Living Colour: review e fotos do show em São Paulo
Resenha - Living Colour (Via Funchal, São Paulo, 15/10/2009)
Por Roger Lopes
Postado em 20 de outubro de 2009
A quinta-feira acordou de ressaca. Despejou um pequeno dilúvio pela manhã, amarrou a cara o resto do dia e permaneceu amena à noite, trazendo consigo uma peculiar nostalgia. Clima perfeito para uma saudável viagem no tempo. Dos cabarés de jazz da década de 30, passeando pela rebeldia dos anos 50 ao psicodelismo dos 60. Da agressividade dos 70 à introspecção dos 80, culminando no prolificamente sonoro anos 90, cujo legado lançou à luz do mainstream os emblemáticos californianos do Red Hot Chilli Peppers, Faith No More, Jane’s Addiction, Infectious Groove e Primus, entre outros menos badalados. É nesse cenário que os novaiorquinos do LIVING COLOUR, aliando riffs distorcidos e muita técnica às influências de jazz, funk, soul, blues, rap, hard rock, punk e metal, se destacam como um dos precursores do chamado "funk metal" ou, para os mais nerds, equivocadamente, "fusion".
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Fotos: Roberta Forster
Mais de duas décadas passadas desde seu estrondoso nascimento e diversas passagens pelo país (inclusive roubando a cena no Hollywood Rock de 92), porém, sem os holofotes de outrora, Vernon Reid, Corey Glover, Doug Wimbish e Willian Calhoun aportam novamente no Brasil para a turnê "The Chair In The Doorway". Chegam discretamente a São Paulo, depois de passar por Porto Alegre, para uma única apresentação no mesmo Via Funchal, onde há pouco mais de cinco anos ressurgiam do limbo onde inexplicavelmente se enclausuraram. Complementando o tom melancólico, um público paciente, composto, salvo alguns reminiscentes atemporais, quase exclusivamente de respeitáveis cidadãos que há muito abandonaram os largos bermudões, os tênis encardidos e os andrajos de flanela enrolados na cintura.
Após pequeno atraso, os aguardados cavalheiros sobem ao palco, ao vivo e em cores, bastando os primeiros acordes de "Middle Man" para esquentar a platéia, acompanhada de "Time´s Up", "Go Away" e uma insinuaçãozinha sutil de "Give It Away" dos Chilli Peppers. A temperatura aumenta com o petardo heavy jazzístico "Sacred Ground". Expectativas saciadas, o melhor ainda está por vir. "Burned Bridges", "The Chair", "Decadance" "Young Man" e "Method" são aperitivos do novo album. "Open Letter To A Landlord" do primeiro disco "Vivid", serve de prelúdio para o show a parte de Doug Wimbish, que desce em meio ao público para um impávido solo de baixo em "Bi", enquanto os acordes sofisticados de Vernon Reid, britanicamente imponente em seu visual texano, ficam na retaguarda.
Os presentes mal têm tempo de fechar a boca quando Willian Calhoun saca seus sabres de luz em forma de baquetas e no melhor estilo Darth Vader mostra o lado negro da força em um anestesiante solo de bateria. Pirotecnia para Jedi nenhum botar defeito. Muito groove ainda há de rolar. "Papa Was A Rolling Stone", clássica soul music da Motown, imortalizada pelos The Temptations, outro tributo prestado na noite, resgata o clima cult dos velhos seriados setentistas a lá "Starsky & Hutch - Justiça em Dobro".
O suingue dançante do hit "Glamour Boys" levanta de vez o público na pista, "Always dancing always laughing, I ain't no glamour boy, I’m fierce!". Adendo especial à incansável e magnífica voz de Corey Glover. Irrepreensível frontman. Na sequência, "Behind The Sun", "Bless Those" e a potente "Hard Times" mantém a pegada hard, enquanto a levada tecno reggae de "Out Of My Mind" permite à tripulação respirar por um breve instante. Quem sobreviveu até aqui já pode morrer sem peso na consciência.
Mas os caras definitivamente não querem deixar ninguém descansar em paz e exultam "Elvis Is Dead", já emendando "Hound Dog", do próprio, afinal o rei nunca há de estar morto, longa vida ao rei. Os clássicos "Type" e "Cult of Personality" terminam por arrancar qualquer vestígio de fôlego restante na platéia.
O tradicional bis com "Love Rears Its Ugly Head" é o golpe de misericórdia, seguido de uma versão lisérgica de "Should I Stay Or Should I Go", hino punk rock do The Clash. Wimbish, sem saber se vai ou se fica, volta aos braços da galera para um "stage dive". Ao final, Corey Glover leva a turba ao delírio ao desfilar entre ela cantando os versos de "What's Your Favorite Colour". Fecham-se as cortinas. O fim está próximo. Antes, porém, os quatro cavaleiros do psico-hard-punk-funk-rap-metal ainda encontram energia para distribuir autógrafos e confraternizar com a longa fila de fãs no hall de entrada. Se o apocalipse ocorrerá realmente em 2012, que seja sob as trombetas fulminantes do LIVING COLOUR. Porque pra quem presenciou o espetáculo, o mundo já pode acabar amanhã.
Colaboração: Roberta Forster





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