Resenha - Iron Maiden (Palestra Itália, São Paulo, 02/03/2008)

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Por Thiago El Cid Cardim
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“Iron Maiden is My Religion”. A faixa feita por fãs, quando exposta nos telões do Estádio Palestra Itália neste domingo (02), levou os quase 40.000 espectadores do primeiro show brasileiro da turnê “Somewhere Back In Time” ao delírio. A gritaria foi em alto e bom som, exatamente como durante as quase duas horas de apresentação do sexteto britânico, desfilando 16 de seus maiores sucessos para o delírio dos bangers brasucas. O carismático vocalista Bruce Dickinson pediu muitas vezes o seu tradicional “scream for me, Brazil/São Paulo!”. E a galera, formada homogeneamente por garotões cabeludos, trintões barbados e quarentões (às vezes até cinquentões) grisalhos, soltava a voz sem perdão. Nesta segunda, com certeza deve ter muita gente chegando ao trabalho rouca...

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Foto da chamada: Marcos Hermes

Chamar o Iron Maiden de “religião” não parece exagero, na verdade. A constatação começou, pelo menos para mim, às 16h, quando ainda estava no metrô, a caminho do estádio. Com a minha tradicional camiseta preta da banda, cruzei com diversos outros fiéis devidamente uniformizados – e os olhares trocados pareciam uma espécie de saudação silenciosa. Éramos completos desconhecidos, mas todos unidos por um único objetivo em comum. Na medida em que nos aproximávamos do estádio, breves acenos com a cabeça logo se tornaram sorrisos e exaltações com o já tradicional símbolo do metal, os chifrinhos feitos com a mão e que são entendidos universalmente. Pode parecer (e é) clichê, mas era possível sentir uma energia palpável no ar, uma vibração tão intensa quanto o calor da metrópole. Estavam todos tão empolgados quanto eu – que, sem credencial de imprensa, fiz questão de pagar pelo meu próprio ingresso e conferir a apresentação da Donzela de Ferro no meio de milhares de alucinados em estado de graça.

O que esperar de um show no qual a banda vai desfilar apenas os clássicos de sua chamada “era de ouro”, nos anos 80, sem se preocupar com a promoção deste ou daquele álbum recém-lançados? Tudo. E mais um pouco. O setlist não foi em nada diferente daquele que a banda vem executando desde o início da turnê, na Índia, velho conhecido dos internautas reclamões que logo se encarregaram de choramingar por que aquela música em particular não foi incluída. Bom, eu também tenho cá pra mim uma meia-dúzia de canções que gostaria de ter visto ao vivo naquele palco. No entanto, tenho sérias dúvidas de que a maior parte dos milhares de espectadores presente no estádio do Palmeiras tenha saído do local com qualquer tipo de reclamação. Este que vos escreve, por exemplo, só consegue descrevê-lo com uma palavra: “mágico”. Ok, por vezes o microfone de Bruce sofria alguns cortes inexplicáveis, e foi possível conferir as três guitarras meio emboladas no meio do caminho. Mas nada disso atrapalhou o espetáculo num saldo geral pra lá de positivo.

É bem verdade que toda aquela empolgação descrita parágrafos acima levou um verdadeiro banho de água fria às 19h, quando subiu ao palco a banda de abertura capitaneada por Lauren Harris – cujo sobrenome denuncia o parentesco com o paizão Steve Harris, baixista e “chefão” do Maiden. Ela é realmente muito bonita, inegável, mas o triste fato é que a expressão utilizada em seu MySpace oficial para descrever a sonoridade de sua banda não poderia estar mais certa: powerpop. Não tem nada mais irritante para uma platéia sedenta por um grupo de heavy metal tradicional como o Iron Maiden e, até então, aquecida pelos alto-falantes do estádio ao som de medalhões como Metallica, AC/DC, Whitesnake, Deep Purple e Ozzy Osbourne, do que ter que se deparar com longos 35 minutos de uma espécie de Avril Lavigne hard rock. Porque, me desculpe Mr. Harris, é assim que as músicas totalmente bubblegum da garota se parecem. A sorte de Lauren é que tudo durou bem pouco, porque os bangers impacientes começaram a gritar “Maiden, Maiden!” enquanto ela tentava estabelecer uma simpática comunicação com os brasileiros. Mais alguns minutos e Lauren descobriria que os “calorosos” brasileiros podem ser bem hostis quando querem. Ou alguém esqueceu do ex-menudo Rob Rosa na abertura do Faith No More, recepcionado por uma saraivada de latinhas, garrafas e chicletes?

