Resenha - Kreator e Tristania (Chevrolet Hall, Belo Horizonte, 18/03/2005)

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Por Maurício Gomes Angelo
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O antigo Marista, agora denominado Chevrolet Hall em virtude do patrocínio da mesma, pode ser considerada facilmente uma das melhores casas de espetáculos do Brasil. Estrutura monstruosa, conforto, espaço e segurança, além dos preços exorbitantes aos quais (infelizmente) estamos acostumados.

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O espaço tinha abrigado no dia anterior o show do Hanson (!?!), sim, eles mesmos, não me perguntem como/onde/porque/para quais propósitos a banda pop ressurgiu do nada. A exemplo de muitos artistas atualmente inexpressivos e/ou em decadência, encontram terreno fértil para encher o seu bolso em países carentes de shows (e cultura) como o Brasil. Afora este episódio bizarro, a ansiedade para o show que Kreator & Tristania fariam na capital mineira era latente até meses antes do dia marcado, thrashers em polvorosa e sedentos por poder ver pela terceira vez ao vivo estes ícones do metal mundial. Furor reforçado pelo recente e magnífico novo trabalho de estúdio, “Enemy Of God”.

A banda de abertura, o tradicional Sexthrash, estava escalada para iniciar seu set ás 21:00 mas só pude entrar no recinto ás 21:30 e qual foi minha surpresa ao perceber que a querida banda mineira já tinha realizado seu show, apresentação ultrasônica por sinal. Não vi nem vestígios dos caras e fiquei triste por isso, pois os clássicos no repertório são muitos, no entanto, quem conferiu atestou que foi um bom show dos mineiros.

Aprecio muito o gothic metal, mas confesso que não conhecia absolutamente nada do Tristania. Minha expectativa para a qualidade de seu show era altíssima, dado sua história, notoriedade e qualidade no meio. E talvez por esperar algo realmente matador, minha decepção tenha sido do mesmo calibre que minha expectativa. Em vez daquele gothic metal vigoroso, denso, pesado, impactante e envolvente que muitas bandas fazem, como Type O Negative, The Sins Of Thy Beloved, Virgin Black, Anathema, Lacrimosa, Moonspell, Tiamat, My Dying Bride, Paradise Lost, Poison Black, The Gathering, Within Temptation, Avec Tristesse, Noturna, Epica e até o próprio Sirenia (banda do cultuado Morten Veland, ex-integrante da banda em avaliação) fazem, o Tristania parte para algo muito mais atmosférico e performático. E neste ponto fica óbvio que a atuação de Vibeke Stene se destaca. Além de sua lindíssima voz, profundamente lírica, toda sua voluptuosidade e performance de palco (hipnótica devo dizer) é a grande espinha dorsal da banda, pena que sua participação nas músicas não seja tão proeminente quando o desejado. A premissa de ser “climático” se afunda em algo totalmente soporífero, sonolento e medíocre. Ausência de riffs, pouco peso, vocais guturais extremamente comuns (conheço uma centena de caras que fazem o mesmo ou melhor que Kjetil Ingebrethsen), bateria burocrática, teclados triviais e músicas que não apresentam nada de realmente valoroso, destacável e atemporal. Podem ser a maior banda do estilo mas estão muito longe de serem a melhor, além de estarem numa fase de transição sonora, como comprova “Ashes”. Os fãs foram à loucura mesmo com “clássicos” dos noruegueses como “Beyond The Veil” e “Angellore”, esta sim uma boa música. Infelizmente tenho uma nota chata á fazer. A segurança desatenta do Chevrolet permitiu que um doente, imbecil, retardado e acéfalo invadisse o palco e tentasse “beijar” a pobre da vocalista, chocando e traumatizando a garota. Além do que, por causa disso, a banda deixou de tocar duas músicas do set. Sem meias palavras: que esses posers malditos sejam extirpados do nosso meio!

