Camisetas de bandas: um dos eternos dogmas do rock/metal
Por Igor Miranda
Postado em 19 de novembro de 2016
Há pouco mais de dez anos, enfim, conseguia acreditar que eu era 'roqueiro'. Conhecia o suficiente sobre história e discografia as bandas de rock que gostava, comecei a deixar o cabelo crescer, pedi uma guitarra de presente para meus pais e passava grande parte do meu tempo livre ouvindo CDs e assistindo a clipes na MTV.
Mas havia um problema muito grande: eu não me parecia com um 'roqueiro'. Mal sabia que, qualquer fosse o visual escolhido, ficaria como um moleque leite-com-pera na puberdade – eu era aquilo, ora. Era difícil achar camisetas de bandas de rock e acessórios em lojas por aí. Esse problema de primeiro mundo me frustrava.
Anos depois, vejo muitos que passaram por esse mesmo problema com reclamações imbecis sobre o fácil acesso ao vestuário 'roqueiro'. Lojas de shoppings como Riachuelo, Renner e afins lançaram coleções de camisetas estampadas com bandas de rock. Os guerreiros do underground, é claro, abominam: afirmam que muitas pessoas que não conhecem sobre os grupos, vão acabar passando a mensagem deles.
A polêmica se estende sempre que alguma celebridade sem conexão com o rock (ou até com ligação a outro estilo musical) surge com uma camiseta de alguma banda. A cantora Anitta, que pratica funk/pop e não tem nada de rock em seu aparente background, é uma das estrelas que aparecem, vez ou outra, com a indumentária em questão.
Na gringa, é mais frequente. Miley Cyrus, Justin Bieber e Lady Gaga já saíram por aí com suas camisetas de rock regularmente. Por um tempo, foi até parte de uma tendência, um 'look' mais urbano. E os 'roqueiros' só 'aceitam' que alguém use uma blusa do gênero se 'provar' que gosta. Gaga, por exemplo, precisou posar ao lado de diversos rockstars ao longo dos anos para ser 'perdoada'. Uma grande bobagem, né?
Há quem diga que pessoas que, aparentemente, não gostam de rock não podem usar camisetas do tipo porque não entendem a mensagem transmitida. Mas que mensagem?
Grande parte das bandas famosas de rock não passa uma mensagem muito profunda ou elaborada. Quando você utiliza uma camiseta dos Rolling Stones, por exemplo, a ideia passada é que você gosta de rock. Não imagino algo que vá além disso.
Ok, o caso mais recente de Anitta com a camiseta do Overkill foi um pouco inusitado, visto que a banda americana de thrash metal não é lá muito conhecida. Mas será que eles conheciam a mensagem ou a música de Ivete Sangalo quando 'abriram' show para ela, no Festival de Alegre, no Espírito Santo?
Não desejo aos novos 'roqueiros' a dificuldade que tive quando queria ter camisetas de rock e não as encontrava. O fato de procurar mais por uma roupa não te torna mais ou menos tr00. Não é uma prova, não é um teste, não é um batismo de fogo.
Talvez eu não fosse um doutor sobre Iron Maiden quando, com muita procura, achei uma 'peita' da banda. Mas me sentia suficientemente digno de passar aquela mensagem adiante. Ou, melhor, apenas gostava de ter o Eddie estampado em meu tronco.
Acho, inclusive, que dificilmente alguém que não conheça o Maiden comprará uma vestimenta com o pouco carismático mascote. Até as estrelas pop sabem disso.
A verdade é que os 'roqueiros' que se acham 'oldschool', sempre dogmáticos, são chatos demais. Esquecem que música é diversão e passam a tratá-la como instituição intocável. Xiitas, veem o rock e o metal como algo separado da arte musical. É o mesmo pessoal chato que sai perguntando na rua se a pessoa conhece tal banda e pede para citar nomes de músicas.
Há quem tente dissociar completamente o rock da religião. Entretanto, o comportamento dos 'roqueiros' que se acham 'oldschool' são muito semelhantes aos religiosos mais fervorosos que eles tanto odeiam. Rock e metal são gêneros musicais e podem enveredar para estilos de vida a partir dos outros itens relacionados ao comportamento, como vestimentas, obras culturais relacionadas (filmes, livros), pontos de encontro, etc. E só. Nada dogmático como muitos propõem.
Por fim, o mais importante: tais sujeitos esquecem (ou não sabem) que bandas são marcas. Essa história de usar camiseta dos Ramones ou dos Stones (não vejo esse fenômeno de forma frequente com outros grupos) sem saber do que se trata é muito velha. Sempre vai existir.
Isso não aconteceu graças às lojas de shopping, mas, sim, graças aos próprios músicos, detentores dos direitos das instituições além-música que criaram. Reclamem com eles. E parem de fiscalizar o guarda-roupa alheio.
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