Quando Lauren saiu do palco, uma inesperada garoa transformada em chuva pesada desabou sobre o Palestra Itália. Mas os bangers não se intimidaram e, pelo contrário, pareciam ainda mais incendiados. Os vendedores de capas de chuva pareciam desapontados. Os berros, molhados, solicitando a presença da atração principal da noite chegaram a um ponto crítico, e todo o estádio pulava ao mesmo tempo. A chuva cessou e, às 20h10 (pontualidade “quase” britânica, eu diria), os telões se acenderam e começaram a mostrar imagens do avião personalizado Ed Force One fazendo suas primeiras viagens, pousando nos primeiros aeroportos da turnê. O tradicional discurso de Winston Churchill ecoou pelo ar, e com a introdução de clima “aeronáutico” já dava para saber claramente que canção abriria os trabalhos: “Aces High”. Assim que entoou o primeiro refrão, o frontman percebeu que não teria muito trabalho para cantar dali para frente, porque o seu público fiel se encarregaria deste serviço em uníssono. A cena se repetiu muitas vezes ao longo da noite, para deleite dos seis músicos.

Usando a lendária produção de palco com temas egípcios da turnê do álbum “Powerslave”, os cinquentões ingleses mostraram que estão em plena forma – mais uma vez, com o perdão do clichê jornalístico. Harris era só sorrisos, visivelmente satisfeito com a conhecida receptividade tupiniquim. A trinca de guitarristas, tecnicamente impecável, também deu nova roupagem à maior parte das canções: enquanto Dave Murray e Adrian Smith arrasavam as suas seis cordas, revezando-se nos principais solos, Janick Gers mantinha seu folclórico estilo performático, correndo pra lá e pra cá, rodando o instrumento acima da cabeça e ao redor do corpo, sempre fazendo a alegria dos fotógrafos e cinegrafistas. Apesar de escondidinho na bateria, Nicko McBrain também fez sua parte com a precisão de um relógio. Quando o vocalista resolveu apresentar a banda ao público (como se isso ainda fosse necessário...), convenientemente esqueceu McBrain, sendo lembrado pelos espectadores mais à frente do palco e corrigindo-se na seqüência. Os brasileiros receberam o batera com o carinho tradicional: “Nicko! Nicko!”.

No entanto, a chave para o sucesso da Donzela balzaquiana cristaliza-se mesmo na figura de Bruce Dickinson. O baixinho de 49 anos é pura adrenalina, correndo para cima e para baixo e falando o tempo todo. Aproveitando o piso do palco molhado, passou boa parte de “2 Minutes to Midnight” e “Revelations” surfando entre os companheiros – e por muito pouco não tomou um tombo que prometeria ser histórico. Especialmente bem-humorado e brincalhão, fez questão de ressaltar a presença dos roadies que se esforçavam para manter o local seco antes que acontecesse um acidente, e acabou sendo também “enxugado” pelas toalhas dos membros de sua equipe, sempre mantendo o clima de festa no ar. Performático e teatral, Dickinson não abriu mão também das muitas trocas de roupa: em “The Trooper”, vestiu o uniforme do exército inglês e passou a maior parte da música chacoalhando uma enorme bandeira da Grã-Bretanha. Durante os longos 13 minutos da sempre solicitada “The Rime of The Ancient Mariner”, trajava uma capa preta que lembrava o figurino de um filme de terror. E em “Powerslave”, surgiu com a máscara tribal de penas que os maidenmaníacos mais devotados bem conhecem.

”Em 1984, viemos para o nosso primeiro Rock in Rio e começamos a nossa relação de amor com Brasil, que só vem crescendo desde então”, saudou Dickinson, devidamente aplaudido pelos milhares de presentes, que atenderam aos gritos de “Bruce! Bruce”, deixando o sujeito nitidamente emocionado e, por que não dizer, até um pouco envergonhado. Ele emendaria imediatamente com a ordem para um dos riffs mais famosos da história do heavy metal, abrindo a faixa histórica “Wasted Years”. Logo depois, palco todo vermelho, o aterrador vozeirão começou a citação inicial de “The Number of The Beast”, acompanhada palavra a palavra por 40.000 vozes que, como num ritual pagão, não demoraram a cantar, em tom urgente, aquele “Six! Six! Six” poderoso para deixar qualquer cramulhão feliz da vida. Combinou perfeitamente, aliás, com um dos itens mais vendidos pelos camelôs do local, um curioso par de chifres demoníacos brilhantes que eram vistos reluzindo por todo o Parque Antártica no meio da escuridão.

