GammaWeen ou HellowRay?: Os dois lados da mesma moeda

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Por Flávio Dagli
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No show do último 1º de dezembro no Espaço das Américas, em São Paulo, Kai Hansen palhetava alucinadamente um riff típico do metal melódico alemão. A canção trouxe uma sensação de déjà-vu. Um amigo que estava ao meu lado comentou: "parece Helloween". Não pude deixar de concordar.

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Pouco depois, era a vez de outros alemães de Hamburgo subirem ao palco. Michael Weikath palhetava furiosamente um riff típico do metal melódico alemão. Dessa vez fui eu que chamei a atenção do meu amigo: "parece Gamma Ray". Ele não pôde deixar de concordar.

Qualquer pessoa que acompanha minimamente a cena metal das décadas de 1980 e 1990 conhece a histórias dessas duas bandas. Helloween nasceu, conquistou o mundo com um som moderno, misturando o power metal europeu com harmonias instrumentais e líricas cheias de referências à música clássica. Michael Kiske, o então vocalista, é até hoje referência no estilo de vocais agudos que dominou a cena principalmente na década seguinte, escandalizando os metaleiros mais puritanos.

Mas todo relacionamento tem seu fim. Weikath e Hansen brigaram feio, o segundo resolveu abandonar o barco e montar sua própria banda, o Gamma Ray. Na sequência, alguns eventos curiosos. O Helloween flerta com uma sonoridade mais pop nos álbuns seguintes (dizem que esse é o motivo da saída de Hansen) até retornar às origens melódicas em Master of the Rings. Já o Gamma Ray se aventurou por mares mais felizes, digamos, apostando em uma sonoridade que alguns chamam por gozação de Happy Metal. Pouco depois, o então vocalista, Ralf Scheepers, abandona o barco, Kai Hansen assume o microfone e, pronto, o vento a favor volta a soprar colocando o Gamma Ray de volta ao curso do metal melódico.

Nos anos seguintes, a carreira de uma banda parece ser espelho da outra. Ambas fazem sucesso, ambas alternam álbuns ora mais melódicos, ora mais pesados. O Helloween ainda teve que aguentar o martírio de um novo racha nos anos 2000, mas superou a crise e seguiu firme e forte. O Gamma Ray, por sua vez, manteve a mesma formação por quase duas décadas e uma carreira bastante sólida no cenário metálico. Mas uma coisa divergia as duas bandas: Hansen e Weikath ainda estavam brigados.

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Os dois guitarristas da terra da cerveja viveram anos de birra infantil. Hansen tocava suas composições dos tempos de Helloween nos shows de sua nova banda, como Ride the Sky e I Want Out, enquanto Weikath ignorava os sucessos do passado compostos pelo seu ex-companheiro de banda, em uma emulação do racha Lennon x McCartney que se seguiu ao fim dos Beatles.

Brigas e conciliações são a coisa mais comum na história da música. Agora, pensando rapidamente, lembro-me de Dave Mustaine x Metallica, Dave Lee Roth x Van Halen, David Gilmour x Roger Waters. Todos, de certa forma, apararam as arestas ao longo dos anos. No entanto, em nenhum desses casos houve uma sintonia tão próxima de musicalidade entre as bandas originais e de seus respectivos membros proscritos como no caso dos alemães do Helloween e Gamma Ray (talvez no caso Megadeth e Metallica, mas isso é assunto para outro texto).

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Nada mais natural. Eles, pelo menos em termos de sonoridade, sempre foram unha e carne. Compuseram grandes canções, performaram incríveis duelos de guitarra. Também pudera: como no gênese bíblico, Gamma Ray nasceu de uma costela do Helloween. E, assim como o homem e a mulher, um parecia que não poderia ficar sem o outro.

Um muro como o de Berlim permaneceu dividindo os dois guitarristas por quase duas décadas até que, em um belo dia, resolveram fazer uma trégua. O resultado foi que já no fim da década de 2000 as duas bandas começaram a excursionar juntas.

Confesso que esperei a adolescência toda e esses anos de vida adulta para testemunhar o que vi no último domingo: Kai Hansen e Michael Weikath dividindo o mesmo palco. A música que marcaria a visita de Hansen ao palco do Helloween não poderia ser mais simbólica: um medley de Halloween e How Many Tears, as melhores composições de cada um dos briguentos na era oitentista da banda (antes da chegada de Hansen ao palco, o Helloween já havia tocado I'm Alive, composição de Hansen). A paz estava selada - e os fãs, extasiados.

Agora é difícil saber o que ocorrerá nos próximos anos. Ambas as bandas têm carreiras extremamente consolidadas e uma eventual volta definitiva de Hansen ao Helloween, como ocorreu no Rock in Rio, me parece algo totalmente improvável - e fora de propósito. Melhor deixá-los aí, brilhando separadamente, como um casal que se divorcia, mas mantém um relacionamento amigável. Tudo em nome das crianças. Ou, no caso, dos fãs.

*Flávio Dagli é jornalista e ama rock and roll desde os 10 anos, quando assistiu a um VHS do show do Queen no Rock in Rio I. Você pode conferir outras bobagens que ele escreve no blog
http://aconteceunaeuropa.wordpress.com




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