Resenha - Dismember (Tribe House, São Paulo, 05/10/2008)

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Por Glauco Silva
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Esse era um show que tinha vontade de ver, mas não estava exatamente ansioso para tal, pois sou bem avesso a assistir bandas que passaram por muita mudança na formação (só 2 são do Dismember original)… se soubesse o que me esperava, teria garantido a presença com antecedência muito maior: uma verdadeira aula de Death Metal, e com boas bandas na abertura do evento.

Fotos: Sallua de Moura

Só acompanhei as últimas músicas da banda que iniciou o fest: o Machinage de Jundiaí. Deu pra sacar que fazem um thrash competente, com pitadas heavy chegando a lembrar o Megadeth em alguns momentos. Depois deste show recebi a notícia que o Bestial Atrocity realmente não se apresentaria, o que foi um tanto frustrante - mas a maratona ainda contava com 4 bandas, algo um tanto cansativo pra quem quer acompanhar todas.

Na seqüência veio o Chaos Synopsis, que já conhecia de uma apresentação em Campinas e pela demo que adquiri naquele dia. A banda era um quarteto na época e gostei da sonoridade, embora não achasse nada lá espetacular. A banda subiu ao palco agora como trio, e a saída do vocalista, por incrível que pareça, só fez a banda crescer: o baixista Jairo assumiu a linha de frente com fúria incontida, o cara é um possesso no palco. Mandaram sons de sua demo, alguns novos e uma cover competente do velho Death. A se lamentar apenas o som da guitarra na maior parte do show, foi uma performance matadora.

O Kross de Jundiaí entrava então com a difícil missão de manter o pique da audiência lá em cima, mas infelizmente não foi o que ocorreu. A moçada faz um heavy/thrash à la Iced Earth até que interessante, mas definitivamente não foi a noite deles - ainda mais levando em conta a natureza musical das demais bandas. Mandaram sons de sua demo (que foi distribuída ao público, excelente atitude pra divulgar o som) e um cover do Nevermore, mas a imaturidade da banda ainda é gritante para abrir esse tipo de show. Vamos ver como evoluem na cena…

Já o Itself foi uma surpresa agradabilíssima. Ainda causa estranheza ver um batera nos vocais, mas o cara é muito bom na função: foi bem tanto nos berros mais levados pro thrash como na pancadaria. Reclamou bastante do ajuste da bateria, o som do baixo não estava lá grandes coisas, mas mandaram ver com muita garra. O curioso foi a versão de "Master Of Puppets": já virei o nariz por ser um chavão enorme, mas colocaram blastbeats (!) que se encaixaram muito bem. Não deu pra entender o discurso que colocaram em playback, no meio do som: a voz de uma mulher falando que rock é coisa do demônio, essas coisas que nós, bangers, acostumamos a ouvir da avó. Uma ducha de água fria e que deixou todo mundo atônito, a meu ver foi a única escorregada do trio.

O Infamous Glory encerrava a parte de abertura já pegando uma audiência cansada e começando a ficar impaciente, mas foram bem espertos: emendaram um som atrás do outro com seu ótimo death old school. Mostraram absoluta tranqüilidade e se comunicaram bastante com o pessoal, que respeitou e curtiu bastante a apresentação dos caras. Profissionalismo e competência a toda prova, um exemplo de como se portar ante as interpéries - e com músicas realmente muito boas, diga-se de passagem.

Eis que chega a hora da atração principal - e meu amigo, que show foi esse. Como escrevi no início, estava um pouco receoso quanto à atual encarnação do Dismember, mas nesse caso (tal qual o Deicide) a injeção de sangue novo fez um bem enorme à banda: os caras mataram a pau, com uma dinâmica e, principalmente, uma gana de palco inacreditável. Começaram com "Death Conquers All", que abre o álbum mais recente, e na seqüência já mandaram "Sickening Art" do clássico debut.

Os caras fizeram um set excelente, balanceando as menos conhecidas e atuais ("Combat Fatigue", "Tide Of Blood", "Under a Blood Red Sky") com uma lista de fazer qualquer fã de death ter um orgasmo: "Reborn In Blasphemy", "Pieces", a matadora "Trendkiller", "Soon To Be Dead", "Casket Garden" pedida incessantemente e detonada no meio do set, "Dreaming In Red"… uma seqüência sensacional, de tirar o fôlego!

Apesar da falta que o Fred Estby faz na bateria, Thomas Daun segurou as pontas o show inteiro com imensa categoria e personalidade. Tobias Christiansson é um baixista com um carisma gigantesco e contagia o público com extrema facilidade, enquanto Martin Persson e o velho David Blomqvist (ambos com camisa do Sarcófago) se preocupam mais em bangear sem parar, enquanto mandam seus riffs cáusticos alternados com a harmonia tão característica da banda. Agora coube ao Matti Kärki todo o destaque da noite: o cara está um verdadeiro animal, não pára de agitar e se comunicar com o público a apresentação toda.

Mesmo o vocal dele está muito mais forte ao vivo do que ouvi nos últimos plays, um ataque rábido realmente impressionante. Não assisti a performance dos caras aqui há alguns anos, mas quem esteve nas 2 afirmou, com unanimidade, que esse show de 2008 foi muito superior ao outro… até coral o público fez nas melodias dos sons, em especial no hino "Override Of The Overture" que fechou a apresentação, cantada em uníssono.

Impressionante mesmo ver o que a banda ainda produz no palco, 20 anos depois de decidir cursar (e ajudar a moldar) essa estrada chamada Death Metal: um caminho tortuoso, mas que trilharam sem concessão musical alguma, com fidelidade canina ao estilo e seus fãs, e sem cessar as atividades como a grande maioria dos sobreviventes da geração de ouro dos anos 90. Até agora foi o melhor show de 2008, em minha opinião, e quem não compareceu pode ter a absoluta certeza que perdeu uma das melhores aulas de brutalidade sonora que assisti nos últimos anos… grande Dismember!

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Sobre Glauco Silva

36 anos, solteiro, estudou Linguística e Engenharia de Alimentos na UNICAMP. Tem sua sobrevivência (CDs, cigarro e cerveja) garantida no trabalho em uma multinacional. Iniciado no Metal em 1988, é baixista/vocal do LACONIST (Death Metal) e acredita fielmente que o SARCÓFAGO é a melhor banda do universo.

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