Deep Purple: Representantes de uma das três escolas do peso em SP
Resenha - Deep Purple (Via Funchal, São Paulo, 07/09/2000)
Por Marcos A. M. Cruz
Postado em 07 de setembro de 2000
Nota: 9 ![]()
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Embora não fosse a primeira vez que iria assistir a um show do Deep Purple, subi as escadas do Via Funchal um tanto quanto ansioso - afinal não se tratava de uma banda qualquer, mas sim de um dos representantes de uma das três escolas de "rock pesado" surgida no final dos anos 60 (ao lado do Led Zeppelin e do Black Sabbath), e que nos legou obras-primas como "In Rock", "Machine Head" e "Made In Japan".
Quando vejo o palco, a Orquestra Jazz Sinfônica já estava posicionada - também pudera, já eram 21:20 e o show estava marcado para as 21:00... culpa do trânsito paulistano...
Exatamente às 21:45 começa o show: primeiro entra o regente, Paul Mann, um sorridente e simpático inglês que me deu a impressão de estar totalmente à vontade, e sob seu comando iniciam o primeiro set com "Philarmonic Dance op.46 nº 8", de Dvorak (pelo menos foi esse o nome que me passaram, não entendo nada de música erudita, e no set list do pessoal da mesa de som constava apenas "intro"). Passados cinco minutos, entram em cena Morse, Lord, Paice, Glover e Gillan, exatamente na ordem inversa à distância que cada músico teria de percorrer no palco, ou seja, como entraram do lado esquerdo e Morse seria o primeiro músico do lado direito do palco, não faria muito sentido realmente entrar por último e atravessar à frente de todos.
Enquanto o público ainda ovacionava a banda, a orquestra inicia o "Concert For Group And Orchestra - First Movement", e os músicos do Purple se acomodam para assistir à perfomance da orquestra, aguardando sua vez de tocar. Esta, por sua vez, vai criando cada vez mais e mais a tensão para a entrada do Purple, culminando com a primeira intervenção da guitarra de Morse e dos teclados de Lord - outra ovação por parte da platéia! Prosseguem a orquestra e a banda se alternando até o fim desta primeira parte - destaque especial para o solo preciso de Morse, realmente um substituto perfeito para Mr. Blackmore - embora sejam músicos de estilos totalmente diferentes.
Prosseguem com o "Second Movement", no qual Gillan solta a voz. Não sei se é impressão minha, mas suas cordas vocais aparentam estar em melhores condições, comparado à última vez em que vieram ao Brasil. Novamente causa espanto o sincronismo entre a banda e a orquestra. Neste trecho o pessoal que andava fazendo muito barulho chega a irritar, sempre aparece um engraçadinho para ficar falando besteiras... talvez para nossa sorte a banda não entenda português...
Emendam com o "Third Movement". Neste trecho, Paice resolve mostrar um pouco de suas habilidades e nos brinda com um soberbo solo de bateria, mais técnico que demolidor, começando devagar, depois acelerando, acelerando, até que começa a desacelerar - ao mesmo tempo em que passa a executar o solo com apenas uma mão, tanto que para não deixar dúvidas levanta a outra... a platéia obviamente veio abaixo...
Transcorridos 55 minutos de show, chegamos ao fim da primeira parte. Após 15 minutos de intervalo, retorna a orquestra inteira, menos o regente, e logo em seguida a banda. Gillan, que ainda trocaria de camisa outras duas vezes durante o espetáculo, retorna já sem o blazer que usara no set anterior. Às 23:00 em ponto iniciam a segunda parte com "Pictured Within", do último álbum solo de Jon Lord, com a participação de Miller Anderson nos vocais, que para quem não sabe, já participou do "Manfred Mann's Earth Band". Um idiota grita ao meu lado "quem é este, o Pavarotti"? Obviamente que não, mas o cara canta muito! Miller vai para a guitarra na próxima canção, "Sitting In A Dream" (do "Butterfly Ball", solo do Roger Glover), e de repente entra no palco o grande (a nível de vocalista...) Ronnie James Dio! Impressionante como para algumas pessoas o tempo não passa... Dio parece o mesmo de 20, 30 anos atrás... parafraseando aquela velha propaganda: "minha voz continua a mesma, mas meus cabelos... também!
Após emendar com outra faixa de autoria do Roger Glover, "Love Is All", no qual a orquestra acompanha um trecho como se estivesse tocando uma valsa, Dio ataca com "Fever Dreams", do seu último trabalho (Magica), e emenda com "Rainbow In The Dark"... tirando-se a primeira música, foi o momento que mais mexeu com a platéia, todos agitando e cantando juntos (o que comprova aquela tese que a maioria das pessoas que lá estavam queria mesmo era rock). Digna de nota era a reação dos músicos da orquestra: enquanto os mais novos balançavam a cabeça e batiam os pés (bem discretamente, é claro) os mais velhos se limitavam a observar totalmente imóveis... No programa original, ao invés dessas duas faixas de Dio estariam "Wait a While" e "Take It Off The Top", a primeira com os vocais de Sam Brown (aquela mesma, que canta no "Pulse", do Pink Floyd), que não está excursionando com os caras.
Dio sai do palco sob os aplausos do público e Gillan assume seu posto (com outra camiseta diferente!) para cantar "That's Why God Is Singin' The Blues" (solo de Gillan), "Via Miami", "Ted The Mechanic" e "Watching The Sky", estas três últimas constantes no último cd da banda, o Live At The Royal Albert Hall). Neste trecho contam com o apoio de um naipe de metais e cinco backing vocals. Aliás, a interação de Gillan com as meninas dos vocais de apoio é muito grande - Mr.Gillan não perdia a oportunidade de se aproximar delas e fazer umas gracinhas...
Na seqüência, "Sometimes I Feel Like Screaming", "baladão" onde Gillan mostra um pouco dos seus dotes - reiterando o que disse anteriormente, a impressão é que ele superou os problemas vocais pelos quais passou há algum tempo - embora, por razões óbvias, não arrisque uma "Child In Time", por exemplo. Por fim, encerram o show com "Pictures Of Home", do estupendo Machine Head.
Encerram o show? Sim, mas como de praxe, retornam para a encore - "Smoke On The Water", com a participação de Miller Anderson e Dio. Nesta parte a platéia vai à loucura, todos em pé cantando juntos... mas todo este entusiasmo não foi suficiente para convencer a banda a emendar com "Black Night", fato que ocorreu nas outras duas apresentações nos dias seguintes... então às 0:15 do dia 8, "the show is over"...
Conclusões: grande show, quem esperava algo mais "rocker" talvez tenha se decepcionado um pouco, mas quem ouviu o último cd da banda já sabia o que iria encontrar. Talvez a única ausência da noite tenha sido "Perfect Strangers", pois é de consenso geral que iria ficar excelente com a participação da orquestra. Dio, como sempre, foi uma presença à parte, verdadeira lenda do rock. Os demais músicos (incluindo Miller Anderson) afinadíssimos, e a banda passando uma impressão de quem realmente ama o que faz. Espero que retornem brevemente!
(texto escrito ao som do Made In Japan)
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