Fernanda Lira revela seu método de composição que deixou sua psicóloga com raiva
Por Gustavo Maiato
Postado em 07 de julho de 2023
O novo álbum da Crypta, "Shades of Sorrow", é bastante pessoal para Fernanda Lira. Em entrevista ao jornalista Gustavo Maiato, ela deu detalhes sobre isso.

"A capa está estritamente ligada ao conceito do disco, que é um álbum semiconceitual. Inicialmente, minha intenção era que fosse completamente conceitual, mas, por questões de tempo, não pude fazer da forma que eu gostaria, conectando uma música à outra. Assim, o álbum acabou sendo semi conceitual. Para explicar o conceito da capa, é preciso explicar um pouco o conceito do disco em si.

O sentido do disco é como uma jornada pela dor, explorando as diferentes nuances emocionais que experienciamos em momentos difíceis. Muitas vezes, acreditamos que a dor é uma coisa única, mas quando passamos por um período de sofrimento, descobrimos que existem várias nuances dessa dor. Por isso, o disco se chama "Shades of Sorrow" (Tons de Dor), representando diferentes nuances da tristeza.
Cada música representa um tipo diferente de dor, abordando temas como ansiedade, apatia, medo, isolamento, rejeição, solidão e raiva. A última faixa do álbum fala sobre superar um trauma. No entanto, quem já passou por um trauma sabe que não termina ali, e há consequências a serem enfrentadas. Essa faixa representa a continuação da jornada, o "pós-trauma".
Quando eu estava pensando no conceito do disco, veio à mente uma carta do tarot, o "Oito de Espadas". Essa carta está associada a processos mentais e fala muito sobre dor. Ela retrata a sensação de estar preso na dor, limitado por inseguranças, e incapaz de sair desse lugar. No entanto, a carta também diz que somos os únicos responsáveis por movimentar essa energia e nos libertarmos. Com base nisso, a capa do disco foi criada.
A capa representa o "Oito de Espadas" com algumas adaptações estéticas. Ao invés de oito espadas, foram utilizadas sete por questões visuais, mas a ideia original era ter oito espadas. A figura de vermelho na capa simboliza a parte sombria de nós mesmos, que geralmente fica oculta e sofre em silêncio. O vermelho representa a dor.
A figura não consegue se levantar por causa das espadas e das velas presentes. Se ela se levantar, o tecido pode pegar fogo. Isso cria uma tensão na capa, transmitindo a ideia de que não é possível sair dessa situação, mas as cordas não estão amarradas firmemente, mostrando que, em algum momento, é possível se libertar e seguir em frente, retirando as amarras da dor.
No videoclipe, há uma conexão direta com a capa. Ele retrata a cena de espetar as espadas na figura vermelha. Quando o pano é retirado, revela-se que somos nós mesmos, matando essa versão aprisionada pelo medo. Isso simboliza a libertação e a capacidade de viver nosso potencial pleno.
É importante ter letras que vão além da realidade e falar sobre os sentimentos das pessoas. Vivemos em uma sociedade doente e sofrendo, e muitas pessoas não estão abordando esses temas. Portanto, considero importante falar sobre essas questões. É possível que algumas pessoas achem que houve plágio ou semelhança entre o meu trabalho e o de outros artistas, mas isso não é verdade.
No geral, meu objetivo é trazer letras que escapem um pouco da realidade, mas que sejam capazes de transmitir os sentimentos das pessoas. Acredito que isso seja importante, especialmente em uma sociedade que está sofrendo tanto. O disco é completamente autobiográfico para mim.
Durante o processo de escrita das letras, fiz algo que deixou minha psicóloga muito brava. Na época, eu estava passando por um período muito difícil, com meu transtorno de ansiedade muito intenso, há alguns anos atrás. Peguei meu diário, que costumava escrever quando estava muito mal, e reli-o diariamente. Era algo muito pesado e eu ficava muito mal, chorava e continuava escrevendo. Algumas das frases presentes no disco são frases que estavam no meu diário, que eu apenas traduzi. Portanto, o nível de autobiografia desse disco é extremamente profundo para mim."
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