Yngwie Malmsteen: Minha relação de paixão e afastamento com a guitarra do sueco

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Por Rodrigo Contrera
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Muitos o conhecem. Quase todos os que gostam de guitarra já o ouviram ou viram tocar. Muitos gostam do estilo que ele usa. Outros torcem o nariz para seu jeito egomaníaco, sua insistência em aparecer, seus mal-afamados hábitos de se exibir, e até mesmo para seu jeito de abordar algumas emoções. Com o Yngwie Malmsteen é difícil de ficar alheio: ou a gente o ama ou o odeia. Ou gosta do que ele faz, ou não topa.

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Ocorre que esse cara foi, na minha pequena história de paixão pelo rock, o responsável por toda uma série de gostos e mesmo de trechos de minha vida terem ido para um lado, e não para o outro. Eu não gosto, por exemplo, tanto do rock clássico assim por causa dele. Eu sou um cara ensimesmado que adora o guitar man, o cara que arrasa, e essa ênfase no ego do cara da guitarra me afasta de uma longa lista de amigos. Eu tenho muita dificuldade em aceitar novas bandas, com visuais emprestados de derivativos dos anos 80, e praticamente mal consigo parar os caras dos 80 (e mesmo o Yngwie). Tudo por causa do sueco. Do "maldito" guitar-man.

Ocorre que para mim Yngwie, que tem outro nome formal, nunca foi maldito. Muito ao contrário. Pois seu jeito absurdamente dedicado, egolátrico e patético (por vezes) sempre me cativou. Pois eu também sempre gostei dos grandes violinistas (e eles só mudaram de perfil muito recentemente), eu sempre considerei que a vontade (e o trunfo da vontade) são grandes chaves para entender muita coisa do ser humano (mesmo e até por causa de meu estudo em Filosofia), pois eu gosto de solos (mesmo hoje, em que não gosto tanto do exibicionismo de alguns virtuosos), e porque eu gosto também de distorção (e muito). Yngwie foi o cara que me mostrou um novo caminho, em suma, e não pelo primeiro LP, o Rising Force, que comprei logo após outros, mas pelo Trilogy, em especial pela faixa título, Trilogy Opus 5, que levou a complexidade de um rock que eu achava bastante rasteiro a outros patamares.

Hoje conhecemos a trajetória de alguém famoso muito facilmente. Temos google, Wikipedia, Youtube, e tudo o mais. Em minutos, percebemos por que certos astros mudam de direção, por que assumem carreiras com as quais nem sempre concordamos, por que suas obras assumem perfis que antes eram para nós um enigma. Isso aconteceu comigo. Pois, como eu também não acompanhava o Whiplash.net, eu não sabia que Yngwie tinha sofrido um grave acidente de carro, levando um grave coágulo no cérebro que lhe causou graves efeitos na mão direita. Eu também não sabia que ele havia sido mal-gerido (para dizer o mínimo) por um ex-empresário. Daí que eu não sabia por que sua carreira tomou o rumo que tomou. Eu havia adquirido os primeiros e principais LPs. Eu havia transitado por outros neoclássicos, categoria que ele criou. Eu havia visto outras de suas criações, mas já sem gostar tanto. E havia inclusive visto surpresas em algumas delas, surpresas essas que me revelavam suas (dele) influências.

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Pois é preciso admitir: muito do metal sinfônico se deve, ao menos em inspiração, a ele. Muito da temática que ele assume para si (algo que envolve dragões e mitologias diversas) saiu, na origem, de sua cabeça, e influenciou muitos outros. Porque em Yngwie como que os mundos se tocam. O mundo erudito e o de classic rock. O mundo do ego e da necessidade de superá-lo. O mundo do abuso da técnica e de sentir que já foi ultrapassado (como ele o foi, e não necessariamente pelo acidente ou por seus efeitos). Pois em Malmsteen é como se estivéssemos sendo disputados por um ego que insiste em se expandir - até um dia morrer. Mas o Yngwie também deve ter aprendido muito com o acidente - e com o amor. Pois a gente o vê tocando e não vê apenas aquele garoto que largou tudo pela música e pela arte. A gente vê um homem meio estranho e que toca de um jeito inimitável. A gente vê um cara que é apaixonado por aquilo. E isso, por mais que os detratores tentem dinamitá-lo.

Ocorre que eu conheci Yngwie na metade dos 80 (eu me lembro quando e onde comprei o primeiro LP que eu conheci dele, o Trilogy). E hoje eu sou, para além de jornalista e de tradutor, também artista (dramaturgo, ator e diretor). Isso significa que hoje sei uma particularidade nos artistas a que poucos têm acesso. O artista, em geral, tem uma luz. Mas, mais que isso, ele sai em busca de algo que ele imagina, mas que apenas intui, e que passa, apenas em parte, àqueles que admiram sua arte. Em suma, no caso do Yngwie, hoje sei que, ao fazer o que fez, e ao mudar minha vida, ele tinha algo intuído e completou algo em que apostou. Mas também sei que isso lhe devia ser insuficiente, e que portanto buscava algo mais, e que depois iria conseguir (um dos sonhos dele foi tocar com orquestra, por exemplo). Mas Yngwie não apenas queria isso, é claro.

