Metallica e Iron Maiden são opostos que padecem da mesma forma
Por Daniel Sanes
Postado em 24 de novembro de 2004
Imagine que você toca numa banda de rock’n’roll há duas décadas. Já lançou uns dez discos, cuja fórmula não dá sinais de esgotamento. Quer dizer, talvez já esteja meio por baixo para os modistas ou para a crítica. Mas nunca para seus fãs. Estes sempre adorarão toda e qualquer música que você grave, desde que ela não fuja dos padrões a que você os acostumou.
Só que, já com o peso dos anos nas costas, você decide jogar tudo para o alto e diz: "Cara, já estou cansado de fazer sempre o mesmo disco! Tô a fim de tocar alguma coisa diferente!". Certamente, há quem pense assim. É ocaso do Metallica. Sinônimo de piada nos últimos tempos, aquele que era o grupo de metal mais irado dos anos 80 se tornou o alvo preferido de dez entre dez headbangers (sim, porque banger que é banger não curte Metallica...). Andar com uma camisa da banda é pedir para ser chamado de pop, comercial, vendido...
E não é para menos. Do thrash vigoroso e ultrapesado que eles faziam nos anos 80, não sobrou quase nada. Começaram a se everedar por novos sons em 91, com o "disco preto", onde o peso ainda predominava. Depois de um bom tempo no limbo, ressurgiram com Load e Reload, considerados ridículos pela mídia especializada. Em ambos, o que se ouvia era bem mais suave do que qualquer canção do Master of puppets. Mesmo assim, não dá para negar que os caras fizeram o que desejaram realmente. Senão, teriam ficado muito mais leves – pois se esses discos não são extremamente pesados, de forma alguma podem ser considerados pop.
Após o lançamento de um álbum de covers e um ao vivo com orquestra, também muito malhados pela mídia roqueira, os caras cometeram o surpreendente St. Anger. Surpreendente no pior sentido, infelizmente. Além da péssima produção, que deixou a bateria de Lars Ulrich com som de panela, o tão propalado retorno às origens mostrou-se um terrível engano. O disco é pesado pra caramba. Mas isso não o torna agradável aos ouvidos de nenhum "metaleiro". Faltam os solos de guitarra, boa produção e velocidade, entre outras coisas. Mas não dá para dizer que o new metal ganhou um novo adepto. Por mais modernoso que seja, St. Anger é infinitamente mais pesado que qualquer coisa do Linkin Park.
Tudo isso para dizer que os caras do Metallica devem ser admirados por sua ousadia, já que, a cada disco, se propõem a trazer alguma inovação e, principalmente, fazem o que têm vontade, independente do que os fãs vão achar. Lamentavelmente, não conseguiram fazer bons discos, desperdiçando por anos o talento de composição que sem dúvida possuem.
Isso significa que o negócio é não mudar nunca e manter-se fiel ao som que o consagrou? Errado. E não há melhor exemplo disso que o Iron Maiden.
O grupo britânico possui todos os elementos que agradam aos "metaleiros": guitarras dobradas, letras épicas, vocais agudos e capas com desenhos de monstros (no caso, o clássico Eddie). Nos anos 80, o Iron Maiden lançou diversos clássicos do heavy metal. Nos 90, porém, passou por uma espécie de crise criativa. Após Fear of the Dark (92), o grupo perdeu Bruce Dickinson e lançou dois discos com Blaze Bayley nos vocais. Sem possuir um gogó tão agudo quanto seu antecessor, o cara foi quase linchado, tornando-se o culpado pelos dois discos medíocres que a banda lançou na seqüência. Dickinson retornou em 2000, para tentar repetir o sucesso de outrora. E conseguiu, pois Brave new world e Dance of death têm os ingredientes já citados acima, e que inevitavelmente agradam às hordes metálicas. Mas o que se percebe nos dois discos, por mais fanático que o sujeito possa ser, é que a ausência de criatividade e a falta de empolgação tomaram conta. Se não fosse pelos vocais, diríamos que a "era Blaze" nunca acabou.
