Pedro Canaan: Produção musical é uma arte

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Por Nelson de Souza Lima
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Quantos garotos de 21 anos pensam em seguir uma profissão que não seja jogador de futebol, pagodeiro ou cantor de funk? Com certeza poucos.

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Agora encontrar um cara nesta idade que opte pela produção musical tratando-a apaixonadamente como arte equivale a garimpar um diamante de 1000 quilates em Serra Pelada. O diamante em questão é o paulistano Pedro Canaan que, apesar de jovem mostra maturidade, pavimentando uma estrada brilhante (desculpem o trocadilho).

Aos dez anos de idade Canaan decidiu tocar guitarra. Incentivado por amigos e família passou a ter aulas com o guitarrista Alexandre Spiga. "Também tive teoria e canto durante esse período. Tudo isso me estimulou muito para seguir no caminho da música e me deu muitos recursos que são aproveitados até hoje como produtor. Depois de decidir que iria seguir pelo caminho da produção de áudio, pesquisei muito para saber qual seria o melhor local para a minha formação e reparei que a maior oportunidade que eu poderia ter seria saindo do país", diz o jovem.

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E o cara partiu para o exterior. Só que não foi qualquer lugar. Ganhador de uma bolsa de estudos Pedro Canaan se tornou aluno da Columbia, em Chicago, uma das mais renomadas universidades americanas. Em virtude da pandemia as atividades estão suspensas e Pedro cumpre isolamento em São Paulo com a família.

"Não tive dúvidas de aceitar e embarcar nessa oportunidade. Além disso, a cidade de Chicago é ótima e oferece uma variedade cultural muito grande. A Columbia, por ser uma faculdade só de artes, também me proporcionou inúmeras oportunidades de colaborar com outras áreas artísticas e conhecer pessoas muitíssimo talentosas", afirma.

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Muito solícito Pedro respondeu por e-mail a entrevista abaixo.

Fale do começo da sua curta, mas intensa, trajetória. Com apenas dez anos decidiu tocar guitarra. É uma fase em que a maioria dos meninos brasileiros sonha em ser jogador de futebol. O que te levou à música? Influência de alguém da família? Fale disso, por favor.

Pedro Canaan: Eu tive a minha fase de jogador de futebol também (risos), porém desde cedo percebi que eu me dava muito melhor com as mãos do que com os pés. Mesmo no futebol, eu ia sempre no gol e me dava bem no vôlei também. O meu maior estímulo para a música veio dos meus amigos de escola. Tinha acabado de mudar de colégio, e fiz uns amigos que tocavam guitarra e tinham uma banda. A família sempre me apoiou bastante também e teve uma participação fundamental no processo, mas o maior gatilho foi esse estímulo dos amigos, que por acaso são os meus parceiros de banda The Death Season até hoje.

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Fala sobre a sonoridade da The Death Season (que inclusive lançou recentemente duas músicas com produção sua). Quais as influências do grupo e o que projeta para a banda? Vai levar simultaneamente o trabalho de produtor com a de músico?

PC: As nossas influências vêm de todos os lados. Apesar de hoje nos encaixarmos no gênero do Metal Alternativo, todos nós somos bastante ecléticos e gostamos de coisas muito diferentes. O Bruno (baterista) gosta muito de Rap, Trap e Samba, o Matheus (vocalista e guitarrista) vai de Blues até Death Metal, o João (guitarrista) e eu gostamos bastante de Indie e MPB; eu também tenho uma influência grande do Jazz (muito por causa do meu estudo de música nos EUA), e inclusive fui o responsável por trazer a Big Band da EMESP para participar de três faixas do nosso novo álbum "Liberté", que está para ser lançado em breve.

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Gostaria de saber como foi a mudança pros EUA e o processo de entrada na Columbia. Você começou estudando guitarra com o Alexandre Spiga e fez canto e teoria. Posteriormente iniciou o curso de produção musical na EM&T. Toda essa bagagem te levou a estudar fora do Brasil. Por que a Columbia? Aqui no Brasil ainda não estamos no nível dos americanos de formar grandes produtores?

