Resenha - Paralamas do Sucesso (Palácio das Artes, Belo Horizonte, 15/12/2002)
Por Thiago Sarkis
Postado em 15 de dezembro de 2002
A história do paraibano Herbert Lemos de Souza Vianna passou de uma nítida amostra de alegria e festividade, na liderança do vivaz Paralamas do Sucesso, a um drama, capaz de comover até mesmo àqueles que não são seus fãs. O acidente de ultraleve sofrido pelo músico em 04 de Fevereiro de 2001, na Baía da Ilha Grande, litoral sul do Estado do Rio, fez com que poucos acreditassem na sua recuperação e, ainda menos, numa provável volta aos palcos.
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Como se não bastassem as feridas externas, ficaram as indeléveis marcas e lembranças da morte da mulher Lucy Vianna, com a qual Herbert teve três filhos: Luca Benedict Needham Vianna, Hope Izabel Vianna e Phoebe Rita Vianna.
Cerca de um ano e nove meses após a tragédia, os Paralamas do Sucesso retornam, na turnê de seu novo disco, intitulado "Longo Caminho". Pegando a expressão sempre usada pelo líder do conjunto, parece algo de fato "sobrenatural".
Momentos antes do show, algumas cenas chamavam a atenção no Palácio das Artes. Primeiramente, a fidelidade dos seguidores do grupo e a mudança do cenário "montado" pela platéia, a qual não mais é formada exatamente por juvenis. Os presentes se encontravam, em geral, na faixa de vinte e três a trinta e tantos anos. Sinais do tempo.
Outro fato destacável é o número expressivo de PPDs que compareceram, especialmente aqueles que lidam com a paraplegia ou a deficiência visual. Na expectativa da massa, no fervor do espetáculo, pela via da divindade identificada na imagem de Herbert, explicitava-se algo que Freud havia analisado há um século atrás, porém que não convém detalharmos com veemência agora.
Ainda com as cortinas fechadas, ouvia-se a voz do cantor, realizando testes e entrando em total sintonia e afinação com seus velhos companheiros. Difícil crer, mesmo assim. Assistir no Fantástico é uma coisa, ver pessoalmente é outra. Afinal, tudo aquilo da telinha é realmente "fantástico", baseando-nos em todos as significações possíveis desta palavra.
Quando tudo fica exposto e o "Sou visto, logo existo" (QUINET, 2002) entra em cena, temos o certificado da realidade, comprovada anteriormente, sem embargo insistentemente inesperada até que olhos nus percebam-na de perto.
Ao som de "O Calibre", a nova música de trabalho, um teatro inteiro, perplexo, se encanta, mas também aparenta ter dificuldade em adaptar as antigas associações de imagem, e até som, ao contexto atual. Excitação e pausa contracenam incessantemente.
Uma das cordas da guitarra arrebenta logo de cara e Herbert é obrigado a improvisar, fazendo-o muito bem. Contudo, Bi Ribeiro dá um toque no colega, e somos avisados de que a canção será tocada novamente no bis.
Durante o espetáculo, fica visível uma preocupação generalizada com o ‘cabeça’ da banda. Especialmente o baixista acima citado, nos evidencia tal fato. Sua posição é de praticamente um pai no palco. Ele conversa, chega perto, procura saber informações sobre o set, instrui e auxilia na passagem solo de Herbert, a qual, apesar de curta, é extremamente emocionante. Não só por composições como "Aonde Quer Que Eu Vá", como também pelo clima, as palavras e os discursos positivos de quem se expressa com a categoria de poucos.
O CD atual é bastante explorado na apresentação, que conteve, além do supracitado primeiro single, "Longo Caminho", "Seguindo Estrelas", "Cuide Bem Do Seu Amor" e a versão para "Running On The Spot" do The Jam de Paul Weller. É inevitável dizer que se tratam de boas interpretações ao vivo, porém passam longe do material antigo dos Paralamas do Sucesso, e tampouco contêm aquele toque divertido brasileiro, de percussões alucinantes, grooves bacanas, enfim, muito suingue e vivacidade. Genericamente falando, levadas normais de pop rock, as quais não trazem os atrativos característicos e únicos do trio e de seus aliados.
Nada de anormal nessa constatação, já que depois de tudo, seria pedir demais que Herbert compusesse algo animadíssimo, pra cima. Há o lado positivista, bom astral, entretanto, com acordes que explicitam a história que as determinou e / ou procedeu (algumas foram compostas antes do acidente!).
O público se acende verdadeiramente nos antigos e maravilhosos sucessos, como "Alagados", "Vamo Batê Lata" (Barone fazendo absurdos!), "Uma Brasileira", "Lourinha Bombril", a palinha de "Cat Scratch Fever" composta por Ted Nugent, as interpretações para "Manguetown" (Chico Science & Nação Zumbi), "Que País É Esse?" (Legião Urbana), e é óbvio, nesse ano, já que "ele avisou", não podia faltar de maneira alguma, "Luiz Inácio (300 Picaretas)", com direito a declaração de total admiração e confiança no nosso novo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
As baladas também foram tocadas. Proeminências absolutas para a simplesmente magnífica "Lanterna dos Afogados", e a ótima "La Bella Luna".
Com o percurso dos Paralamas do Sucesso, não há show com menos de duas horas e meia que agrade a todos. Todavia neste, o limite de músicas novas foi ultrapassado, e deixaram "Caleidoscópio", "Será que Vai Chover", "Quase um Segundo", entre outras de fora. "Vital e sua Moto" especialmente fizeram falta, mas vai lá saber que moto é essa, e aonde ela foi parar. De toda forma, a reflexão que paira após um renascimento destes é árdua e talvez deva ser realizada por todos, incluindo membros, empresários, promotores, etc. Seria a hora certa para uma turnê desse porte? É de se perguntar também: "Onde se encontra o limite entre as vontades e as possibilidades, e dentre os interesses ‘coletivos’ e os desejos de um indivíduo?". É preciso pensar nisso... e muito!
Paralamas do Sucesso - http://www.uol.com.br/paralamas
Paralamas: Longo Caminho - http://www.paralamaslongocaminho.com.br
CL - Assessoria em comunicação – (0xx31) 3274-8907
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