Metallica e Iron Maiden: opostos padecem da mesma forma

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Por Daniel Sanes
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Imagine que você toca numa banda de rock’n’roll há duas décadas. Já lançou uns dez discos, cuja fórmula não dá sinais de esgotamento. Quer dizer, talvez já esteja meio por baixo para os modistas ou para a crítica. Mas nunca para seus fãs. Estes sempre adorarão toda e qualquer música que você grave, desde que ela não fuja dos padrões a que você os acostumou.

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Só que, já com o peso dos anos nas costas, você decide jogar tudo para o alto e diz: “Cara, já estou cansado de fazer sempre o mesmo disco! Tô a fim de tocar alguma coisa diferente!”. Certamente, há quem pense assim. É ocaso do Metallica. Sinônimo de piada nos últimos tempos, aquele que era o grupo de metal mais irado dos anos 80 se tornou o alvo preferido de dez entre dez headbangers (sim, porque banger que é banger não curte Metallica...). Andar com uma camisa da banda é pedir para ser chamado de pop, comercial, vendido...

E não é para menos. Do thrash vigoroso e ultrapesado que eles faziam nos anos 80, não sobrou quase nada. Começaram a se everedar por novos sons em 91, com o “disco preto”, onde o peso ainda predominava. Depois de um bom tempo no limbo, ressurgiram com Load e Reload, considerados ridículos pela mídia especializada. Em ambos, o que se ouvia era bem mais suave do que qualquer canção do Master of puppets. Mesmo assim, não dá para negar que os caras fizeram o que desejaram realmente. Senão, teriam ficado muito mais leves – pois se esses discos não são extremamente pesados, de forma alguma podem ser considerados pop.

Após o lançamento de um álbum de covers e um ao vivo com orquestra, também muito malhados pela mídia roqueira, os caras cometeram o surpreendente St. Anger. Surpreendente no pior sentido, infelizmente. Além da péssima produção, que deixou a bateria de Lars Ulrich com som de panela, o tão propalado retorno às origens mostrou-se um terrível engano. O disco é pesado pra caramba. Mas isso não o torna agradável aos ouvidos de nenhum “metaleiro”. Faltam os solos de guitarra, boa produção e velocidade, entre outras coisas. Mas não dá para dizer que o new metal ganhou um novo adepto. Por mais modernoso que seja, St. Anger é infinitamente mais pesado que qualquer coisa do Linkin Park.

Tudo isso para dizer que os caras do Metallica devem ser admirados por sua ousadia, já que, a cada disco, se propõem a trazer alguma inovação e, principalmente, fazem o que têm vontade, independente do que os fãs vão achar. Lamentavelmente, não conseguiram fazer bons discos, desperdiçando por anos o talento de composição que sem dúvida possuem.
Isso significa que o negócio é não mudar nunca e manter-se fiel ao som que o consagrou? Errado. E não há melhor exemplo disso que o Iron Maiden.

O grupo britânico possui todos os elementos que agradam aos “metaleiros”: guitarras dobradas, letras épicas, vocais agudos e capas com desenhos de monstros (no caso, o clássico Eddie). Nos anos 80, o Iron Maiden lançou diversos clássicos do heavy metal. Nos 90, porém, passou por uma espécie de crise criativa. Após Fear of the Dark (92), o grupo perdeu Bruce Dickinson e lançou dois discos com Blaze Bayley nos vocais. Sem possuir um gogó tão agudo quanto seu antecessor, o cara foi quase linchado, tornando-se o culpado pelos dois discos medíocres que a banda lançou na seqüência. Dickinson retornou em 2000, para tentar repetir o sucesso de outrora. E conseguiu, pois Brave new world e Dance of death têm os ingredientes já citados acima, e que inevitavelmente agradam às hordes metálicas. Mas o que se percebe nos dois discos, por mais fanático que o sujeito possa ser, é que a ausência de criatividade e a falta de empolgação tomaram conta. Se não fosse pelos vocais, diríamos que a “era Blaze” nunca acabou.

O Iron Maiden se gaba de satisfazer seus fãs, de fazer aquilo que eles desejam ouvir. Mas e os músicos, será que desejam o mesmo? Se fosse assim, a prolífera carreira solo de Bruce Dickinson não seria repleta de boas músicas. Mesmo os dois últimos álbuns, voltados para o metal, soam muito mais pesados e inovadores que qualquer coisa feita por sua banda principal nos últimos dez anos...

Mudar sempre é perigoso, e no caso do Metallica, acabou em catástrofe. Mas ficar na mesma sempre, como o Iron Maiden, pode representar a decadência da mesma maneira. Qual o jeito ideal de levar uma carreira é algo muito particular, e cada banda tem o seu. Se dinossauros como Alice Cooper e David Bowie conseguiram manter suas carreiras dos anos 60 até agora sempre em constante mutação (o segundo até levou o apelido de “camaleão”) e, principalmente, com integridade, está mais do que provado que inovar é possível. Por outro lado, grupos como Motörhead e AC/DC parecem pouquíssimo interessados em mudar, lançando discos muito parecidos entre si – mas sempre com muita paixão, o que rejuvenesce suas velhas fórmulas a cada lançamento.

Metallica e Iron Maiden são opostos que sofrem do mesmo mal. Um vive tentando se reciclar, enquanto o outro, passa o tempo se repetindo. A diferença é que, ao contrário dos grupos citados anteriormente, nenhum dos dois consegue acertar a mão em seus discos.

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