PC: Antes de me decidir por produção musical, estudei guitarra por muito tempo com o sensacional Alexandre Spiga, também tive aulas de teoria e canto durante esse período. Tudo isso me estimulou muito para seguir no caminho da música e me deu muitos recursos que são aproveitados até hoje como produtor. Depois de decidir que iria seguir pelo caminho da produção de áudio, pesquisei muito para saber qual seria o melhor local para a minha formação e reparei que a maior oportunidade que eu poderia ter seria saindo do país. Nesse tempo, até cheguei a fazer o curso Técnico de Produção Musical da EM&T, coordenado pelo Fernando Quesada, e embora esse seja um dos cursos mais conceituados na área do país e eu tenha aprendido muito lá, reparei que aqui no Brasil, o estudo do áudio é muito mais superficial e menos abrangente do que em outros lugares do mundo. Foi sabendo disso que escolhi a Columbia; o programa de Audio Production deles é excelente, ótimos professores, uma estrutura que capacita o aluno a ter uma experiência equivalente a um estúdio profissional. Quando soube que consegui uma bolsa para estudar lá, não tive dúvidas de aceitar e embarcar nessa oportunidade. Além disso, a cidade de Chicago é ótima e oferece uma variedade cultural muito grande. A Columbia, por ser uma faculdade só de artes, também me proporcionou inúmeras oportunidades de colaborar com outras áreas artísticas e conhecer pessoas muitíssimo talentosas, como o Tony, meu sócio na gravadora The Groovy Motherfunkers. Finalizando, acho que o Brasil tem sim pessoas muito criativas e muito dedicadas nesse ramo, porém em termos de conhecimento teórico, ensino formal e estrutura, estamos ainda muito atrás de países como os Estados Unidos e a maioria das potências da Europa.

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Falando nisso, uma boa parte dos produtores musicais brasileiros está nos EUA. Têm contato com algum deles?

PC: Não muitos, sinceramente. Na minha faculdade, sou o único brasileiro no curso. Mas estou consciente de um pessoal fazendo um ótimo trabalho por aí. O Teo Guedes (@teoguedx) é um cara que tá mandando muito bem nas produções dele em L.A.; apesar de ele trabalhar com um estilo de música bem diferente do que eu costumo fazer e ouvir, acho bem legal acompanhar os lançamentos dele, e vira e mexe trocamos umas mensagens nas redes sociais.

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Qual o diferencial, pra você, ser um grande produtor musical?

PC: Estudo e prática. Apesar de ser uma arte, é também um ramo muito interdisciplinar, que requer conhecimento de várias áreas diferentes. Teoria musical, engenharia de áudio, acústica, psicoacústica, até de anatomia do ouvido eu tenho aula na faculdade. Claro que você não precisa ser um expert em tudo isso, e não é sempre que esses conhecimentos são aplicados, mas acho que são tópicos que todo produtor musical deveria ter ao menos uma educação básica, e poucos a têm. No Brasil principalmente, existe uma cultura de que a prática é sempre muito mais valiosa do que a teoria, mas a verdade é que tem muitos conceitos teóricos que fazem muita diferença no trabalho de produção e não são muitas as pessoas que se atentam a eles. Dito isso, a prática também é essencial para o desenvolvimento das habilidades de produção, assim como em todas as outras artes. Produzir muitas coisas, mixar muito, ouvir muitos gêneros diferentes, testar ideias novas sempre; essas são coisas bem práticas que acabam te dando repertório e expandindo suas ideias na hora de trabalhar em uma música.

No ano passado você e Tony Klacz fundaram a TGM - The Groovy Motherfunkers - produtora/gravadora/divulgadora oferecendo tudo que uma major propicia. Mas como gira o capital financeiro da TGM? Vocês disponibilizam seus artistas nas plataformas digitais, porém lançar em mídia física está nos planos da TGM?

