Titãs: "Não existe aposentadoria pra roqueiros"

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Por Breno Airan, Fonte: Rock na Velha
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Matéria de 10/09/12. Quer matérias recentes sobre Rock e Heavy Metal?

Logo que se fala que bandas veteranas estão se esvaindo em suas últimas investidas e solfejos em shows memoráveis, algo pesa no imaginário dos roqueiros de todo o mundo – ou pelo menos em parte deles: o cometa está para chegar.

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O clichê – ainda não tão habitual – é pensar que os dinossauros do estilo musical vão-se embora, sem ao menos deixar alguns ovos.

Mas quem iria aquecê-los? As raízes. Talvez as raízes, lugar onde nenhum predador da indústria fonográfica poderia esmagá-los, os ovos.

O que se vê além da linha do horizonte alaranjado não é uma chuva de cometas, mas a noite caindo e é nela que o medo e a esperança se renovam. Todos os dias.

Ainda assim, a vontade de seguir em frente não deixa que os dinossauros do Rock esmoreçam. IRON MAIDEN, ACCEPT, SCORPIONS, EUROPE, LYNYRD SKYNYRD, ROLLING STONES, TITÃS.

Sim, em terras tupiniquins, os fósseis deste gigante do estilo em âmbito nacional parece não querer se entregar.

“Ou morrem jovens [os músicos] ou envelhecem no palco. Não existe aposentadoria pra roqueiros”, pontua o guitarrista dos Titãs, TONY BELLOTTO ao blog Rock na Velha.

O grupo dele – que agora só conta com os também remanescentes BRANCO MELLO, PAULO MIKLOS e SÉRGIO BRITTO – está em turnê fazendo shows pelo Brasil, tocando na íntegra o álbum “Cabeça Dinossauro”, um marco do Rock nacional.

Clássico

Do caos se faz uma estrela. Esse axioma do filósofo alemão Friedrich Nietzsche se aplica ao que aconteceu com os Titãs em 1986.

O octeto já tinha dois hits: “Sonífera Ilha”, do álbum Titãs, de 1984, e “Televisão”, do homônimo lançado no ano seguinte.

Mas a droga apareceu. Não para atrapalhar as composições do grupo ou coisa do tipo.

É que, no dia 13 de novembro de 1985, o guitarrista Tony Bellotto e o vocalista ARNALDO ANTUNES foram pegos com heroína. Antunes havia levado a droga para o amigo e acabou respondendo por tráfico. Bellotto foi autuado por porte, mas logo saiu da cadeia.

Ambos, como eram réus primários, responderam pelas acusações em liberdade. Liberdade... “Era isso o fim da ditadura?”, teriam pensado.

E esse foi o enredo para a lapidação de um dos maiores clássicos do Rock nacional, o aclamado “Cabeça Dinossauro”, de 1986, que está sendo relançado em uma edição de luxo com um CD extra com 13 demos, incluindo a inédita “Vai Pra Rua”, na voz de Antunes.

Canções como “Bichos Escrotos”, “AA UU”, “Igreja”, “Porrada”, “Família”, “Homem Primata” e, claro, “Polícia” – não cantada, mas ‘gritada’ – fazem parte desse play, que é um soco no estômago da sociedade da época, mas com um toque de dulçor.

A doçura está no modo como os Titãs tratavam de assuntos sérios com a pitada de ironia que só eles sabiam fazer nos meados da década de 1980.

A bem da verdade, vários outros álbuns importantes foram lançados no período em que o “Cabeça Dinossauro” chegou às prateleiras, como o “O Concreto Já Rachou”, da Plebe Rude, o primeiro trabalho do Capital Inicial, o “Dois”, da Legião Urbana, e o “Selvagem?”, dos Paralamas do Sucesso.

Contudo, nenhum deles mexeu tanto com o âmago e o brio de um povo que mal sabia o que era democracia, começando a tentar voar.

Rock na Velha - Primeiramente, sem querer parecer muito clichê, mas... qual a pergunta que mais vem sendo feita a vocês a respeito dessa, digamos, nova turnê do “Cabeça Dinossauro”?

Tony Bellotto: A pergunta é: “esse é o melhor disco de vocês?”. A resposta sempre é: “um deles, sem dúvida...”

- O álbum, com efeito, é um divisor de águas na história da banda. Depois de “Televisão”, vocês ‘aumentaram o ibope’ com o “Cabeça”. Como foi a reação da mídia naquele 1986?

Nossa última preocupação àquela altura era "aumentar o ibope". Estávamos mais pra mandar tudo à merda! A reação da mídia foi esquizofrênica, como sempre. Uns falando bem e outros mal. Como diz o velho ditado árabe: “os cães ladram e a caravana passa”.

- Oito cabeças de dinossauros pensantes. Esses eram os Titãs, à época, talvez. Como se deu o conceito do álbum?

Não éramos dinossauros ainda. Somos agora... Mas sempre fomos pensantes – nisso você acertou (risos). O conceito era esse: um disco virulento, que não fizesse concessões.