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Pois ele havia aprendido e se inspirado no classic rock (algo que eu apenas intuía, com meus poucos dados a respeito). E eis que ele soube fazer sua homenagem aos ídolos em Inspiration, que eu também adorei (muito, mas muito tempo depois). E claro, Yngwie é um ser vivo, em pujante existência: que deve ter outros projetos, outros sonhos, e que - claro - passa por suas próprias dificuldades. Em que isso o afeta, isso o transmuta, e modifica também sua arte. Isso, claro, todos sabemos. Mas o fato de o cara seguir sua luz eu só vim perceber aos poucos, ao reparar como e por que ele seguiu a linha que seguiu. E ao perceber em que medida nós nos aproximamos, enquanto seres vivos e amantes da arte, e nos afastamos. Porque no caso da arte tudo é de fato assim.

Aconteceu então que, logo após Trilogy, eu me contentei com o que ele havia feito, e perdi contato com sua obra. E que, quando vi de novo algo dele, não tinha mais contato excessivo com tudo aquilo. Pois ele havia se tornado mais comercial, nessa época, e feito coisas com uns vocais que não me agradavam de todo, por um lado, mas por outro lado abordado temas que não me interessavam. O que ele deveria ter feito para continuar me apaixonando? Nada, claro. Ele é um artista, segue sua luz própria. Eu apenas senti que ele, após me conquistar com música erudita, não tinha mais tanto a me dizer. Porque ele bebia então de outras fontes, ia rumo a outras direções, apostava em outras formas de fazer sua arte crescer.

Ah, mas quando ele gravou com a orquestra tcheca, aí, sim, me conquistou de novo. Mas, vocês diriam, com as composições? Não, com as faixas mais tranquilas, em parte acústicas, em parte elétricas, em que ele parecia se comunicar comigo como os grandes da música erudita sempre se comunicaram. Porque era ali que estava o registro que me agradava na época: um registro comedido, discreto, respeitoso, e acima de tudo rigoroso, sem o ego da magnificência do guitar-man. Pois era ali que ele realmente trocava ideias com um cara já nos 30 e poucos anos, vivendo outros dilemas, enfrentando outras emoções, mas ainda apaixonado pelo rock de um determinado jeito e pela música erudita mais avançada possível. Foi assim que eu ainda mantinha contato com ele, com esse cara que enfrentava seu acidente, dois divórcios, algumas ações contra, e tudo o mais. Mas sempre sendo reconhecido, para mais ou para menos, e sempre sendo vilipendiado por ser um cara de ego, um artista (algo que só após os anos 2006 eu iria começar mesmo a me tornar, também).

Eu já estava em vias de separação, creio, quando ouvi Inspiration. Um CD que eu só vim a curtir mesmo quando estava separado. Porque aí eu já estava suficientemente em paz para notar em que medida o Yngwie era também respeitoso com OUTRA tradição, a do classic rock. E isso, além do fato de ele demonstrar o rigor nas cordas, fez com que ele me conquistasse de novo. Pois agora eu via: Yngwie sempre se considerou, mesmo com os arroubos de ego, abaixo de algo, e sempre pensou em admirar algo mais desse algo, e eu lhe prestar tributo (sendo que prestar tributo é uma de suas características). O que demonstra que, para ele, a paixão está para além daquilo em que ele se apaixona. E que ele, nesse jogo de paixões, sempre parece estar em busca de algo mais NA sua paixão. Ou seja, que ele sempre foi o cara que eu imaginei. Claro, ele deve ter aprendido muito ou algo com a vida. Toda vida deixa-nos de alguma forma diferentes. Mas ele permaneceu o mesmo. O apaixonado.

Como eu mesmo, com minhas paixões.

Espero que tenham gostado.




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Sobre Rodrigo Contrera

Rodrigo Contrera, 48 anos, separado, é jornalista, estudioso de política, Filosofia, rock e religião, sendo formado em Jornalismo, Filosofia e com pós (sem defesa de tese) em Ciência Política. Nasceu no Chile, viu o golpe de 1973, começou a gostar realmente de rock e de heavy metal com o Iron Maiden, e hoje tem um gosto bastante eclético e mutante. Gosta mais de ouvir do que de falar, mas escreve muito - para se comunicar. A maioria dos seus textos no Whiplash são convites disfarçados para ler as histórias de outros fãs, assim como para ter acesso a viagens internas nesse universo chamado rock. Gosta muito ainda do Iron Maiden, mas suas preferências são o rock instrumental, o Motörhead, e coisas velhas-novas. Tem autorização do filho do Lemmy para "tocar" uma peça com base em sua autobiografia, e está aos poucos levando o projeto adiante.

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