Dr. Sin: Poucas músicas, muita técnica e uma certa frustração
Resenha - Dr. Sin (Kazebre Rock Bar, São Paulo, 07/05/2004)
Por Bruno Sanchez
Postado em 07 de maio de 2004
Matéria originalmente publicada no site
Delfos - Diversão e cultura.
http://delfos.zip.net
Escrever resenhas para shows não é uma tarefa tão fácil como muitos imaginam, em especial quando o show em questão foi fraco e, particularmente, quando você gosta e respeita a banda que estava no palco. Esse foi exatamente o caso do Dr. Sin, banda de Hard Rock paulistana, que está completando 10 anos de carreira e lançou recentemente um ótimo CD e DVD da apresentação em comemoração à data.
Os músicos Eduardo Ardanuy (guitarra), Andria Busic (baixo e voz) e seu irmão, Ivan Busic (bateria) já podem ser considerados veteranos da cena e grande parte de suas músicas como Emotional Catastrophe, Fire, Karma e Futebol, Mulher e Rock´n´Roll acabaram se tornando hinos do Rock brazuca.
Com tudo isso e mais o fato do show presente no DVD ser muito legal, eu estava ansioso para ver o que o Dr. Sin aprontaria até porque o último show que vi da banda foi ainda em 1997, na abertura do Skol Rock que contou com Dio, Bruce Dickinson e Scorpions, mas os caras mandaram muito bem na ocasião, mesmo tocando com grandes feras.
O local da apresentação foi o Kazebre Rock Bar e, para quem não conhece, vale a dica pois, ao contrário do nome, o Kazebre é mais do que um bar, e sim um verdadeiro centro da cultura alternativa já que fica em uma área imensa, totalmente ao ar livre com dois palcos (ambos fornecendo excelentes estruturas para os músicos) e diversos quiosques espalhados que vendem de tudo, desde camisetas de bandas, CDs, braceletes e correntes até um cardápio bem variado de fast-food. Tudo por um preço barato e acessível.
Essa acessibilidade, no entanto, acaba gerando situações bem controversas no local, pois ele não é visto como simplesmente um bar ou uma casa de shows na cabeça de seus freqüentadores. Pelo contrário, por estar justamente isolado do centro urbano (e daqui a pouquinho volto a esse assunto), o Kazebre acabou se transformando em "balada" dos que moram longe dos agitos paulistanos. O resultado é que peregrinando no meio dos rockeiros mais fanáticos, que foram para a apresentação do Dr. Sin, acabamos nos deparando com quem não tem nada a ver com o movimento como adolescentes vestidos como se estivessem em alguma danceteria da Vila Olímpia, ou então aqueles "rockeiros de boutique" com meninas vestidas de góticas em camisetas do péssimo Evanescence ou os "metaleiros da moda" com camisetas do Linkin Park. Se isso é bom ou ruim, tire suas próprias conclusões mas eu, particularmente, não gosto dessa "mistureba".
Voltando ao assunto da localização, posso facilmente dizer que este é um dos bares mais distantes e perdidos que eu conheço. Se é que isso faz algum sentido, ele fica longe de tudo e no meio do nada, uma região escura, totalmente isolada, perto da fronteira de São Paulo com Santo André e a única referência que se tem de sua entrada é um muro branco enorme com a palavra "Pateta" pixada.
Bom, vamos ao show: a casa recebeu um ótimo público (mas lembre-se que nem todos os presentes eram para a apresentação) na fria noite de sexta-feira e a abertura do evento ficou à cargo do Anjo da Guarda, que toca uma espécie de Hard Rock com pitadas do rock brasileiro mais antigo (estilo Made in Brazil), mas para ser sincero, a banda é bem fraquinha.
Eles até que se deram bem no cover de Rush, Tom Sawyer, feito com muito estilo, mas o restante do setlist foi abaixo da média, cheio de covers clichês e mal executados, intercalados com composições próprias mornas que não conseguiam levantar o pessoal.
Tocar Perfect Strangers (Deep Purple), Enter Sandman (Metallica) e Fear of The Dark (Iron Maiden) é o cúmulo da apelação para chamar a atenção, afinal esta não é uma banda de covers e sim, teoricamente, um grupo com 6 anos de estrada e diversas músicas próprias, mas a situação fica ainda mais grave quando o vocalista/baixista Toninho erra os tempos e mostra que não conhece as letras murmurando palavras intraduzíveis. Um espetáculo sinistro semelhante à Solange do Big Brother quando tentava cantar We are the World.
O mais intrigante deste genocídio dos clássicos, é que muitos dos presentes (e aí voltamos mais uma vez à questão da acessibilidade) aplaudiam fervorosamente a banda, mesmo quando esta cometia verdadeiros absurdos na execução das músicas. Esse "conformismo" brasileiro acaba me assustando e mostra que certa parte da população acaba sendo conivente com o nivelamento por baixo da cultura. Poxa, nenhuma dessas covers citadas são exemplos de complexidade dentro do Heavy Metal e, se alguém se dispõe a tocar tais músicas, é porque se pressupõe que elas foram pelo menos ensaiadas com antecedência. A impressão que o Anjo da Guarda deixou foi, infelizmente, bem negativa.
Uma longa pausa para a troca de equipamentos e, com absurdas 4 horas de atraso (o show estava marcado para começar às 22 horas, mas começou às 2:15 da matina), o Dr. Sin subia ao palco do Kazebre.
A apresentação começou bem e contou com clássicos de todas as fases da carreira com Time After Time, Down in the Trenches, Karma, a ótima Revolution e o cover de Have You Ever Seen the Rain (do Creedence Clearwater Revival), mas após cada execução deste "primeiro tempo" de show, sempre havia um solo individual do Edu Ardanuy, o que foi, aos poucos, esfriando o público.
O grande ponto baixo, no entanto, foi logo após a música Down In The Trenches quando começou uma seqüência interminável de solos individuais de bateria, baixo e guitarra. Mais uma vez repito o mesmo discurso: todos sabemos da competência técnica dos integrantes da banda, todas as músicas foram tocadas de forma impecável, mas precisa fazer quase 30 min (sem brincadeira) de solos? Ainda mais após um atraso de 4 hs. Foram pouquíssimos os que realmente se divertiram com o momento de auto-indulgência e em meio a olhares constrangedores, o óbvio aconteceu: metade do pessoal, que esperou tanto tempo pelo início da apresentação, simplesmente virou as costas e foi embora
O final até que foi bem animado com uma sequência devastadora de clássicos: Fire, Emotional Catastrophe e Futebol, Mulher e Rock´n´Roll com o público cantando em uníssono e a banda deixando as enrolações de lado. Eu me pergunto por que não conduzir o show inteiro desta forma?
Uma outra coisa que não posso deixar de mencionar é a síndrome de João Gilberto no intervalo de cada música: era o som da bateria que estava ruim, o retorno que estava baixo, a guitarra que tinha de ser trocada toda hora. Ou a banda pára por um tempo e resolve definitivamente os problemas ou leva o espetáculo do jeito que pode e tenta ignorá-los. Mas foi maçante ver os músicos se queixando do equipamento em todos os intervalos.
No final das contas, o que tivemos foi um show longo e sonolento, com poucas músicas, muita técnica e uma certa frustração para quem esperava algo na linha do show do DVD (o meu caso). Mas não vou deixar de curtir e respeitar esta banda que fez e faz tanto pelo rock nacional por causa de uma noite ruim, e, afinal de contas, todos temos nossos dias ruins, certo?
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