Só escrevo sobre barulheira!
Por Raphael Crespo
Postado em 23 de novembro de 2003
A imparcialidade é um dos pré-requisitos básicos para qualquer bom jornalista. É através dela, caso seja seguida à risca, e de alguns outros fatores menos importantes, porém igualmente fundamentais, que um profissional de imprensa cresce na carreira e alcança o status da credibilidade.
Isto não quer dizer que um jornalista em início de carreira não tenha credibilidade. Se o "foca", como é chamado o iniciante em redações, é correto em seus atos, segue as regras básicas do jornalismo - a imparcialidade entre elas - e tem um bom texto, ele passa a ter a tal credibilidade, mas não no status de um jornalista que seguiu todas as regras anteriormente citadas e hoje tem algumas décadas de credibilidade alcançada.
Voltando ao papo da imparcialidade, a essa altura, o leitor do Whiplash! deve estar se perguntando: o que tudo isso tem a ver com o assunto principal que me leva a acessar esse site, a música? A resposta é que tem tudo a ver, pois aqui vai um relato pessoal, de um jornalista em início de carreira, porém já com uma boa experiência em jornalismo esportivo, mas que sempre sonhou em escrever sobre seu estilo de música favorito: o heavy metal.
Manter a imparcialidade, pelo menos para mim, é fácil como jornalista esportivo. Sou flamenguista fanático, desde que me entendo por gente, mas isso não influi no trabalho. O futebol pode ser uma coisa imprevisível, uma "caixinha de surpresas" como diz o famoso clichê, mas qualquer crítico, analista, jornalista ou profissional que trabalha com esporte sabe dizer se um time foi bem e o outro não em um determinado jogo ou campeonato, independentemente de paixões clubísticas. Eu mesmo, já cansei de escrever sobre jogos do meu Flamengo de forma crítica e sobre o Vasco, o "arqui-rival", de forma elogiosa. Ou seja, ver o futebol de forma justa não depende do gosto pessoal, do gosto de torcedor.
Como qualquer pessoa que sai de uma faculdade e cai no mercado de trabalho, o jornalista tem que estar preparado para atuar em qualquer área dentro de sua profissão, já que a competição é grande. No meu caso em particular, dei sorte de conseguir, logo de início, o que sempre quis, no caso, o esporte. Mesmo assim, me sinto preparado para trabalhar em outras áreas, como política, internacional, cidade ou polícia. Enfim, como qualquer um na profissão, sou pau para toda obra. No entanto, a mesma coisa eu acho que não aconteceria com a música.
No esporte, me sinto feliz fazendo o que eu faço. Em outras editorias, talvez não me sentisse tanto, mas faria em caso de necessidade. No caso específico de uma editoria de música, acredito que poderia ter alguns problemas com a tal imparcialidade. Hoje com 25 anos de idade, fã de heavy metal desde os 12, estou começado a ingressar no mundo da imprensa musical, fazendo críticas de CDs e matérias com algumas bandas do estilo.
Assim como já fiz entrevistas com Sepultura, Moonspell e Stratovarius, não teria o menor problema em fazer com a dupla Sandy & Júnior, por exemplo. Seria fácil manter a imparcialidade, pois uma matéria desse tipo serviria apenas para passar informações, que é o papel do jornalista. No entanto, os problemas passariam a acontecer no âmbito da crítica musical. Por mais que o jornalista/crítico tente, envolve demais o gosto pessoal, algo mais forte do que qualquer paixão por Flamengo, Vasco, Corinthians ou São Paulo.
Ao escrever um review sobre algum CD, por mais que o crítico atenha-se apenas a critérios técnicos, como a produção, tanto sonora quanto gráfica, por exemplo, ele sempre vai ser influenciado pela opinião que tem sobre a qualidade da música do artista. Ou seja, a imparcialidade, nesses casos, perde um pouco da importância, o que não chega a ser um problema, contanto que a coerência seja mantida.
No meu caso em particular, escrever sobre heavy metal, punk rock, enfim, música pesada, em geral, em todas as suas vertentes, é muito fácil, pois gosto e procuro estar sempre por dentro do que acontece nesses estilos. Uma crítica realmente justa, e livre de grandes influências do gosto pessoal, sai mais naturalmente nesses casos.
A coisa já mudaria de figura, por exemplo, se eu tivesse de fazer um review sobre algum CD dos já citados Sandy & Júnior. Antes de tomar conhecimento da obra, a idéia seria a seguinte: "não ouvi e não gostei". Depois da tortura de passar pela audição do CD, a probabilidade de uma mudança de opinião seria praticamente nula.
Se no caso da crítica musical a imparcialidade não é de fundamental importância, já que está envolvida a subjetividade do gosto pessoal, ela também não pode ser totalmente descartada. Por isso, já decretei: só escrevo sobre barulheira!
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