Resenha - Judas Priest (ATL Hall, Rio de Janeiro, 05/09/2001)

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Por André Toral
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Mal sabíamos que a noite nos reservaria surpresas gerais. Pois é, a primeira delas foi presenciar o show da banda paulista Andralls abrindo para o Judas Priest. A verdade é que a escolha foi boa, justamente porque se tratava de um espetáculo metálico. O público em si, na maioria formado por jovens, respeitou o Andralls mas sempre existem algumas crianças que se julgam bangers convictos e fazem sinais com os dedos, gritam palavrões, etc.. Bem, nem tudo é perfeito... Voltando, era realmente notável a empolgação dos músicos, mesmo antes de iniciarem a avalanche de peso no Rio de Janeiro. Pessoalmente, estava tão curioso quanto qualquer outro que, como eu, admira e defende a cena nacional. A apresentação foi baseada em seu álbum “Massacre, Corruption, Destruction...”, onde tocaram “Chaotic World”, “Behind the Light”, “Hate”, “The Future”, “The Truth”, “Fury in your Eyes”, “Lady Death” e “Andralls on Fire”. Instrumentalmente, nota máxima, especialmente para o baterista Gustavo.
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Fim do show, já havia circulação dos músicos do Judas Priest pelos bastidores; mesmo antes estavam conferindo o Andralls no palco, por vezes. A esta altura o público já estava sedento por ouvir e ver a apresentação da banda responsável por todo o movimento heavy metal e pioneira em duetos de guitarras verdadeiramente sobrenaturais. Assim é que, às 22:30 hs, o Judas inicia os primeiros acordes de “Metal God” enlouquecendo todos os presentes. Ripper Owens, envolto numa roupa metálica e brilhosa, lá do alto começava a destilar a potência de seu vocal em terras brasileiras; o refrão foi amplamente cantado. “Heading Out to the Highway” foi a próxima, contando com maior movimentação dos integrantes do Judas, especialmente de K.K. Dowing. Em seguida, apagam-se as luzes e a introdução de “A Touch of Evil” se inicia, acompanhada de um dos mais poderosos riffs de guitarra criados pelo Judas. Foi impressionante a participação dos fãs e aqui Ripper destilou seus agudos rasgados, além de Glen Tipton ter emocionado no solo maravilhoso que esta canção possui. A esta altura, já se imaginava que a banda tinha vindo para tocar, com mais ênfase, seu material mais antigo. Mesmo assim, houve muita comemoração após o anúncio de “Blood Stained”, do álbum “Jugulator”, contando com participação especialíssima dos fãs no seu refrão.


Descaradamente, K.K. Dowing e Glen Tipton vinham encantando todos com a precisão de seus solos e bases. Imaginem quando Ripper anunciou o próximo petardo, simplesmente “Victim of Changes”, que fez o Atl Hall vir abaixo. A dupla de guitarristas juntas fizeram, lado a lado, a introdução clássica desta música até que Ripper brilhou ao interpretá-la de maneira agressiva e forte sem deixar de soar melódico quando de sua lentidão; outro destaque foi a porradaria que rolava com a bateria de Scott Travis. Recém a esta altura do show é que tivemos a primeira canção do novo álbum, “Demolition”, que pode não ser o melhor trabalho deles, mas tem seus bons momentos. A prova disso é que “One on One” foi muito bem recebida, destacando o peso absurdo com que o Judas a executou. E olhem só: “What is my name?”...“what is my name?”...”what is my name?”. Esta foi a pergunta de Ripper Owens ao público, que serviu para responder: “THE RIPPER!” Clássico absoluto que batizou o vocalista quando de sua entrada. Nem precisa dizer a tamanha euforia, sem contar o vocal mais do que agressivo e as guitarras em plena sintonia.

E mal sabia-se o que o Judas apresentaria após, ou seja, a versão atual de “Diamonds and Rusts” (original da cantora Joan Baez), ao invés da que existe no “Unleash in the East” (registro ao vivo de 1979). Foi fora do comum a atuação de Ripper que a executou de forma melódica, cheio de feeling; o público cantava frase por frase e até acendia os isqueiros. K.K. Dowing e Glen Tipton dividiram os violões para suas respectivas partes antes do iniciar-se o peso. Enfim, um dos pontos altos da noite, sem dúvidas! Estrategicamente posicionada no repertório, “Machine Man”, do novo álbum, incendiou a platéia com tamanho peso emanado das bases de guitarra e bateria de Scott Travis - coisa de louco! E retornando aos anos 70, Ripper soltou a voz para dizer que “The Green Manalishi” seria tocada. Desculpem-me a empolgação, mas foi impossível não entrar em êxtase total, afinal tratava-se do show do Judas Priest e só isso bastava para fazer qualquer um sair de si; aqui, K.K. Dowing realizou seu primeiro solo da noite. E para piorar, no bom sentido é claro, “Beyond the Realms of Death” tirou lágrimas de qualquer um, com sua melodia, peso e atuação impecável do vocalista em suas partes agudas. Sem descanso para nada, “Burn in Hell” (do excelente álbum “Jugulator”) botou fogo na casa a ponto de todos pularem sem parar. Daí em diante o que se veria seriam pérolas das mais aclamadas pelo mundo metálico. Seguiu com “Breaking the Law”, cantada em uníssono pelos fãs, mas também por Ripper já que muitos esperavam que tal música fosse executada como Rob Halford no Rock in Rio 3: somente com as vozes do público. A outra foi, para fechar com chave de ouro o tempo normal de show, “You’ve Got Another Thin Coming”; aclamação total!


