Capital Inicial fala sobre novo CD e Renato Russo
Fonte: Terra Música
Postado em 25 de maio de 2004
Rodrigo Carneiro
A história do Capital Inicial, que acaba de lançar o álbum Gigante (BMG), é notável. Saída das cinzas do Aborto Elétrico em 1983, a banda foi assombrada pelo messianismo pop do amigo e mentor Renato Russo durante toda a década de oitenta.
"O impacto do Renato sobre mim foi muito grande. Eu namorava a irmã do Fê (baterista) e do Flávio (baixista) e ia a todos os ensaios do Aborto Elétrico (gênese da cena de Brasília). Só fui entrar no Capital uns três anos depois. Acho que durante os anos 80 eu tentei imitar o Renato. A maneira dele cantar, o jeito dele escrever. E, evidentemente, eu não conseguia", reconhece o vocalista Dinho Ouro Preto, em entrevista ao Terra. "Minhas letras eram confusas", diz.
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O complexo de "patinho feio" fez com que o Capital Inicial, ainda que tivesse conquistado certo sucesso, olhasse para si próprio como uma espécie de sub-produto. Um veículo para os excessos típicos dos clichês do rock'n'roll.
"Deixávamos as coisas nas mãos dos produtores, gravávamos bêbados e lançávamos discos inacabados", dispara. A descida ao inferno não demorou muito. Após dez anos de trabalho, Dinho abandona a banda e grava os álbuns Vertigo (1994), com a banda Vertigo, e o solo Dinho Ouro Preto (1995). Os ex-companheiros também mantiveram-se na ativa e, com o vocalista Murilo, lançaram Rua 47 (1994) e Ao Vivo (1996). Nada aconteceu com os álbuns e a vida pessoal dos integrantes sofreu colapsos.
O inesperado sucesso de venda e execução da compilação O Melhor do Capital Inicial, em 1998, serviu para que algumas questões fossem revistas. Dinho Ouro Preto, Loro Jones, Fê e Flávio Lemos, zeraram as diferenças, resolveram os complexos e voltaram à estrada com um show comemorativo dos 15 anos da banda e dos 20 anos do nascimento do rock de Brasília.
O que seria uma série de shows comemorativos - e eles juram que seriam apenas shows comemorativos - rendeu um contrato com a extinta gravadora Abril Music. O disco de estréia dessa fase foi Atrás dos Olhos, gravado em Nashville, no Tennesse, e produzido por David Z, o mesmo de álbuns de Billy Idol, Prince e Fine Young Cannibals.
"Nós foi dada uma segunda uma segunda chance. Mas não caímos na armadilha, como muitos dos nossos amigos, de voltar com material antigo. Atrás dos Olhos só tinha composições inéditas", diz Dinho, enumerando as ameaças da Plebe Rude, do Finis Africae e Zero."Tudo o que aconteceu de errado com a banda foi culpa nossa",diz. "O hiato de 5 anos serviu para que aprendêssemos que cada um tinha de fazer o seu trabalho. Do tipo, eu ser um melhor baterista, o Dinho, um melhor comunicador, o Fê, um melhor baixista e assim por diante", diz Fê.
Escolada, a banda só revisitou o repertório oitentista para a MTV em 2000. A empreitada acústica fez o grupo conquistar o sucesso de vendas nunca alcançado nos primeiros anos. Terminada a turnê desplugada, o Capital Inicial lançou Rosas e Vinho Tinto (2002), que estourou nas rádios e alcançou a marca das 200 mil cópias vendidas - o que não evitou uma baixa. O guitarrista Loro Jones deixara o grupo antes das gravações.
"O (guitarrista) Yves (Passarell) entrou com o disco já composto. Comigo e o Alvin L. tocando guitarras. Uma coisa que diferencia o Rosas... do Gigante é a participação efetiva do Yves na composição", diz Dinho. "O disco tem muito a ver com o que a gente faz ao vivo. Somos nós quatro tocando rock'n'roll".
"Sinto muita firmeza neste trabalho. É o melhor som de bateria que eu consegui em um álbum', completa Fê. Entre as outras 12 faixas do álbum, uma das grandes das sacadas de Gigante é a primeira faixa de trabalho. Sem Cansar é uma versão da música C'est Comme Ça, dos franceses do Les Rita Mitsouko. Originalmente uma ode às drogas, a canção adquiriu tons sexuais nas mãos de Dinho e Alvin L. "O que me interessa em versões como essa é que tratam-se de rocks não anglo-saxões. Além disso, adoro cantar coisas dos outros", diz o cantor. "O problema seria se tudo o repertório fosse versão".
Com o clipe da música em boa rotação na MTV e público que varia entre os 14 e 18 anos, os músicos avaliam a própria trajetória com misto de orgulho e serenidade. "Ter vinte anos de banda significa que nós somos sobreviventes. Estamos aqui segurando a onda. A nossa geração foi muita castigada neste sentido e perdemos muitos ícones", diz Fê.
"Quero muito que no Brasil o rock seja encarado como parte da cultura popular. Lutamos por isso todos esses anos. Uma coisa legal é que já temos grupos brasileiros influenciados por outros grupos brasileiros. Os Detonautas, por exemplo, vivem dizendo que cresceram ouvindo Legião e Capital", diz Dinho. "Tem aquela história do Jota Quest, lembra ? Fomos tocar em Belo Horizonte e o Marco Túlio (guitarrista da banda mineira) não tinha idade para entrar no estádio e ficou ouvindo o som do lado de fora", lembra Fê.
"Com tudo o que já aconteceu conosco é um orgulho poder servir de referência para molecada. O rock não é uma missão suicida", diz.
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