Glass Harp: matéria sobre a banda no Consultoria do Rock
Por Marco Gaspari
Fonte: Consultoria do Rock
Postado em 18 de fevereiro de 2011
Só para provocar o chifrudo, aquele que se intitula "o pai do rock", Deus costuma privilegiar determinados músicos com um talento excepcional e alistá-los na legião de missionários que espalha a palavra de Seu filho por aí. Realmente, o rock cristão não costuma empolgar os adeptos do lado negro do rock’n’roll, mas fico imaginando o tinhoso querendo seduzir um ou outro desses talentos não só para fazer desfeita ao rival, mas porque gostaria muito de tê-los no som ambiente que embala os cômodos quentinhos de sua morada.
Philip Tyler Keaggy, ou Phil Keaggy, guitarrista do power trio norte americano GLASS HARP, é uma dessas figuras que valeriam qualquer esforço satânico. Não que sua vida tenha sido virtuosa a ponto de merecer um texto no verso de um desses santinhos que se distribuem nas igrejas. Muito pelo contrário: Phil foi uma típica criança americana nos anos 50 e um clichê de adolescente nos 60.
Nascido em 1951 na cidade de Youngstown, Ohio, aos quatro anos de idade perdeu metade do dedo médio da mão direita em um acidente com a bomba d’água que abastecia a casa da fazenda onde morava. E crescer com nove dedos nas mãos não encoraja ninguém a empunhar uma guitarra, não é mesmo? Por isso Phil pediu ao pai uma bateria no seu aniversário de 10 anos. Ao invés disso, ganhou uma guitarra Sears Silvertone e penou até aprender a tocá-la. Poucos anos depois trocou por uma Stratocaster e lá pela metade dos anos 60 já tocava nas bandas de garagem locais e tinha como concorrente outro futuro guitar hero: Joe Walsh (James Gang, Eagles).
Em 1965, na escola, Phil começou sua amizade e parceria com o baterista, guitarrista e compositor John Sferra. Ao voltar cheio de idéias de uma curta estadia na Califórnia com a banda The New Hudson Exit, em 1968, Phil convidou John e o baixista Steve Markulin para formarem o GLASS HARP. Passaram então a rodar o circuito colegial e de clubes da região de Youngstown, ganhando entrosamento e uma certa notoriedade, além de gravarem várias demos. Uma delas, "Where Did My World Come From" acabou virando um single lançado pelo selo United Label.
GLASS HARP, Human Beinz, Raspberries e o James Gang de Joe Walsh eram as bandas mais populares do nordeste de Ohio nessa época. E após a saída de Markulin para se juntar ao Beinz, o GLASS HARP recrutou o baixista e flautista Daniel Pecchio para o seu lugar. A crescente fama do grupo, no entanto, começou a trazer problemas para seus membros que, ainda no final da adolescência, tiveram que abandonar a escola e estudarem por correspondência para darem conta dos compromissos. O ano era 1969 e eles não apenas ganharam uma edição da "Battle of the Bands" da região, como também a atenção de um dos jurados que estava lá como olheiro do produtor Lewis Merenstein, votado na época como produtor do ano pela Rolling Stone pelo seu trabalho no disco Moondance, de Van Morrison.
Bastou uma ouvida nos demos e uma olhadinha na banda ao vivo para convencer Merenstein a apadrinhar o grupo, oferecendo inclusive um contrato para alguns discos no prestigiado selo Decca. Bom, eu não tenho os ouvidos de um produtor musical nem sou músico, minha ignorância musical também me impossibilita afirmar se o Phil Keaggy glissandeia, arpejeia ou simplesmente embuceteia na guitarra, mas pelo que a gente lê de quem ouviu o Glass Harp ao vivo nesses idos de 69 e comecinho dos 70, os garotos impressionavam. A guitarra ágil de Keaggy soava carregada de lirismo e a cozinha de Sferra e Pecchio não era apenas competente, era versátil e poderosa. Em suma, eles prometiam.
O entusiasmo pela banda era tamanho que um gaiato qualquer chegou a espalhar um boato de que Jimi Hendrix, ao ser entrevistado em um programa de TV ou nas páginas da Rolling Stone, teria afirmado que Phil Keaggy era o melhor guitarrista do mundo. Essa historinha corre solta até hoje, mesmo depois dos vários desmentidos de Keaggy, já que Hendrix dificilmente conhecera a banda ao vivo e seu disco de estréia, embora gravado no Electric Lady Studios, de Jimi, em Nova York, e produzido por Merenstein, ficaria pronto duas semanas após a morte do guitarrista.
Confira a continuação dessa história no blog Consultoria do Rock.
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