Resenha - Epica (Armazzém 841, Belo Horizonte, 10/12/2005)

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+

Por Maurício Gomes Angelo
Enviar correções  |  Comentários  | 

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.












A quantidade de fãs de gothic metal em Belo Horizonte, e por extensão, dos praticantes da cultura gótica (ou daqueles que acham que são) é algo que ultrapassa os limites do compreensível. A cidade é rota obrigatória para qualquer banda do estilo que venha ao nosso país, vide Moonspell, Nightwish, Tristania e After Forever. Logo, quando a turnê de Kamelot & Epica foi anunciada, em meados de 2005, muito se estranhou que BH não estivesse nos planos. Contudo, não demorou muito para que o Epica confirmasse sua presença, deixando o Kamelot numa situação complicada. Os estadunidenses não se dispuseram a esperar quatro dias entre o show de São Paulo e o da capital mineira, cancelando a apresentação. Pior para eles.

Fotos: Renan Damasceno

Nem era preciso que a divulgação do evento tivesse muito empenho, a trupe de Mark Jansen teria garantida sua casta de fãs. Logo, a recepção maciça dos mineiros não foi surpresa e o Armazzém, provavelmente, teve um dos maiores públicos da sua história. O primeiro responsável por amainar a noite fria e chuvosa que recaía sobre Belo Horizonte foram os valadarenses do Silent Cry, em sua segunda apresentação na capital em pouco mais de dois meses. Se a anterior foi correta, porém pouco atraente, pela passividade do público, esta foi, sem dúvida, muito melhor. E assim podemos perceber o quanto a atmosfera, o calor humano, faz diferença. O set list mudou pouco, mas a performance de todo o conjunto, em especial da vocalista Sandra Félix, em sua sexta apresentação à frente do grupo, evoluiu notadamente. Os clássicos “Desire Of Dreams” e “Illusions Of Perfection”, do primeiro LP, “Goddes Of Tears”, foram saudadas ostensivamente, com muito peso, enquanto as do novo, “Darklife”, vão ganhando consistência, como “Sweet Serenades” e “Wine’s Dance”. Interessante também a execução da balada “Enigmatic”, num show particular de Sandra. Aliás, a disparidade entre o seu vocal, soprano, e o de Simone Simmons, mezzo, faz toda a diferença na sonoridade de cada banda, mudando profundamente a estrutura das músicas. O Silent Cry encerrou seu set com a competência que lhe é peculiar, deixando o meio de campo para uma banda que, em tese, poderia estar deslocada em se tratando do cast do evento.

Besteira. Ninguém queria saber se era ou não a melhor oportunidade para um show do Thuatha de Dannan. Há um ano sem tocar em BH, os duendes foram intensos do início ao fim. Provável reflexo do fantástico ano que tiveram, com o lançamento do novo trabalho, “Trova di Danú” – liberado no finalzinho de 2004, na verdade - mais uma presença no Brasil Metal Union e o sucesso no Wacken Open Air. Melhor impossível. E assim foi. Ou alguém aí resiste às tremendamente contagiantes “Pinga Ra Tan”, “The Last Words” e “Dance Of The Little Ones”? Nenhum dos que estava lá conseguiu...
Redundante dizer que a mistura de heavy/death metal, folk, música celta & rock clássico dos caras funciona bem. Bruno Maia e Rodrigo Berne são o coração da banda. O trabalho de vozes, flautas e guitarra dos dois é excelente. Mas, sobretudo, é a energia que eles transmitem que deixa as coisas fluírem de forma mágica. Em que outro show você vê gente dançando, cantando e gesticulando desta maneira? Difícil....

“Finganforn” foi soberba, assim como “Lover Of The Queen”, ficando para a variada “Brazuzan – Thaller Than A Hill” o fechamento do set normal. E o cover não poderia ter sido melhor escolhido. “Rockin’ In A Free World”, do mestre Neil Young, ficou gostosamente mais pesada, arrancando manifestações até dos mais estáticos. O Thuatha é uma banda muito cativante ao vivo, sendo fácil entender porque conquistam tantos fãs por onde passam. Já esperamos o retorno.

Mas agora eu lhes pergunto: quem são Vibeke Stene, Sharon Den Adel e Floor Jansen? Ninguém, se formos comparar a beleza destas com a de Simone Simons. Sim, todos a amam. Sim, ela dança, ri, grita, sarapateia, interage, faz gestos, brinca, provoca, alisa o namorado, o diabo. Sim, ela é simpaticíssima - e tem um dos sorrisos mais belos que eu já vi. Sua performance é desenvolta e espontânea, naturalmente sensual. Simone faz o que faz com graça e beleza, faz porque gosta e se diverte e não por obrigação de entreter o público. E, maldição, é impossível deixar de reforçar: vai ser linda assim lá em casa!
Entretanto, fico contente ao saber que minha namorada é inteligente o suficiente para compreender minha fascinação (e a de todos os presentes) com Simone e satisfeito por ter a certeza que Mark Jansen não entende português.

O sortudo, a propósito, tem um ótimo desempenho nos vocais guturais e screams (que deveriam ser usados com mais constância) e não monopoliza as funções da guitarra, dividindo os riffs, bases e solos com Ad Sluijter, que não é mero coadjuvante, apesar de parecer mais iraniano que holandês e ser mais recatado que o resto da banda – perdendo apenas para o quase misantrópico Yves Huts (baixo).

