alguns amigos que estavam no show recebemos até algumas dicas de bateria de Pat Mastelotto depois de eu ter dito a ele que achava surpreendente como ele conseguia manter o ritmo com tantas quebradas e mudanças de tempo durante os sons.

Ou seja, além de tocarem muito, os caras ainda são super gente fina! Que voltem logo ao Brasil, seja com o grande Rei Escarlate (coisa que, segundo Pat, é altamente improvável, tendo em vista o fato do KING CRIMSON estar em recesso), com algum outro grupo paralelo ou com o próprio STICK MEN TRIO!

Ah, só para constar, não foram permitidas fotos ou gravações durante o show, e as que ilustram este post foram tiradas de forma “clandestina”, já durante o bis. Portanto, desculpem a falta de qualidade que possam apresentar, mas o registro deste fato único é mais importante que eventuais falhas de foco.

“I do remember one thing...”

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