Grunge: encaramos a morte de um estilo? Afinal, que estilo?
Por Rodrigo Contrera
Postado em 22 de maio de 2017
Lembro-me bastante bem quando tive o primeiro contato com o Nirvana. Foi um contato tardio. Eu via algo bastante rude naquilo, com uma mensagem subliminar para mim mesmo. Por outro lado, dava para curtir legal. Não estranhei que eles tivessem estourado. Havia uma sacada legal nisso.
Aproximei-me da banda e da história de seus integrantes bastante tempo depois. Eu sentia que eles queriam falar algo para mim. Sentia que havia uma mensagem. Ocorre que não sou um fissurado tradicional por rock. Não me interessam detalhes biográficos das bandas. Interessa-me o que está por trás. Interessa-me a história por detrás de tudo. Algo que consiga explicar por que eles estouraram, por que conseguiram essa conexão direta com o coração de uma penca de gente. Algo meio sociológico, inclusive.
Percebi essa conexão, em grande parte, ao ler a biografia que o Cross fez do Kurt. Li o livro de uma penada só. Curti como poucos outros livros que lera. Percebi que ali havia uma pessoa, realmente. Percebi que havia densidade. O livro, todos sabemos, é bastante grosso. Mas nada parecia me reduzir o interesse pelo sujeito. Ele havia se tornado uma espécie de referência em minha vida. Isso porque não gosto da ideia de entronizar ninguém, muito menos rockstars. Ele se tornou uma pessoa. E foi enquanto pessoa que senti sua agonia.
A gente pode ver, nos vídeos que nos restaram do Nirvana e dele, do Kurt, como ali havia algo mais denso que simplesmente um videoclip, uma música, ou uma letra. A gente percebe que o Kurt se comporta, em última instância, como se estivesse sozinho, quando canta. Ele tem um jeito meio arrogante, em toda sua simplicidade. É como se ele ocupasse o trono meio que a contragosto. Porque ele no fundo quer se expressar. Quer FALAR ALGO. Quer nos revelar alguma coisa.
Mas quem pesquisa percebe que o grunge do Nirvana foi o ápice de um movimento subterrâneo que incluía muitas bandas, ali em Seattle e outros lugares, que tinham algo em comum. Uma espécie de luta entranhada, sim, mas também uma luta contra o sistema. O grunge, de alguma forma, foi um movimento espontâneo de uma geração que queria se expressar, e que, se fizesse sucesso, até levaria em conta - mas que não buscava necessariamente. Era uma mensagem. Havia uma mensagem.
Conheço poucas pessoas que, olhando de longe, me passam um sentimento de destruição e de autodestruição maior que o Kurt. Não digo isso olhando em retrospectiva, dado que ele se matou. Ele me passa a ideia de um sujeito que não está bem com o mundo. Um sujeito que parece não gostar de si. Um sujeito sempre incomodado, que parece querer expressar violência gratuita para simplesmente se aguentar. Lembro das imagens que restaram do mal-afamado show que ele deu no Brasil, dos cuspes nas câmeras e tudo mais. Lembro de suas mensagens, que compatibilizam uma grosseria incrível com uma simplicidade comovente.
Ocorre que o grunge não foi apenas o Nirvana. O grunge reunia toda uma geração, que se dividia em shows ocorridos em lugares distantes, e foi aos poucos assumindo uma feição. O Nirvana foi, num primeiro momento, apenas a banda que mais chamou a atenção. Por outro lado, o Nirvana soube catalisar em si alguns dos maiores motes do movimento. Ocorre que o mundo continuou, apareceram novas bandas, bebendo mais ou menos desses motes e criando outros. Algo se manteve intacto, ao que parece. Mas creio que muito das convicções da trupe inicial foi se perdendo.
Eu mesmo identifico o grunge com bandas que não fazem, nem em termos estéticos, uma cara única e identificável. Há pontos comuns, nelas; mas elas não são algo em geral muito fácil de digerir. É nisso que chamo a atenção, aqui. O Kurt e o Nirvana, pegando em termos bastante amplos, não era uma pessoa e uma banda, respectivamente, fáceis de digerir. Era difícil entender algumas posturas assumidas pelo Kurt - ainda tem gente que discute se ele queria mesmo fazer sucesso, ou se de uns tempos para cá queria se restringir a pequenas plateias. O próprio som do Nirvana nunca foi algo realmente palatável para todos os gostos.
Com o tempo, porém, as bandas que foram assumindo postos chave no movimento grunge (dentre elas, Alice in Chains, Soundgarden, Pearl Jam) foram fazendo com que ele alcançasse audiências maiores. E com isso, embora o movimento se fortalecesse, ele também foi se diluindo. Caía por terra o visual revolucionário de algumas peças que o próprio Kurt criava (e que remetiam a questões muito fortes). Os vídeos que surgiam agora eram mais de apelo popular. Muitas mensagens ainda tocavam fundo na geração inicial. Mas havia agora outras que assumiam maior destaque. O grunge saiu de Seattle, atingiu o mundo, e com ele vieram acomodações que alguns não compartilhavam mais.
Eu mesmo não aprecio como realmente grunge o movimento que veio a seguir, durante a breve carreira do Nirvana e imediatamente após. Vejo rapazes bonitos demais, letras que não me motivam ao humor ácido do Kurt, sempre em briga com si e com todos, não exalam a candência ou urgência das letras que no começo eu ouvia e que me extasiavam. Pareciam mais recados de gente que não me dizia mais respeito. O grunge para mim morreu bastante cedo, se querem saber.
Mas hoje discute-se - em grande parte pela morte de Chris Cornell - se o grunge já morreu. Bom, ele se transformou, isso com certeza. Muito do que havia no começo hoje deixou apenas rastros. Por outro lado, o grunge assumiu uma cara mais mainstream, por menos que ele, o movimento, queira admitir. Alguns valores dele passaram a ser incorporados ao rock de maneira geral. Seu ideário virou parte de filmes, muitas reflexões pela nova geração, o que trouxe uma grande leva de ar fresco. Mas o grunge, que originalmente nunca pensou em grandes bandas, assumiu a forma de grandes bandas. De grandes plateias. Plateias em que o intimismo está na relação dos compositores com os espectadores isolados, e em que o contato se dá pela via de um leque de mensagens. Como no rock de maneira geral. Mas poucos seguem seu ideário por completo. Ou seja, algo nisso se perdeu. Talvez o contato. Quem sabe. Talvez isso seja natural. Quem sabe.
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