Quando uma polêmica música do Nirvana fez um presidente destruir o CD de sua filha
Por Bruce William
Postado em 08 de fevereiro de 2026
O Nirvana atravessou 1991 e 1992 numa velocidade que pouca banda aguenta sem se despedaçar. Em pouco tempo, o grupo saiu do circuito alternativo e virou centro do noticiário musical, com boatos, escrutínio e aquela sensação de que qualquer gesto podia virar manchete. A pressão em cima de Kurt Cobain cresceu junto com o tamanho da banda, e isso começou a aparecer no jeito como ele falava da imprensa e no material que ele escrevia.
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Dentro desse período, uma música em especial virou o ponto mais sensível da fase final do Nirvana: "Rape Me". Conforme relato publicado na Louder, Cobain já vinha irritado com interpretações atravessadas de faixas anteriores e decidiu compor algo que, na cabeça dele, não deixaria margem para leitura torta. Só que o título e o refrão, do jeito que são, praticamente chamavam a polêmica para dentro do disco.
Em 1993, Cobain descreveu a música como uma canção antiestupro e explicou que estava cansado de ver gente tentando encontrar "significado demais" onde ele não colocava. A frustração fica ainda mais nítida quando ele diz, numa entrevista daquele ano, que ter precisado escrever uma música assim era constrangedor: "Ter que recorrer a fazer uma coisa como escrever 'Rape Me' é tão constrangedor. (…) Eu decidi escrever de um jeito tão óbvio que ninguém poderia ler de outra forma."
Mesmo assim, a reação pública não foi na direção que ele esperava. Um dos atritos mais barulhentos aconteceu com a MTV, na época do Video Music Awards de setembro de 1992. A emissora queria o Nirvana tocando o grande hit, a banda queria tocar a inédita, e o impasse foi tão grande que terminou em acordo para tocar outra música. Quando entraram ao vivo, Cobain ainda provocou puxando um pedaço de "Rape Me" antes de seguir com o que estava combinado.
Quando "In Utero" saiu em setembro de 1993, com produção de Steve Albini e som mais áspero, a música continuou cercada por ruído. E quando "Rape Me" foi escolhida como single (em lançamento de lado A duplo com "All Apologies", em dezembro de 1993), a faixa virou um problema também de varejo: algumas redes se recusaram a estocar o álbum e surgiram versões censuradas, com mudança no nome da música em certas edições.
Décadas depois, a história ganhou um detalhe quase absurdo de tão específico: Jenna Bush Hager contou em 2019 que o pai, George W. Bush, ouviu o disco tocando no aparelho dela e reagiu quebrando o CD. "Meu pai me ouviu tocando no meu discman. Ele quebrou o CD na perna. Ele nunca ficava bravo daquele jeito, mas essa música...", disse ela, explicando o incômodo de ver a filha pequena ouvindo aquilo.
Cobain ainda comentou, exausto com o barulho, que a música era uma forma de perguntar - com sarcasmo - o quanto ele precisava ser "óbvio". Só que a trajetória de "Rape Me" mostra exatamente o contrário: mesmo quando um artista tenta fechar todas as portas para o mal-entendido, o mundo dá um jeito de abrir janela. E ela ficou marcada também por um dado frio: foi um dos últimos lançamentos do Nirvana antes da morte de Cobain, em abril de 1994.
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