O álbum preferido de Raul Seixas, "um filho bastardo muito querido"
Por Bruce William
Postado em 01 de janeiro de 2024
Durante uma entrevista com Sônia Maia, publicada na edição de março de 1987 da revista Bizz, Raul Seixas fala sobre uma gravação onde ele, nas palavras dele, estava "esculhambando com Roberto Menescal e André Midani no estúdio", se referindo aos dois executivos da gravadora Philips. E no meio da fala, ele revela o seu disco preferido. "Eles queriam que eu gravasse um sucesso. E eles tinham me malhado primeiro, malharam mesmo. Depois de 'Gita', eu fiz o LP 'Novo Aeon', que o disco de que eu mais gosto. E este vendeu menos que 'Gita'. E, aqui no Brasil, você tem que matar um leão por dia. Se não matar, você está frito, já perdeu. E aí veio aquela história: 'Raul Seixas perdeu a cabeça', e coisas do tipo".

O canal Vinilteca, apresentado por Zé (José Ono Júnior) e Gui (Guilherme Colpani), lançou em 2018 um vídeo detalhado sobre o álbum, onde eles contextualizam como eram as coisas naquele ano de 1975, quando Raul Seixas lançou seu terceiro álbum, "um disco cheio de textos afiados, com uma mistura de sonoridades, e mais uma vez o Raul mostrando a grandiosidade estética e poética que só ele tinha".
Conforme Gui explica no vídeo: "A imagem do Raul Seixas que era vendida para todo mundo era de uma figura estranha, um cara 'doidão', místico, com o cabelo grande, barba, que usava capas e aquela coisa toda da Sociedade Alternativa. E isso estava começando a cansar muito Raul porque ele começou a perceber que a sua música estava ficando em segundo plano em relação à sua imagem. O grande responsável por essa tática de marketing agressiva e arrojada era o empresário dele, o Guilherme Araújo, que tinha cuidado da carreira inclusive de artistas do movimento tropicalista. Por causa disso, Raul Seixas decidiu romper com o empresário porque agora ele queria vender a sua música, se vender como músico e não mais aquela imagem estereotipada que tinham criado para ele".
Prossegue Gui: "Tanto que a capa desse disco veio muito sóbria, não fazia aquelas provocações que tinham na capa dos outros discos, e foi a última em que apareceu o símbolo da Sociedade Alternativa. Outra coisa que mudou também foram os temas que o Raul tocou nas letras. Ele deixou aquele teor político e a crítica social que já tinham trazido problemas para ele nos outros discos com a ditadura militar. Então ele já estava mais velhaco, mas esperto, a partir de agora ele passou a tocar em temas existenciais, filosóficos. Ele também tocava em problemas do cotidiano, mas sem focar no lado político".
Mais adiante, Zé comenta: "Quando o artista lança um disco que vende pra caramba, tipo 600 mil e um milhão de cópias, ele vai lançar o próximo, sempre rola uma insegurança, porque começa às pressões para que o cara venda aquele mesmo número ou então mais. E às vezes pode rolar aquela maldição, é você lança um disco super bom e depois o que vem em seguida flopa, não dá certo. E foi exatamente o que aconteceu com o disco 'Novo Aeon' do Raul Seixas. Ele vinha do 'Gita', que tinha vendido superbem, 600 mil cópias. Já o 'Novo Aeon' não passou das 50, 60 mil cópias".
E depois Zé conta ainda: "Existe uma história que quando Raul Seixas estava gravando 'A Panela do Diabo' junto com Marcelo Nova, eles fizeram um intervalo lá nas gravações. E Marcelo Nova pôs o 'Novo Aeon' pra tocar e Raul falou que esse disco era o preferido dele, de todos que ele tinha lançado. Apesar da frustração que rolou por ele não ter vendido bem, pra ele era o preferido, era como se aquele disco fosse ele um filho bastardo muito querido, né, que contribui muito para a obra dele"(...)"Depois de tanto arriscar no primeiro e no segundo disco, nesse terceiro ele vinha com mais certeza daquilo que ele queria fazer, ele mescla sonoridades ali como poucos artistas no Brasil sabiam fazer".
O vídeo completo do canal Vinilteca analisando em detalhes o álbum "O Novo Aeon" de Raul Seixas pode ser visto no player abaixo.
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