PC: Nossos planos giram sempre em torno de uma abordagem muito holística. Tentamos dar todo o suporte que um artista independente precisa para crescer com sua música, e até por termos uma rede de contatos muito grande por conta da faculdade, conseguimos oferecer muitos serviços adicionais que são atraentes para nossos artistas. Claro que disponibilizamos todo o nosso conteúdo nas plataformas digitais, mas não é daí que vem o nosso maior lucro. Além de oferecermos os serviços de composição, produção, gravação, mixagem e masterização de músicas, promovemos grandes shows e festas nos quais nossos artistas têm a oportunidade de se apresentar e unir públicos. Nessas festas, temos parceria com a faculdade para conseguirmos equipamentos, temos nosso diretor de arte para cuidar de cenário, roupas e maquiagem... Ou seja, o dinheiro que entra roda entre muitos setores, e conseguimos sempre nos bancar e fazer um esquema que seja lucrativo para todos os envolvidos. Também temos parcerias com diretores para filmar clipes, gente que trabalha na divulgação dos artistas... Enfim, tentamos realmente abranger vários setores para nossos artistas se sentirem atendidos e poderem lançar seus trabalhos com confiança. Sobre mídias físicas, não temos planos no momento, até por conta da pandemia. Além disso, nosso maior público é de estudantes, que normalmente não têm muito dinheiro e preferem usar apenas as mídias digitais, então esse é o nosso foco por enquanto.

Logo mais devem criar uma filial brasileira da TGM. Como estão os planos? Apesar da pandemia vocês têm trabalhado bastante e lançado Cat Strub, Zeno Camera e The Death Season. Como vocês selecionam as bandas para o cast da TGM? E como será no Brasil?

PC: As reformas já começaram e prevemos que a TGM Brasil comece a funcionar em Outubro, na cidade de São Paulo. Pretendemos trabalhar com a mesma metodologia que já temos trabalhado em Chicago, porém tendo como grande diferencial essa conexão direta entre os dois países, o que achamos que será um grande atrativo tanto para artistas brasileiros quanto americanos. Sobre o cast da TGM, temos muito prazer em trabalhar com todos os artistas que nos procurarem, desde que a arte seja autêntica e honesta, e eles sejam pessoas confiáveis e profissionais. Não temos restrições de gênero musical, sabemos apreciar e adoramos nos desafiar a produzir estilos diferentes. Contudo, quem nos procura tem que ter em mente que o nosso método de trabalho é bem característico, e que nosso perfil de produção é de sempre experimentar coisas novas, tomar decisões ousadas e tentar trazer algo novo aos ouvintes. Se você é um artista sem grandes ambições, que quer gravar uma música igual a muitas outras que já existem por aí, provavelmente não somos a gravadora ideal para você.

Apesar de jovem você é bastante focado no seu trabalho. E música é um eterno aprendizado. Você é exigente com você mesmo?

PC: Absurdamente. Estou sempre tentando melhorar e tentando aprender com os erros. Me satisfaz muito o fato de eu ouvir os meus trabalhos em ordem cronológica e notar uma evolução. Além disso, sempre que estou produzindo um artista, eu fico imerso no processo, ouço muitas referências e fico tendo ideias sobre as músicas 24/7.

Pra encerrar o que você diria pra quem tem o desejo de trabalhar com produção musical?

PC: Se dedique. Existem muitas pessoas se autodenominando "produtor musical" por aí, mas se você quiser fazer realmente alguma diferença no mundo da música, é preciso se dedicar e não se contentar com o básico. Como foi citado na pergunta anterior, música é um eterno aprendizado, então nunca ache que você já sabe tudo, ou já sabe o suficiente. Experimente, crie, pratique. Descubra de que jeito suas ideias fluem melhor. Apesar de todas as coisas técnicas que eu mencionei, a produção é uma arte e o coração de tudo é você conseguir expressar sentimentos através dela.

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Sobre Nelson de Souza Lima

Jornalista, repórter, resenhista, colunista musical. Assim é Nelson de Souza Lima. Mas acima de tudo um amante do rock, classic, hard e metal. Entre minhas entrevistas estão as feitas com Angra, André Mattos, Royal Hunt, Blind Guardian, entre muitas outras. Além disso sou baixista da banda de Classic Rock e metal The Green Pigs.

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