Banda Tourette: transformando singularidade de síndrome em arte
Por Aggnes Franco
Fonte: Ecoefeitos
Postado em 21 de agosto de 2015
Bandas existem muitas. Mas, convenhamos, nem todo artista tem noção do papel social que desempenha. Ao contrário disso, a banda paulistana TOURETTE - fundada em 2009 -sabe exatamente o que quer, e coloca o dedo em uma ferida bem aberta da sociedade: a particularidade dos portadores de doenças neurológicas. A reboque, estampa a diversidade humana com toda sua riqueza, limitações e potencialidades.
Batizada com o nome de uma Síndrome menos rara do que parece – TOURETTE – a banda presenteia o mundo com seu primeiro disco - ‘Out of Control’ - mostrando 10 faixas carregadas de agonia, questionamento, amor e outros sentimentos humanos. A sonoridade das músicas acompanha as letras, com harmonias que passeiam pelo peso de guitarras no melhor estilo heavy metal às nuances delicadas de uma balada de amor não ficam de fora. "Por trás de cada música existe uma história. Todas elas se relacionam com a Síndrome de Tourette, e o mais curioso é que qualquer pessoa pode se identificar com isso. Quem nunca disse uma palavra que não queria dizer, por exemplo?", questiona Massimo Spalla, fundador e vocalista da banda.
O neurocirurgião doutorado em medicina pela Universidade de Würzburg (Alemanha), Dr. Eduardo Alho, explica melhor a Síndrome de Tourette, "Há um sistema que coordena de modo balanceado emoções, planejamento de ações e execução (que se dá com ações motoras). Esse balanceamento é feito por ‘núcleos da base do cérebro’. Um exemplo dessa interação é quando sentimos fome: uma sensação fisiológica, que gera uma vontade de comer (emoção) e que aciona um mecanismo motor de busca por alimento (ir ate um restaurante, preparar um alimento ou chorar no caso de bebês). No caso de Tourete, existe uma alteração genética na regulação dos núcleos da base. Com isso, comportamentos motores e vocais ‘escapam’ e são exteriorizados.", explica.. O pesquisador destaca ainda que, além de não comprometer a inteligência, as expressões dos portadores da Tourette não necessariamente refletem algo que eles realmente sentem ou desejam: "Quem tem Tourette, em geral, não tem motivo para realizar uma ação motora ou vocalização. Ou seja, não é que não controla emoções, o problema é que as ações motoras e as vocalizações estão pré-programadas nos núcleos da base. Em todos nós, depois da fase de aprendizado temos já um ‘pacote’ cerebral de contração muscular sequencial para cada ação. E são essas ações que escapam", conclui.
Segundo o front man da banda, a inspiração pela Síndrome de Tourette é simples: "Para um artista, a arte funciona como um exorcismo de pensamentos e sentimentos que nem sempre são nossos. A Síndrome de Tourette, de certo modo, funciona com a mesma força. As pessoas precisam expressar certos movimentos e sons. Não tem como controlar isso!" Vini Costa, guitarrista do grupo, completa: "Todos nós temos limitações e fatalmente vamos falhar, por pra fora, não tem como evitar... ou talvez tenha. Mas a hipocrisia nos mascara. Queremos expor, desta forma incontrolável, as histórias conflitantes, melancólicas , tristes, repudiáveis e também estas mudanças abruptas de comportamento sentimental e psicológico. Tudo isso se aplica à nossa música, por isso não seguimos uma única vertente de rock. Precisamos deixar claro que a natureza de qualquer ser humano se assemelha à Síndrome de Tourette. Basta olhar direito, deixar sentir, se enxergar ", afirma.
Depois do lançamento do álbum independente, o grupo, que prepara para gravar seu clipe de estreia e se declara muito otimista com os próximos passos: "Tem novidade por aí. Estamos trabalhando no roteiro do vídeo, preparando uma turnê, e espero que logo as pessoas possam conhecer mais e melhor o trabalho que a gente faz!", afirma o guitarrista.
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