Uma rápida produção e com um grande pano de fundo do novo álbum decorando o palco, o Kreator surge e é fatalmente ovacionado pela galera. “Enemy Of God” e “Impossible Brutality” foram às músicas escolhidas para abrir a apresentação, mesmo novas, tais composições mostraram-se excelentes ao vivo, tanto no quesito musicalidade quanto no impacto com o público. E logo o sistema de som começou a externar seus problemas. Se na apresentação do Tristania tinha segurado bem a barra, num desempenho correto, bastou exigir-se mais dele para que não desse conta do necessário. Inexperiência dos produtores, pressa, operadores inadequados...não sei, o fato é que além de estar muito baixo (isto é show de metal meus amigos!), o mesmo falhou várias vezes na guitarra de Mille Petrozza, irritando-o consideravelmente, o que também aconteceu com Sami Yli-Sirniö, como no final de “Violent Revolution”. Sem contar a falta de punch e pouca presença (mal microfonada?) da bateria de Ventor, não por causa dele, claro, mas pela incompetência do pessoal técnico. Apesar de tudo isso, de tudo conspirar contra os thrashers alemães, Mille e companhia fizeram um show matador, num set list idem. E “Pleasure To Kill” arrancou urros de satisfação dos presentes, assim como “Renewall”, “People Of The Lie” e “Terrible Certainty”.

“Quero ver a maior roda de mosh que este lugar já viu!” disse Petrozza antes da execução de “Extreme Agression” e com certeza os mineiros pogaram como loucos neste mega clássico do thrash mundial.

A interação do vocalista com o público é muito boa, seus discursos (apesar de repetidos em todos os lugares da tour como é praxe) realmente tocam o coração dos fãs, como todo aquele papo de “somos irmãos de sangue” em “All Of The Same Blood”, o tradicional “amamos vocês”, “vocês são maravilhosos, o melhor público do mundo”, “estamos super felizes por estar aqui” até a incisiva fala antes de anunciar “Flag Of Hate”: “Esta música foi feita para externar todo meu ódio contra os governantes, as autoridades e a sociedade em geral”, executando uma música que não perde seu vigor mesmo com suas duas décadas de existência. O respeito que Mille exala é impressionante e sua performance de palco, igualmente singular, sendo que o mesmo pode-se dizer de Christian "Speesy" Giesler no baixo, apelidado carinhosamente por mim de “the iron neck”, dada sua louvável resistência em bangear TODO o tempo. Já Sami Yli-Sirniö, que é indubitavelmente um excelente guitarrista, mostra-se excessivamente tímido ao vivo (o John Myung do thrash metal?), pouco se movimentando e interagindo de forma nula com os fãs, o que não é legal.

E num show de quase duas horas, teve de tudo no arrebatador set-list montado, sendo que “Betrayer”, “Terrorzone”, “Riot Of Violence” e “Tormentor” falam por si próprias, ainda assim senti falta de “Toxic Trace”, “Coma Of Souls”, “Under The Guillotine” e “Ripping Corpse”. Mas mesmo que fossem quatro horas de apresentação sobrariam clássicos no repertório. Os alemães fizeram o impossível mesmo com as falhas da produção, e a força de suas composições ajudada por seu carisma infalível tornou o que poderia ser um desastre em algo emocionante e histórico.

Um bom show, correto, que contentou os fãs, mas que poderia ter sido excelente e inesquecível. Problemas sonoros que não estiveram á altura do grande Kreator. Espero que possuam um tratamento melhor da próxima vez que estiverem por aqui, aí sim Mille Petrozza e companhia poderão se preocupar apenas em dar o melhor espetáculo possível á seus fãs, o que sabem fazer tão bem, um verdadeiro concerto de thrash metal.

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Sobre Maurício Gomes Angelo

Jornalista. Escreve sobre cultura pop (e não pop), política, economia, literatura e artigos em várias áreas desde 2003. Fundador da Revista Movin' Up (www.revistamovinup.com) e da revrbr (www.revrbr.com), agência de comunicação digital. Começou a escrever para o Whiplash! em 2004 e passou também pela revista Roadie Crew.

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