- Boa parte das letras teria a ver com o fato de você e o Arnaldo Antunes terem sido presos, um ano antes, sendo autuados por porte e tráfico de heroína. Vocês acharam que não só a reposta à sociedade foi convincente, como isso mudou os limiares do que se entendeu por Rock n’ Roll no Brasil a partir dali?

O Rock mudou, mas, infelizmente, a política sobre as drogas, não muito...

- Há muita mistura no “Cabeça”. Funk aqui, reggae ali. Mas a pegada punk é a mais notória. Bem como o cunho fincado nas letras, sempre contra a opressão, qualquer que seja ela. Das 13 canções, qual a que vocês creem que define o momento quando foi lançado o Long Play? Era inclusive fim da ditadura, não?

São várias, mas a mais emblemática é “Bichos Escrotos”, pois ela fala com bom humor da falência de uma civilização. Foi censurada na época, inclusive. O que só aumentou sua popularidade...

- A banda está lançando o “Cabeça” remasterizado e com um CD bônus só de músicas demos. Vocês, por acaso, tocam “Vai Pra Rua” nesses shows de agora?

Não. Tocamos as canções imortalizadas no disco. “Vai Pra Rua” é só uma ‘curiosidade’ da edição comemorativa.

- Pelas demos dá pra perceber que o trabalho de produção que o registro teve foi impecável. Os grandes responsáveis por isso foram Vítor Farias, Pena Schmidt e o saudoso Liminha. A parceria com este último realmente conseguiu transpor todo o peso que vocês tinham ao vivo para o estúdio?

Sim, ele conseguiu! O Liminha é um produtor excepcional, além de figura histórica no rock brasileiro, ex e eterno Mutante...

- Só um detalhe: é verdade que você (risos) apostou um uísque Jack Daniel’s com o Branco Mello que as vendagens do “Cabeça” não ultrapassariam 100 mil cópias (o equivalente ao Disco de Ouro)?

Apostei, sim, e perdi... Ainda bem! (risos) Eu realmente acreditava que o disco seria um fracasso comercial...

- No lançamento do “Cabeça”, vocês eram oito. Hoje são quatro. O que mudou de lá para cá? A responsabilidade fica maior? Como fica o peso da idade e o da saída de Charles Gavin, já que ele estava desgastado e queria dar mais suporte à família e ao seu programa de TV?

As transformações são inevitáveis quando se fica 30 anos numa banda. O importante é que o espírito primordial e a essência do que somos estão mantidos.

- No início de junho último, fez-se 11 anos da morte trágica do Marcelo Fromer. Deve ser sempre complicado pra vocês falarem sobre o assunto, mas os remanescentes sentem a presença dele em cada nota, acorde, solfejo proferido durante as execuções ao vivo?

Sim, o espírito do Marcelo permanece vivo em nosso trabalho e cada show é sempre uma homenagem a ele.

- Já que estamos falando de coisas tristes, que falemos da atual situação do rock brasileiro. Sem entrar em pormenores, já estivemos melhor, não? O que falta pra essa juventude se revoltar?

Ah, sei lá. Nós fizemos nossa parte e deixamos um legado de muita qualidade. Mas não concordo com você que a situação do Rock brasileiro atual seja tão ruim. Há coisas boas. Principalmente no Rap, que de certa forma responde pelo Rock atualmente.

- Vocês acreditam que o futuro agora é disponibilizar singles pela internet? Os Titãs têm a pretensão de fazer algo semelhante, chegando a divulgar material para download gratuito?

Não sei. Sou uma múmia cibernética e não me interesso pelo assunto. Meu negócio é tocar guitarra... (risos)

- Em se tratando do amanhã, o que, nós, os fãs podemos esperar para os próximos anos? Aposentadoria nem pensar, não é?

Aposentadoria?! E desde quando músico de rock se aposenta? (risos) Ou morrem jovens ou envelhecem no palco. Não existe aposentadoria pra roqueiros.

- Ah, só mais uma pergunta: e o espetáculo? Li numa entrevista que vocês o pontuaram como “glorioso”. É a reciprocidade do público falando, exalando?

A glória vem da percepção da importância que o disco tem para as pessoas. Mais que importância, o que se vê do palco por nós são declarações de amor.

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Sobre Breno Airan

Acima de tudo, um forte. Ser roqueiro no Nordeste é estar cercado de olhares de soslaio. Mas ele sabe ser simpático. Começou a escutar Heavy Metal ainda na barriga da mãe. A seu pai, uma verdadeira enciclopédia do estilo, deve tudo. Aos 14 anos, pediu para uma tia R$ 12 de presente de Natal, foi a uma loja de CDs usados e catou logo o "Rust in Peace", do Megadeth - em perfeito estado, inclusive. Daí por diante, a paixão só vem aumentando. É editor do blog Rock na Velha, integrante do blog Combe do Iommi e colaborador da revista alagoana Rock Meeting. Ainda tem tempo para ser jornalista e de tocar baixo em sua banda de Hard Rock, a Azul Manteiga.

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