O Iron Maiden se gaba de satisfazer seus fãs, de fazer aquilo que eles desejam ouvir. Mas e os músicos, será que desejam o mesmo? Se fosse assim, a prolífera carreira solo de Bruce Dickinson não seria repleta de boas músicas. Mesmo os dois últimos álbuns, voltados para o metal, soam muito mais pesados e inovadores que qualquer coisa feita por sua banda principal nos últimos dez anos...
Mudar sempre é perigoso, e no caso do Metallica, acabou em catástrofe. Mas ficar na mesma sempre, como o Iron Maiden, pode representar a decadência da mesma maneira. Qual o jeito ideal de levar uma carreira é algo muito particular, e cada banda tem o seu. Se dinossauros como Alice Cooper e David Bowie conseguiram manter suas carreiras dos anos 60 até agora sempre em constante mutação (o segundo até levou o apelido de "camaleão") e, principalmente, com integridade, está mais do que provado que inovar é possível. Por outro lado, grupos como Motörhead e AC/DC parecem pouquíssimo interessados em mudar, lançando discos muito parecidos entre si – mas sempre com muita paixão, o que rejuvenesce suas velhas fórmulas a cada lançamento.
Metallica e Iron Maiden são opostos que sofrem do mesmo mal. Um vive tentando se reciclar, enquanto o outro, passa o tempo se repetindo. A diferença é que, ao contrário dos grupos citados anteriormente, nenhum dos dois consegue acertar a mão em seus discos.
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Elton John mantém tradição de tocar hit que "só é conhecido no Brasil" com show no Rock In Rio
"Não chego aos pés dele"; o guitarrista contemporâneo admirado por Jimmy Page
O melhor baterista de todos os tempos, segundo Lito Sousa, do Aviões e Músicas
A música que coloca Elton John no topo do Rock in Rio 2026, segundo Estadão
"Foi adorável": Ian Gillan fala sobre reencontro do Deep Purple com Ritchie Blackmore
Os clássicos da literatura que Nando Reis não suporta: "Esse cara é antipático"
Quando Tony Iommi tentou fugir do som do Black Sabbath e criou um de seus riffs mais pesados
O melhor álbum de hard rock de cada ano dos anos 2000, segundo a Loudwire
Em trecho de nova biografia, Dave Mustaine fala sobre demissão de David Ellefson do Megadeth
Slipknot lança "Arsenal", música que marca a estreia do baterista brasileiro Eloy Casagrande
A melhor "música pop adolescente" de todos os tempos, segundo Brian May
A música que marcou o fim do auge do Oasis, segundo o Noel Gallagher
De AC/DC a ZZ Top, os 20 melhores discos lançados em 1981, segundo a Louder
David Ellefson diz que o Megadeth não existiria sem ele
Absolute Power, projeto heavy metal de Shane Embury (Napalm Death) anuncia álbum
Solos: Alguns dos mais bonitos do Heavy Metal
O ícone do heavy metal que foi traficante e andava armado no início da carreira
Bruce Dickinson diz que Iron Maiden rejeitou "Tears Of The Dragon"

As dez melhores músicas de thrash lançadas entre 1983 e 1985, segundo a Metal Hammer
Como era o mundo do metal quando ocorreram os atentados de 11 de setembro, há 25 anos
Os 2 membros do Metallica que planejaram outra banda no auge do "Black Album"
A banda de metal que Slash colocou acima das demais e chamou de "obrigatória"
Kirk Hammett defende os piores discos: "uma discografia perfeita deixa as pessoas entediadas"
Scott Ian achava que o Metallica já era gigante no início da carreira
Metallica lê as avaliações mais negativas do "Black Album" na Amazon
Lars Ulrich relembra como foi o primeiro encontro do Metallica com o Iron Maiden
A banda que fez James Hetfield lembrar do vocalista que o Metallica tentou contratar
De Sepultura a Madonna, os melhores discos lançados em 1986, segundo Scott Ian
Os Headbangers não praticantes
Rock, Pop, Jazz, Metallica, Lulu: Quando o radicalismo cega



