Música Independente. Do público?

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Por Evandro Souza
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Não são poucos os que sonham em viabilizar uma carreira no mundo da música. É válido arriscar dizer que, dentre os jovens, quando surge o questionamento acerca do que esse gostaria de ser quando crescer, um "artista" é algo que figura no imaginário dos que ainda estão por decidir, assim como um dia esteve dentre as nossas próprias possibilidades, ainda que de maneira remota.

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Ok, então. Aqui vai o roteiro - um violão aos quatorze anos de idade, a primeira guitarra elétrica aos quinze, mais um amigo da escola que também arranha algumas notas na guitarra e tem alguma dificuldade nas pestanas, aquele outro amigo que até curte as mesmas músicas que vocês, mas, à princípio não tem interesse em tocar, mas, vamos persuadi-lo a adotar uma guitarra de quatro cordas, com um som grave. E ele, após alguma insistência, topa. Tem também aquele cara que toca bateria na igreja e é rockeiro de segunda a sexta, vamos chamá-lo. Pronto. Habemus banda. Habemus rock.

O exemplo acima pode ser situado ao gosto do leitor. Se você tinha entre 12-18 anos de idade na segunda metade da década de 80, os primeiros ruídos foram na tentativa de reproduzir as músicas da PLEBE RUDE, HANOI-HANOI, UNS E OUTROS, além, é claro, dos PARALAMAS DO SUCESSO, LEGIAO URBANA, BARAO VERMELHO e etc.

Já se você foi um adolescente no início da década de 90, além da parte instrumental, o inglês também estava presente nestas bandas, que a essa altura faziam cover de bandas internacionais, especialmente daquelas da cena Grunge. O mesmo vale para aqueles outros jovens do início dos anos 2000, onde a cena grunge através dos álbuns "UNPLUGGED MTV" e seus "filhos" como SILVERCHAIR, STONE TEMPLE PILOTS e até mesmo o CREED, eram reproduzidos com certa frequência na MUSIC TELEVISION (MTV), à esta altura já mais acessível a grande parte dos jovens, diferente da década anterior.

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Enfim, lá estava você no quarto com seus amigos na expectativa de reproduzir o som daqueles que os influenciaram. Anos depois, você sente a necessidade de se expressar de forma diferente. Ok, você se identifica com tudo o que é falado nas músicas do seu ídolo, mas agora você tem a sua maneira própria de reproduzir aquela mensagem, adicionada pelas suas próprias experiências. Surge o som autoral.

Alguém chega com uma ideia, um riff, meia estrofe escrita.

- Cara, tá muito estranho!

- Vamos fazer em português, mesmo?

- Rock em português, sério?

- Meio cafona, né?

- Ah, quer saber, existe um clássico em que o nosso ídolo escreve "Sheets of empty canvas, untouched sheets of clay". Já viu a tradução?

- É, vamos lá.

Com aquela coragem, nem sempre acompanhada de confiança, surgem as primeiras músicas, e a banda vai se entrosando à medida em que os primeiros shows vão acontecendo.

Mas onde têm sido estes shows, mesmo? Pois é, não são muitos os espaços que oferecem oportunidades de novas bandas apresentarem seus trabalhos, de modo que os locais para bandas iniciantes com repertório de autoria própria se restrinjam a eventos de pouca visibilidade.

Cabe ressaltar a viabilidade do negócio - uma casa de shows tem um custo de funcionamento para cada noite em que estiver aberta, de modo que, a grosso modo, uma casa necessite de ocupação de 30% para "empatar" o seu custo de funcionamento, à um preço de entrada "razoável" para o público. Ou seja, em uma pequena casa de shows, com capacidade para 200 pessoas, seria necessária a presença de, pelo menos, 60 pessoas para que o evento se torne viável. Tudo isto, considerando ingressos a preços acessíveis, de acordo com a realidade de cada centro urbano.

Estamos em dias em que temos mais de mil amigos no Facebook, o que não necessariamente reflete na disponibilidade deles de prestigiarem as novas bandas. As nossas bandas. No exemplo do parágrafo anterior, 60 pessoas representariam 6% dos amigos do Facebook. Pouco, né? Na verdade, não. E não cabe julgamento a eles, a grande questão é acerca do porquê nós mesmos não temos a cultura de ir in loco conhecer novos sons, novas bandas, novas experiências.

As bandas independentes têm feito seus shows para músicos -os músicos das demais bandas, que também irão se apresentar naquele evento.

Façamos um experimento - você que tem uma banda autoral, de posse de seu smartphone, quantas bandas independentes, além da sua, estão presentes na sua playlist em relação ao total de músicas? E se desconsiderarmos as bandas dos nossos amigos, quantas bandas independentes de outras cidades e estados temos consumido ajudando a fomentar a dita "cena"? Repasse a pergunta aos demais integrantes de sua banda durante a próxima resenha pós ensaio/show.

Todos estes questionamentos podem ensejar várias discussões, sem que se chegue a uma resposta de fato concreto. No entanto, parece razoável sugerir que os integrantes do cenário autoral se prontifiquem, enquanto pessoas físicas, enquanto público a estarem presentes na vida das demais bandas. Fazer parte do sonho alheio. Sonhe o mesmo sonho que eles, e você não terá rivais.

Os recursos estão aí. Equipamentos para gravação de áudio mais acessíveis do que nunca. Um "home studio" nunca foi tão factível. A possibilidade de divulgação nos meios stream, além das plataformas audiovisuais (Ex: YouTube) também. Tudo o que já foi de monopólio da indústria fonográfica, e hoje confere independência a quem quer criar arte está aí. Tomemos cuidado para que a independência em relação à estrutura de uma grande gravadora, não se transfira para um trabalho que irá seguir independente do público. De músico para músico. Sejamos, também, público.




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