Show: Sisters Of Mercy no Rio de Janeiro

Resenha - Sisters Of Mercy (Circo Voador, Rio de Janeiro, 20/05/2006)

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Por Ana Cristina Rodrigues
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Vinte e cinco anos de carreira. Três discos, todos gravados com diferentes formações, sendo que o mais recente é de 1990. Um ícone dos anos oitenta em plena febre do revival da década que já foi considerada o berço de toda a podridão musical da raça humana. Dois shows no Brasil. Sem baterista. Sem baixista. Vocal e duas guitarras. Senhoras e senhores, The Sisters of Mercy voltaram ao Brasil.

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Diga a Mr. Andrew Eldricht, membro fundador e último remanescente da primeira formação do Sisters of Mercy, que a sua banda é de música gótica.

O músico e lingüista odeia esse rótulo e foge dele sempre que possível. Tanto que no site oficial, a banda é definida como sendo rock e pop, além de uma máquina industrial de balanço.

Porém, não adianta. Para todos os efeitos de senso comum, eles são góticos. Deram origem a uma outra banda assim rotulada – o The Mission, formada por integrantes que gravaram o primeiro disco e depois saíram, numa briga até hoje mal explicada. Influenciaram muitas desses novos grupos com letras sombrias, posturas de palco cerimoniosas e voz grave (o H.I.M. é para mim um bom exemplo do que seria um Sisters of Mercy assumidamente gótico... E sem um líder genial como o Eldricht à frente).

E noventa por cento do público do seu show veste-se de preto. Alguns até mesmo fantasiados. Os auto-intitulados góticos gostam do Sisters e se identificam com o som da banda.

No Rio de Janeiro, onde Eldricht e seus três companheiros de banda, os guitarristas Chris May e Ben Christo e a bateria eletrônica Doctor Avalanche, tocaram no Circo Voador no dia 20 de maio, não foi diferente. O monocromatismo imperou com alguns exageros (roupas de couro, corseletes de veludo...). Podia jurar que muitos ali estavam vestidos com as roupas que usam para jogar RPG, principalmente ‘Vampiro’.

Mas havia uma boa mistura. A galera do pretinho básico estava dividida entre veteranos, que comentavam os shows no Canecão em 1990, e o pessoal que sequer tinha idade para gostar de Sisters quando da sua primeira passagem no Brasil.

Ao contrário do que temia alguns dos fãs mais antigos, a platéia não foi tomada de assalto por neófitos fãs de Lacrimosa ou de qualquer outro representante do "Metal Gótico". Claro que sempre tinha uma ou outra pessoa mais perdida, como foi o caso do diálogo que eu entreouvi. Uma menina, não mais que vinte anos, maquiagem carregada, vestido preto arrastando no chão, diz para a colega, de mesmo perfil: "Ih, Fulana, vai demorar para começar... Nem montaram a bateria ainda, olha lá!"

Mas enfim...

Sou fã da banda. Pelo que me lembro, desde 1990, quando ouvi ‘Vision Thing’, álbum que merece seu lugar na História não só pela qualidade das músicas, mas também por começar com uma frase como "Vinte e cinco putas na sala ao lado". A voz de Mr. Eldricht embalava meus pesadelos. A versão de "Temple of love" com a cantora iemenita Ofra Haza é uma das coisas mais poderosas que já escutei.

Não preciso dizer que estava ansiosa para ver a banda.

Só foi um pouco difícil enxergá-los no meio da fumaça, mas com boa vontade se consegue tudo.

O raciocínio lógico de quem vai ao show de uma banda que está comemorando seus vinte e cinco anos de carreira e não lança material novo há dezesseis anos é que será um desfile de hits e canções memoráveis, daquelas para cantar junto.

Não foi bem esse o caso.

O público mais fiel – e bem informado – já sabia, por antecipação, que a base do show não seria o cultuado primeiro disco. Mesmo assim, os comentários nas comunidades do Orkut dedicadas aos fãs brasileiros da banda refletiam, no dia seguinte ao show paulista, o desapontamento pela total ausência de grandes clássicos, como "Marian", "Walk Away" e "Black Planet".

Mr. Eldricht parece insensível aos apelos dos fãs. O que não o impede de fazer um grande show. Maquinal, sem grande interação com o público. Mas mesmo assim, um belo espetáculo.

O som não ajudou muito. Por vezes, e em algumas músicas, a voz soturna do vocalista parecia perdida no meio do peso que as guitarras assumiam – muito mais destacado do que nas versões de estúdio.

O público também só colaborou quando podia. O Sisters tem mantido uma certa atividade nesses anos sem gravar, porém fazendo shows e lançando músicas ao vivo. Esse material é raro e difícil de encontrar, mesmo na internet, tornando-o desconhecido da maior parte dos fãs brasileiros.

Se a reação a "Crash and Burn", música que abriu o show, foi mais pela entrada da banda no palco, o público começou a reagir na segunda música, "Ribbons", do último álbum. Depois, a banda levou uma série de músicas mais conhecidas do público que animaram a platéia no Circo, com "Dr. Jepp/Detonation Boulevard", "When you don’t see me", "Flood I" e "Giving ground". O peso maior nas versões ao vivo provocaram algum descontentamento nos fãs mais ‘chatos’ presentes – se bem que em "When you don’t see me" eu senti pouca diferença, só a voz de Eldricht menos presente do que o costume.

O primeiro GRANDE momento da noite foi com a – justamente – considerada clássica "Dominion/Mother Russia". O Circo veio abaixo, cantando em coro a música. O próprio vocalista pareceu surpreso no primeiro refrão ao ver a força da audiência.

A apatia do público permaneceu durante a grande parte das músicas novas. Assim, o estranhamento com "Slept" e "Still" era substituído pela energia com velhas conhecidas como "Alice" e "Anaconda".

Particularmente, considero que das músicas ‘inéditas’ em estúdio apresentadas, a que abriu o show e "(We’re the same) Suzanne" são as que mais tem pegada e que mais lembram o Sisters.

O set fechou com "This corrosion", o segundo grande momento, com todos cantando em coro. Inclusive a parte que na versão do álbum "Floodland" é feita por um coral.

Após um rápido intervalo, a banda retornou para tocar a balada "Something Fast", uma das músicas mais diferentes de "Vision Thing", e fechar esse primeiro bis com "Lucretia my reflection", outro grande sucesso da banda que também levantou a platéia.

No entanto, a proverbial chave de ouro ainda estava por vir.

A instrumental "Top nite out" serviu para que os guitarristas mostrassem que o Sisters, de forma definitiva, está muito longe da banda da década de 1980. Os músicos são dignos de figurar em qualquer banda de heavy metal e conseguiram manter a platéia aquecida até o retorno triunfal do patrão, ao soar o início de "Temple of love".

Ao vivo, na versão original, com o peso desse novo jeito de ser da banda, ela consegue ficar ainda melhor. Não houve ser parado no Circo enquanto Eldricht cantava que o templo do amor caia.

Como eu tinha conferido a set list do show do dia anterior em São Paulo, considerei que este fosse o encerramento. Estava já resignada a partir quando um riff muito particular de guitarra chamou a atenção.

Era o início de "First and Last and Always". E aí, o show terminou com a música título do álbum mais emblemático de uma das bandas mais poderosas da década de 1980 ainda na ativa.

Andrew Eldricht diz que seu grupo não é de música gótica. Pelo peso e pela energia apresentados no palco do Circo Voador, eu digo que vi uma das melhores bandas de rock inglês.




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