O pastor televisivo que foi vocalista do Black Sabbath
Por André Pereira Rocha
Postado em 19 de maio de 2021
Os anos de 1980 foram bastante complicados para Tony Iommi e o BLACK SABBATH. É sabido que muitos integrantes diferentes passaram pela banda, alguns consagrados, outros não conhecidos pelo público. Alguns com passagens muito rápidas e outros que acabaram, mesmo que de forma reservada, perdurando ao longo de alguns álbuns. Mas, dentre essas peculiaridades e intempéries, um momento pode ser ainda mais instigante, principalmente quando pensamos sobre o que a banda representa para o Rock, para o Heavy Metal e para o imaginário do grande público. Este momento é quando um pastor cristão evangélico acabou participando da banda. Sim, por pouquíssimo tempo, mas de fato ocorreu.
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Mas como isso aconteceu? Para isso é preciso entender uma ordem cronológica sobre o próprio período. Aqui, estamos nos referindo acerca do ano de 1985. Com a saída de Ian Gillan para a reunião com o DEEP PURPLE, Iommi acabou ficando sozinho com o BLACK SABBATH. Geezer Butler e Bill Ward se voltaram a outros projetos que não previam mais os mesmos caminhos.
No meio das incertezas, e da possibilidade de se lançar um disco solo, o guitarrista foi convencido pelo então empresário Don Arden (pai de Sharon Osbourne) a se juntar ao vocalista Jeff Fenholt. Na época, ele era conhecido pelo seu trabalho em "Jesus Cristo Superstar" e pelas inúmeras apresentações bem sucedidas na Broadway.
Naquele momento, Tony Iommi tinha poucos músicos certos em seu trabalho. Dentre eles estavam Eric Singer (atual baterista do KISS) e Geoff Nicholls, eterno tecladista da banda e que vinha mantendo um trabalho regular desde o fim da década de 1970. Fenholt vinha para tentar fechar o problema dos vocais.
Na tentativa de fazer um projeto solo, que pudesse trazer vários músicos, principalmente vocalistas diferentes, Iommi insistiu, sem sucesso, frente ao empresariado e à gravadora. Por fim, a necessidade de um ocupar este lugar com um único músico, acabou sendo bem importante para o gerenciamento de todo o projeto. Fenholt parecia figura certa, de acordo com Arden. Com boas gravações no fim da década de 1970, crescente interesse sobre seu trabalho e o sucesso nas apresentações de "Jesus Cristo Superstar" poderia fazer com o interesse sobre o Black Sabbath aumentasse, pois havia a preocupação de se ocupar o lugar que havia sido de Ozzy, Dio e Gillan com alguém que de fato pudesse chamar a atenção. Para aquele momento, parecia o certo.
Mas a passagem do vocalista foi muito rápida. Em sua biografia, Iommi comenta sobre esse contexto: "Então, nós tentamos esse cara chamado Jeff Fenholt. Ele era outro que havia interpretado o papel principal em "Jesus Cristo Superstar", na versão musical da Broadway. Até então, nós tínhamos Gillan, que representou o papel na versão original de "Jesus Cristo", e naquele momento nós tínhamos um cara da Broadway querendo entrar para a banda. Nós tentamos Jeff nos vocais e ele tinha uma voz muito boa. Nós editamos algumas demos com ele em Los Angeles. Uma das faixas era "Star of India", que posteriormente foi rebatizada como "Seventh Star". Outra foi a "Eye of the Storm", que acabou entrando no álbum de 1986 como "Turn to Stone". E também tivemos uma faixa que eventualmente se tornou a "Danger Zone". Claro que essas demos vazaram e foram lançadas como bootlegs. Acabaram chamando isso de "Eighth Star" ou alguma coisa do tipo. Jeff parecia um cara legal. Poderia ter funcionado trabalhar com ele, mesmo que não estivesse 100% convencido de que ele podia cantar o material antigo. Mas, Jeff Glixman veio para produzir o álbum e ele achava que Fenholt não estava funcionando bem, principalmente nas gravações. E foi isso. Um pouco depois disso, Jeff Fenholt subitamente se tornou um grande evangelista de TV. Eu não podia acreditar, porque quando nós nos encontrávamos, ele dizia coisas do tipo "Ah, eu comi aquela garota!". O New York Times fez uma matéria sobre ele ter feito parte do BLACK SABBATH e eles escreveram que ele viu uma luz, rejeitou o demônio e todas essas besteiras. Nós estávamos novamente dentro desse negócio de satanismo porque o Fenholt dizia essas coisas. Eu recebi um telefonema para participar do Larry King Show e falar sobre ele. Eu pensava: "Não vou me envolver com isso!". Se você fala ou mesmo tenta falar sobre religião em alguma TV dos EUA, você não tem chance nenhuma. Especialmente naquele momento, em que ele havia se tornado um evangelista, todos eles estavam do lado de Jeff e não teria como me defender."
