Alta Fidelidade: A psicodelia sintetizada da The Beta Band
Por Daniel Santos
Fonte: Filme - Alta Fidelidade
Postado em 23 de fevereiro de 2014
Era transformação, era experimentação, abusos que criaram obras primas para influências de músicos nas décadas seguintes. Desenvolver uma camada tangível e de fácil audição era o maior problema para as aspirações da década de 60. Estados Unidos e Inglaterra depararam com o desgaste precoce do conceito "rock and mod", e as grandes referências ao blues e country glass passaram por modificações significativas.
Abraçando com o poder da "Flower Power", a psicodelia de 67 marcou as estréias de gente como Jimi Hendrix ("Are you experienced"), Velvet Underground ("Velvet Underground and Nico" e "White Light/White Heat"), Jefferson Airplane ("Surrealistic Pillow"), The Doors ("The Doors"), Pink Floyd ("The Piper at the Gates of Dawn"), e o excêntrico Arthur Lee e sua Love ("Forever Changes"). A consagração da decada é selada com lançamentos de bandas conhecidas; Beatles ("Magical Mystery Tour" e o pai de todos "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band"), Rolling Stones ("Their Satanic Majestic Request’), Cream ("Disraeli"), Frank Zappa ("Absolutely Free") e The Who ("Sell Out").
Ambiente criado, influências fixadas e mentes liberadas por doses irreais de drogas sintéticas ou naturais, tudo valia na arte da criação, na arte da inovação e, principalmente, na arte de massificação. Com a Pop Art, a psicodelia ganhou status, cores e a mídia; essas influências afastavam cada vez mais do já antigo conceito da contracultura e do movimento hippie. Foge da liberal São Francisco a caminho dos extremos cosmopolitas norte-americanos – Los Angeles e New York.
Até 1974 o movimento sobrevive, mas cada vez mais lúcido e inoperante. Climas ganharam a velocidade dos avanços sócio-tecnológicos e segmentavam cada vez mais o conceito psicodélico e suas direções. A última grande aparição dos vestígios lisérgicos aconteceu com Tom Verlaine e sua Television, tendo como palco os desconhecidos Max e GBGB. Ao fim dos anos 70 a "good trip" do movimento de 67 era uma recordação aos ouvidos e pensamentos.
Entra os anos 80, e as maiores mudanças do rock caem no aprofundamento poético das composições. As canções de protesto de Dylan e as metáforas amórficas de Lennon dão lugar à celebração do cotidiano, do marasmo do sistema e das falhas humanas. Ian Curtis, Morrisey e Robert Smith tornam-se referências de uma geração obscura e afundada na sua própria existência. Nada de solos e virtuosismos, os complexos arranjos são substituídos pelos power chords do legado punk. O foco principal das bandas "post punk" adotaria as frias e cinzentas locações de Londres e Manchester, esta última abrigaria o movimento conhecido como "Madchester".
Avançando no tempo e espaço, nosso Submarino Amarelo pousa nos highlands escoceses, mais precisamente na pacata Edinburgh de 1996. Os amigos Stephen Mason (vocal), Robin Jones (bateria) e o dj John Maclean juntam-se para ensaiar alguns temas. Desta união nascia a The Beta Band.
O som dos betas amadurecia a cada dia e atraindo os ouvidos curiosos de Brian Cannon (produtor responsável pela descoberta do Oasis). Em 1997, já com o baixista Richard Greentree, o Beta Band lance seu primeiro EP, conhecido como "Champion Versions" .
Os primeiros shows eram marcados pelos abusos de experimentos, que às vezes soavam como desnecessários e repetitivos, após várias apresentações pela cena alternativa européia, a banda entra em estúdio novamente e lança, no mesmo ano (1998), os EPs "The Patty Patty Sound" e "Los Amigos del Beta Bandidos". Estes três discos são compilados e lançados no CD "The three EPs".
Como tudo na história da banda é assimétrico e quebrado, somente em 2000, a grande mídia conheceria os Betas. Aos mais atentos John Cusack apresentaria a banda no cult movie, High Fidelity (Alta Fidelidade), filme baseado no romance homônimo de Nick Hornby, que conta a história de Rob (John Cusack), um trintão dono de uma loja de discos e sua crise pós 30 anos. Em uma altura do filme Rob sussurra ao ouvido de um dos seus funcionários: "Venderei cinco cópias do Three EPs do Beta Band". Neste momento entra no ápice de Dry The Rain (encontrada no The Patty Patty Sound). A cena seguinte mostra a maioria dos clientes da loja hipnotizados pelo baixo marcante e os sintetizador harmônico da música. Uma pergunta nasce: "Quem é?".
Beta Band é um liquidificador musical que buscou nos 60s as raízes do psicodelismo, nos 70s a atitude punk e nos 80s o lirismo e profundidade nos temas que pautaram sua letras. Do "quem" respondido, a sonoridade da banda é atemporal e para os ouvidos enraizados pode soar com estranheza nas primeiras audições, mas tente ouvir "Human Being", "Gone" ou "Dry the Rain" e veja como uma banda noventista pode transportá-lo para décadas atrás, ou melhor, décadas a frente.
Até 2005 a banda lança mais 3 discos; "Hot Shots II", "Heroes to Zeros" e uma coletânea dupla com músicas da sua última turnê.
Ouça também:
Flaming Lips
Super Furry Animals
The Virgineers
Spacemen
Radio 4
Spiritualized
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