Foi então vez de “Heaven Can Wait” e, com ela, uma multidão de fãs – vencedores da promoção realizada pela rádio Kiss FM - que “invadiram” rapidamente o palco para cantar aquele “ôôô” simbólico junto com Bruce e sua trupe. Se, no dia anterior, os músicos venceram de goleada uma partida de futebol promocional realizada nos nossos gramados, no domingão eles já vinham ganhando este jogo no Palestra com folga. Mas resolveram mostrar seu futebol-arte e, driblando por entre as canelas, metralharam um combo invencível para encerrar a primeira parte da apresentação – a começar por “Run To The Hills” e seu refrão matador e irresistível. Mas tinha mais. Se você é um daqueles puristas que reclamavam da inclusão de “Fear of The Dark” entre as músicas executadas (afinal, a dita cuja é a única lançada efetivamente na década de 90 e, portanto, teoricamente fora do escopo do restante do set), teve que engolir em seco aquele que foi um dos momentos mais brilhantes da noite, com uma cumplicidade tamanha entre fãs e banda que é até difícil traduzir em palavras. Uma imagem do estádio belamente iluminado por isqueiros e celulares acesos deve explicar melhor o que eu quero dizer.

Para encerrar, “Iron Maiden”, o hino que dá nome ao grupo – contando com a esperadíssima aparição do gigantesco boneco do mascote-zumbi Eddie, desta vez na versão cibernética que está na capa do disco “Somewhere In Time” (1986). Mirando com sua arma laser para a platéia, o monstrão teve um divertido momento de duelo com Gers ao final da canção, levando o público às gargalhadas. O Iron Maiden se retira. Final do primeiro ato.

Era óbvio que teríamos um bis. Aclamada pelo público, a banda não demora a retornar para um “chorinho” – e com a confirmação dos boatos que vinham circulando já há algum tempo: sim, eles retornam ao Brasil em 2009. “Sabemos que muita gente não pôde comprar seus ingressos para esta noite. Por isso, vamos voltar daqui a 1 ano para um show maior, com mais fogos, explosões e luzes”, anunciou Bruce, para uma explosão de alegria da galera. Os organizadores, ao se depararem com o esgotamento tão rápido dos ingressos, na certa devem ter pensado: “Se tivéssemos feito o show num lugar maior, teríamos vendido todos os tickets sem problemas”. E alguém ainda tinha dúvidas, cara-pálida? Para encerrar, viriam então “Moonchild”, “The Clairvoyant” e uma versão espetacular e apoteótica para “Hallowed Be Thy Name”.

Quando estes seis senhores abandonaram o palco pela segunda vez, todos os presentes tinha esperança de que eles fossem retornar. As luzes continuavam apagadas e o palco iluminado. Durante alguns minutos, os fãs começaram a especular que canção poderia ser escolhida para um segundo bis, tão especial e até então inédito nesta turnê. Mas ele não aconteceu. Assim como em 2004, as luzes se acenderam e os alto-falantes soltaram “Always Look On The Bright Side of Life”, canção cômica composta pelos também ingleses do extinto Monty Python para o filme “A Vida de Brian”. Uma pena. Ficou um ligeiro gostinho de quero mais. Ou mesmo aqueles que tinham que acordar cedo nesta segundona iriam reclamar caso o Maiden resolvesse tocar mais uma, talvez mais duas? Tudo bem. A gente espera até o ano que vem. Como diria o Capitão Nascimento: “Missão Dada é Missão Cumprida”. Sim, senhor.

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SETLIST:
ACES HIGH
2 MINUTES TO MIDNIGHT
REVELATIONS
THE TROOPER
WASTED YEARS
THE NUMBER OF THE BEAST
CAN I PLAY WITH MADNESS?
THE RIME OF THE ANCIENT MARINER
POWERSLAVE
HEAVEN CAN WAIT
RUN TO THE HILLS
FEAR OF THE DARK
IRON MAIDEN

Bis:
MOONCHILD
THE CLAIRVOYANT
HALLOWED BE THY NAME

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Sobre Thiago El Cid Cardim

Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema, séries de TV e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração, marvete de carteirinha. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Iron Maiden, Judas Priest, Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Kamelot, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Ultraje a Rigor, Camisa de Vênus, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no www.observatorionerd.com.br e no www.twitter.com/thiagocardim.

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