Terminada a primeira parte, a banda deu o tradicional “good night”, agradeceu mas os fãs pediam por mais e mais. Para provar que o Judas não estava para brincadeira, os roncos de uma moto Harley Davidson começaram por antecipar um verdadeiro massacre ao som de “Painkiller", talvez uma das melhores músicas - senão a melhor. E Ripper entrou sentado na motoca, acelerando sem parar até que Scott Travis introduziu a bateria consagradíssima deste petardo. Em comparação com “Live Meltdown’98”, Ripper Owens deu uma baixada no tom do vocal, mas também dera...como deve ser difícil cantá-la! Mais uma vez, Glen Tipton assombrou com a exatidão de seu solo, certamente um dos mais bonitos de sua história como guitarrista. Isso sem contar na bateria técnica, pesada e precisa com seus dois bumbos! É bem verdade que toda banda tem aquelas canções que, por mais que não agüentem mais tocar, são obrigados. Certamente, é difícil acreditar que os criadores de “Eletric Eye” não sintam mais prazer de tocá-la, assim como os fãs de ouvi-la. E a agitação de todos foi algo fora da realidade. Já o próximo anúncio foi o de “United”, com um refrão compartilhado entre o Judas e público em geral. Mas não parou por aí, pois “Living After Midnight” detonou com seu rock and roll contagiante, provando resistir ao tempo e sempre empolgando quem a escute. Bem, era difícil acreditar o que o Judas ainda traria ao palco - e se traria mais alguma surpresa - , mas para o último bis, nada mais nada menos que “Hell Ben’t for Leather”. Não há palavras para descrever a reação de todos. Fenomenal!


Sobre a performance individual dos músicos, o Judas, declaradamente, não tem mais nada a provar para ninguém há muito tempo. O único que tinha a missão de mostrar ao que veio era o vocalista Ripper Owens, mas desde que entrou foi aclamado por possuir a voz exata para substituir Rob Halford sem deixar a peteca cair. Claro que existem diferenças claras entre os dois vocalistas, sendo que Rob é bem mais agudo e que Ripper, aqui e acolá, diminui um pouco o tom original dos vocais, mas nada que tire o seu brilho. É importante dizer que sua voz, em comparação ao “Live Meltdown’98”, estava com agudos mais limpos, ao invés daquela agressividade explícita. Já seus tons graves, por muitas vezes, beira o gutural. Mas uma avaliação sincera: RIPPER É UM FANTÁSTICO VOCALISTA; um dos melhores da atualidade. Já a dupla de guitarristas K.K. Dowing e Glen Tipton enlouquecia os fãs utilizando aquelas coreografias clássicas. Tecnicamente, nota-se que Glen toca 90% dos solos, e que K.K. fica com a maior parte de bases. E o baixista Ian Hill? Pouco falei dele, mas também... Este senhor ficou no canto esquerdo do palco agitando sem parar com seu baixo, e provou ser o único baixista cabível ao som da banda, após estar lá durante todos estes anos. Isso sem contar Scott Travis que, de todos os bateristas que passaram pelo Judas, é o melhor! O cara toca com uma raça, peso, enfim. As suas viradas são precisas, sua pegada notável e tudo de bom que se possa falar sobre este batera. Destaca-se também o fato de o repertório haver sido, de maneira consciente, elaborado, pois é claro que uma banda deste porte impressiona mais pelo seu passado e que a maioria dos fãs gosta mais de ouvir material antigo. Sabe, é diferente de “determinadas” bandas que lançam um novo álbum e põem 7 músicas novas ao vivo, se esquecendo daquelas que fizeram história e a possibilitaram estar onde se encontram hoje em dia. Então, até nisso o Judas Priest está de parabéns!

Mais uma vez fomos brindados, no que diz respeito ao som do Atl Hall, com uma produção fantástica pois todos os instrumentos estavam amplamente audíveis, os vocais, tudo. Coisa de primeiro mundo mesmo. Podem ter certeza de que quem perdeu o show do Judas Priest perdeu, também, a chance de presenciar o que de fato é o heavy metal em seu estado máximo. Além disso, uma das bandas mais influentes para toda uma geração, que não vinha no Brasil desde o Rock in Rio 2, detonou. E pode crer, VALEU A DEMORA!!!!!

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Sobre André Toral

Formado em Administração de Empresas. Curte Hard clássico dos anos 70 e início dos 80; Heavy Metal é sua religião.

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