GammaWeen ou HellowRay?: Os dois lados da mesma moeda
Por Flávio Dagli
Postado em 05 de dezembro de 2013
No show do último 1º de dezembro no Espaço das Américas, em São Paulo, Kai Hansen palhetava alucinadamente um riff típico do metal melódico alemão. A canção trouxe uma sensação de déjà-vu. Um amigo que estava ao meu lado comentou: "parece Helloween". Não pude deixar de concordar.
Pouco depois, era a vez de outros alemães de Hamburgo subirem ao palco. Michael Weikath palhetava furiosamente um riff típico do metal melódico alemão. Dessa vez fui eu que chamei a atenção do meu amigo: "parece Gamma Ray". Ele não pôde deixar de concordar.
Qualquer pessoa que acompanha minimamente a cena metal das décadas de 1980 e 1990 conhece a histórias dessas duas bandas. Helloween nasceu, conquistou o mundo com um som moderno, misturando o power metal europeu com harmonias instrumentais e líricas cheias de referências à música clássica. Michael Kiske, o então vocalista, é até hoje referência no estilo de vocais agudos que dominou a cena principalmente na década seguinte, escandalizando os metaleiros mais puritanos.
Mas todo relacionamento tem seu fim. Weikath e Hansen brigaram feio, o segundo resolveu abandonar o barco e montar sua própria banda, o Gamma Ray. Na sequência, alguns eventos curiosos. O Helloween flerta com uma sonoridade mais pop nos álbuns seguintes (dizem que esse é o motivo da saída de Hansen) até retornar às origens melódicas em Master of the Rings. Já o Gamma Ray se aventurou por mares mais felizes, digamos, apostando em uma sonoridade que alguns chamam por gozação de Happy Metal. Pouco depois, o então vocalista, Ralf Scheepers, abandona o barco, Kai Hansen assume o microfone e, pronto, o vento a favor volta a soprar colocando o Gamma Ray de volta ao curso do metal melódico.

Nos anos seguintes, a carreira de uma banda parece ser espelho da outra. Ambas fazem sucesso, ambas alternam álbuns ora mais melódicos, ora mais pesados. O Helloween ainda teve que aguentar o martírio de um novo racha nos anos 2000, mas superou a crise e seguiu firme e forte. O Gamma Ray, por sua vez, manteve a mesma formação por quase duas décadas e uma carreira bastante sólida no cenário metálico. Mas uma coisa divergia as duas bandas: Hansen e Weikath ainda estavam brigados.
Os dois guitarristas da terra da cerveja viveram anos de birra infantil. Hansen tocava suas composições dos tempos de Helloween nos shows de sua nova banda, como Ride the Sky e I Want Out, enquanto Weikath ignorava os sucessos do passado compostos pelo seu ex-companheiro de banda, em uma emulação do racha Lennon x McCartney que se seguiu ao fim dos Beatles.
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Nada mais natural. Eles, pelo menos em termos de sonoridade, sempre foram unha e carne. Compuseram grandes canções, performaram incríveis duelos de guitarra. Também pudera: como no gênese bíblico, Gamma Ray nasceu de uma costela do Helloween. E, assim como o homem e a mulher, um parecia que não poderia ficar sem o outro.

Um muro como o de Berlim permaneceu dividindo os dois guitarristas por quase duas décadas até que, em um belo dia, resolveram fazer uma trégua. O resultado foi que já no fim da década de 2000 as duas bandas começaram a excursionar juntas.
Confesso que esperei a adolescência toda e esses anos de vida adulta para testemunhar o que vi no último domingo: Kai Hansen e Michael Weikath dividindo o mesmo palco. A música que marcaria a visita de Hansen ao palco do Helloween não poderia ser mais simbólica: um medley de Halloween e How Many Tears, as melhores composições de cada um dos briguentos na era oitentista da banda (antes da chegada de Hansen ao palco, o Helloween já havia tocado I’m Alive, composição de Hansen). A paz estava selada - e os fãs, extasiados.

Agora é difícil saber o que ocorrerá nos próximos anos. Ambas as bandas têm carreiras extremamente consolidadas e uma eventual volta definitiva de Hansen ao Helloween, como ocorreu no Rock in Rio, me parece algo totalmente improvável – e fora de propósito. Melhor deixá-los aí, brilhando separadamente, como um casal que se divorcia, mas mantém um relacionamento amigável. Tudo em nome das crianças. Ou, no caso, dos fãs.
*Flávio Dagli é jornalista e ama rock and roll desde os 10 anos, quando assistiu a um VHS do show do Queen no Rock in Rio I. Você pode conferir outras bobagens que ele escreve no blog
http://aconteceunaeuropa.wordpress.com

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