Mas quem impressiona de verdade, além da deusa Simone, óbvio, é o baterista Jeroen Simons. Em estúdio sua performance fica escondida atrás de inúmeros corais e orquestrações mas ao vivo é ele quem dita as coisas. Pegada violentíssima e desempenho monstro no bumbo duplo. O principal responsável pelo peso que o Epica adquire ao vivo. Se no cd o coral e a orquestra são importantíssimos nas músicas, na turnê a banda fez a escolha certa em não tentar reproduzi-los fielmente (embora o uso de samplers seja inevitável), não ficando refém de sua própria música, mas apostando num autêntico show de metal.

A introdução “Hunab Kü” abriu espaço para “Dance Of Fate” e “The Last Crusade” (tríade de abertura do álbum), cantadas por todo o público, prova de que “Consign To Oblivion” vem mesmo vendendo horrores. “Sensorium” foi a primeira do debut a ser executada, e é a música típica do Epica, nem muito progressiva, heavy ou gótica, mas equilibrada e razoável. Diferente de “Mother Of Light”, melhor música do novo trabalho – superada apenas pela faixa título – dona dum instrumental intrincado, flertando com uma competência acima do normal na junção daquilo que compõe a musicalidade da banda. “Seif Al Din” coroou a seqüência, já que é um dos momentos mais altos de sua discografia. O set passou pela grudenta “Blank Infinity”, a singela “Linger”, o hit, e música mais gótica da carreira, “Cry For The Moon”, além do single “Quietus” e da reverenciada “Illusive Consensus”. Sempre com o carisma irresistível de Simone e a execução primorosa dos rapazes, demonstrando intimidade com os instrumentos e uma performance de palco surpreendente pelo pouco tempo de estrada. A suíte “The Phantom Agony”, de 9 minutos, aureolou a noite, acabando com qualquer dúvida do sucesso da apresentação. O repertório foi inteligente, e acabou antes de ficar cansativo.

Quanto ao som do Armazzém, nada de novo. Ele sempre foi muito bom, com poucas falhas, consistente, alto e estável. Compensando a estrutura errônea, com duas filas de pilastras formando um desnecessário hall no meio do galpão. Culpa talvez do planejamento dedicado a bandas de (sic) pagode e congêneres. A lamentar somente a displicência da segurança do local, que deixou o setor reservado à imprensa ser invadido por fãs até metade da apresentação do Thuatha de Dannan, atrapalhando o trabalho.

Contudo, a primeira turnê do Epica no Brasil só fez confirmar o que eu afirmava no review de “Consign To Oblivion”, cabendo perfeitamente um replay: “Um grupo incipiente, sim, mas que já assume a vanguarda do gênero e demonstra uma maturidade que poucas outras agremiações mais antigas conseguiram atingir”.

GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no G+

Os comentários são postados usando scripts e logins do FACEBOOK, não estão hospedados no Whiplash.Net, não refletem a opinião dos editores do site, não são previamente moderados, e são de autoria e responsabilidade dos usuários que os assinam. Caso considere justo que qualquer comentário seja apagado, entre em contato.

Respeite usuários e colaboradores, não seja chato, não seja agressivo, não provoque e não responda provocações; Prefira enviar correções pelo link de envio de correções. Trolls e chatos que quebram estas regras podem ser banidos. Denuncie e ajude a manter este espaço limpo.

Simone SimmonsSimone Simmons
"Tenho cérebro, não sou apenas peitos e bunda"

616 acessosEpica: EP The Solace System será lançado em setembro0 acessosTodas as matérias e notícias sobre "Epica"

Simone SimonsSimone Simons
Musa elege atrizes para interpretá-la no cinema

EpicaEpica
Simone Simons sempre tenta dar um bom exemplo

Symphonic MetalSymphonic Metal
As dez cantoras mais influentes e impressionantes

0 acessosTodas as matérias da seção Resenhas de Shows0 acessosTodas as matérias sobre "Epica"

Collectors RoomCollectors Room
Uma coleção impressionante de ítens do Kiss

Pearl JamPearl Jam
Banda tenta tocar Rush em homenagem a Geddy Lee mas desiste

Sexo AnalSexo Anal
Saiba onde encontrar esse prazer no Rock

5000 acessosMais Alto!: A diferença entre headbangers e humanos comuns5000 acessosFoo Fighters: Pelo Twitter, banda responde ao vídeo viral5000 acessosCapas de álbuns: as mais obscuras e marcantes da história5000 acessosDimebag Darrell: "nunca tive paciência para tablaturas"5000 acessosMetallica: a letra que fez Hammett e Hetfield chorar4190 acessosBlack Sabbath: banda ainda pode gravar um álbum de Blues

Sobre Maurício Gomes Angelo

Jornalista. Escreve sobre cultura pop (e não pop), política, economia, literatura e artigos em várias áreas desde 2003. Fundador da Revista Movin' Up (www.revistamovinup.com) e da revrbr (www.revrbr.com), agência de comunicação digital. Começou a escrever para o Whiplash! em 2004 e passou também pela revista Roadie Crew.

Mais matérias de Maurício Gomes Angelo no Whiplash.Net.

Whiplash.Net é um site colaborativo. Todo o conteúdo é de responsabilidade de colaboradores voluntários citados em cada matéria, e não representam a opinião dos editores ou responsáveis pela manutenção do site, mas apenas dos autores e colaboradores citados. Em caso de quebra de copyright ou por qualquer motivo que julgue conveniente denuncie material impróprio e este será removido. Conheça a nossa Política de Privacidade.

Em fevereiro: 1.218.643 visitantes, 2.740.135 visitas, 6.216.850 pageviews.

Usuários online