Em uma entrevista de 2010, o então baterista do projeto, Eric Singer, ainda lembrou: "Tony estava originalmente indo atrás de cantores diferentes. Eu lembro que ele trouxe um cara, Jeff Fenholt. Ele costumava trabalhar em "Jesus Cristo Superstar". Ele foi um daqueles caras "convertidos", dizia ter feito parte do BLACK SABBATH e que desistiu da "música do demônio". Eu sempre achei isso ridículo, porque esse cara nunca esteve no BLACK SABBATH. Ele basicamente estava no estúdio por um período de poucas semanas, ou talvez um mês, e trabalhou algumas ideias com Tony, mas nunca passou disso. De alguma forma, ele dizia ter feito parte do BLACK SABBATH, sempre achei isso esquisito."
Em outra entrevista, revisitando um pouco melhor as memórias da época, o batera ainda complementou: "Jeff Fenholt cantou em algumas gravações de Tony em 1985, em Los Angeles. Tony estava procurando por um vocalista que pudesse estar em seu álbum solo. Jeff veio e trabalhou em estúdio de janeiro a maio. Esse projeto se tornou o "Seventh Star", disco do BLACK SABBATH com Glenn Hughes nos vocais e meu primeiro álbum. Essa é basicamente toda a história. Jeff tinha uma voz incrível, mas apenas não funcionou."
Jeff Fenholt se tornou uma figura famosa no meio cristão após sua conversão, a qual ele atribuía, como parte fundamental, à sua interpretação de Cristo na peça da Broadway. Com problemas de dependência e alcoolismo, o papel fez com que ele visse o mundo a partir de uma perspectiva diferente e sua conversão, então, se tornou pública ao longo das apresentações. Quando foi convidado a participar dos trabalhos do BLACK SABBATH, sua conversão já havia acontecido, mas ela ainda não era uma parte significativa de sua vida pública. Logo após a saída do BLACK SABBATH, ele até tentou conciliar sua carreira no Rock e na pregação, o que foi se direcionando rapidamente para a religião. Ele passou a ser constantemente requisitado pela TBN (Trinity Broadcasting Network), uma das maiores redes de rádio e televisão cristãs do mundo. Seu papel no musical e sua conversão foram muito explorados. Suas pregações acabaram por se tornar globais, com vários pontos em diferentes continentes, como a pregação na Rússia comunista, no fim da década de 1980, para aproximadamente 100 mil pessoas. Ao fim da década 1980 e ao longo da década 1990, suas apresentações, aproximações com pastores e pregações alcançavam milhões de cristãos pelo mundo. Gravou discos com temática cristã, que alcançaram discos de ouro e platina em vários países. É possível encontrar vários testemunhos religiosos na internet, principalmente no Youtube, em que o cantor fala sobre sua vida, sua conversão e sua forma de ver esse contexto. Aqui, ao final, se encontra um desses.
No livro "Never Say Die", escrito por Garry Sharpe-Young, alguns outros pontos sobre esse momento do BLACK SABBATH também aparecem. A obra nos revela que, em grande parte, houve tensões entre Fenholt e principalmente Nicholls, em razão do direcionamento do disco. Já convertido, as temáticas obscuras das letras não agradavam Fenholt, que tentava direcionar os trabalhos para outro lugar. O tecladista teria sido o primeiro a rejeitar a participação do vocalista no projeto, pelas dificuldades de trabalho e definição conceitual do que eles estavam fazendo. Ainda, Fenholt teria reclamado constantemente com Don Arden, então empresário, sobre os hábitos de Iommi que ele acreditava atrapalhar o desenvolvimento das gravações. Essas discussões teriam chegado a níveis bastante complicados, nas quais empresário e gravadora viam como insustentável a permanência de Jeff.
Vários bootlegs foram lançados ao longo das décadas, todas elas revelando demos daquilo que acabaram por se tornar as músicas do "Seventh Star", álbum gravado com Glenn Hughes nos vocais. Fenholt chegou a acusar a banda de não colocar seu nome nas referências das músicas, pois partes das melodias vocais, principalmente, seriam dele. A banda sempre discutiu pouco essas questões, já que muita coisa em relação aos vocais mudou com a entrada de um novo vocalista. É possível perceber que, mesmo com mudanças muito grandes nas letras e nas melodias vocais, muita coisa foi de fato aproveitada.
Para quem curte bastante essa época e as gravações da banda, pode ser interessante dar uma comparada e visualizar o que fizeram.
Demo de "Danger Zone", com letras e melodias vocais de Jeff Fenholt
Versão oficial do disco "Seventh Star", com Glenn Hughes nos vocais.
Demo de "Dark Side of Love", versão que posteriormente se tornou "No Stranger to Love"
Versão oficial do disco "Seventh Star", com Glenn Hughes nos vocais.
Demo de "Eye of the Storm", música que acabou sendo gravada como "Turn to Stone"
Versão oficial do disco "Seventh Star", com Glenn Hughes nos vocais.
Demo de "Star of India", que após modificações se tornou a faixa-título "Seventh Star"
Versão oficial do disco "Seventh Star", com Glenn Hughes nos vocais.
Testemunho de Jeff Fenholt
FONTE: Never Say Die, Garry Sharpe-Young
Iron Man: My Journey through Heaven and Hell with Black Sabbath, Tony Iommi
http://www.joelgausten.com/2016/01/seventh-star-eric-singer-remembers.html
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