The Doors e seu desastroso último show com Jim Morrison
Por André Garcia
Postado em 21 de julho de 2022
O The Doors surgiu em 1967 com seu álbum de estreia, auto intitulado, e no ano seguinte já era uma das principais bandas de rock dos Estados Unidos. Seu líder, o carismático e provocante vocalista Jim Morrison, se tornou um dos primeiros rockstars dos anos 60 e, como um ícaro moderno, chegou perto demais do sol — odiando aquilo que viu no espelho.
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A partir de 1969 a banda lançou os ótimos álbuns "Morrison Hotel" (1970) e "L. A. Woman" (1971). Mas seu vocalista destruía a si mesmo pouco a pouco pela frustração que logo se tornou depressão. Além do peso da fama e o excesso de bebida e drogas, ele sofria com a idolatria pelo rockstar Jim Morrison. Afinal de contas, proporcional a ela era o menosprezo por ele como aquilo que mais desejava ser: um poeta.
Em 1971 sua decadência era nítida. Como não havia internet, os fãs iam aos shows esperando ver aquele Dionísio de calça de couro dos pôsteres sobre o palco. Mas, ao invés daquilo, se deparavam com um irreconhecível vocalista inchado e barbudo, bêbado e totalmente desinteressado naquela coisa toda. Como as apresentações do The Doors se tornando cada vez piores, tanto para o público quanto para a banda, o fundo do poço foi aquela que seria a última com seu vocalista original.
Conforme publicado pela Far Out Magazine, após fazer parte das sessões de gravação de "L. A. Woman", a banda partiu para New Orleans para um show onde estrearia algumas de suas faixas. Jim Morrison entrou no palco já cambaleando, visivelmente bêbado, e após as primeiras músicas começou a esquecer as letras. Com o público insatisfeito, o vocalista tentou sem sucesso contar piadas, que mal faziam algum sentido.
Para piorar, a seguir ele começou a cantar "St. James Infirmary Blues" [uma canção dos anos 40 de Cab Calloway and His Orchestra] em todas as músicas que a banda tocava. "Eu podia ver o espírito de Jim deixar seu corpo", relembrou o tecladista Ray Manzarek em sua biografia, "mesmo embora ele ainda estivesse bem ali, parado."
Embriagado e perdido, Jim Morrison se jogou no chão e se recusou a levantar. Quando finalmente voltou a ficar de pé, o vocalista ficou apoiado no pedestal do microfone para não desabar, enquanto a banda começava a tocar "Light My Fire".
Quando parecia que a coisa não poderia piorar, Jim Morrison se sentou na bateria e parou de cantar. O baterista John Densmore literalmente o chutou de volta ao microfone, mas ao invés de voltar a cantar, ele quebrou o pedestal no chão. Ali chegava ao limite a frustração e o ódio do vocalista por aquilo que ele havia se tornado. Uma tentativa desesperada (e frustrada) de destruir sua imagem como única forma de se livrar da maldição que ela se tornou. Algo que se repetiria décadas depois com nomes como Kurt Cobain e Amy Whinehouse.
Como que justificando o ocorrido, em entrevista para a Circus Magazine ele falou:
"Eu acho que eu estava de saco cheio da imagem que foi criada a meu redor. Para a qual eu algumas vezes propositalmente — na maioria das vezes sem querer — contribuí. Aquilo era demais para eu suportar, então botei um fim naquilo em uma gloriosa noite. Acredito que, em resumo, eu mostrei para as pessoas na plateia que eles eram um bando de idiotas por estarem na plateia. O que eles estavam fazendo lá, para começo de conversa? A mensagem basicamente era que vocês não realmente estão aqui para ouvir um monte de músicas tocadas por bons músicos. Vocês estão aqui para outra coisa. Então por que não admitir isso e fazer algo a respeito?'"
Após terminar de gravar os arrepiantes vocais sussurrados de "Riders on the Storm", Jim Morrison partiu para a França. O retiro foi uma tentativa de se afastar de tudo para se recuperar, mental e fisicamente, enquanto a banda trabalhava num novo álbum, a ser finalizado em sua volta — o que, infelizmente, não aconteceu. Jim Morrison jamais retornou de Paris, onde foi encontrado morto aos 27 anos.
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