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Dos Ramones aos Cramps: A Reencarnação de Sheena

Por
Postado em 18 de junho de 2025

Quando Lux Interior e Poison Ivy deixaram Akron, Ohio, rumo a Nova York com o objetivo de formar uma banda, tinham uma missão clara: resgatar a energia e a empolgação originais do rock’n’roll - algo que, para eles, havia se perdido desde meados dos anos 1960.

O que não imaginavam eram as dificuldades que enfrentariam logo ao chegar à Big Apple. Poison Ivy relembra: "Tínhamos dinheiro suficiente para um hotel por dois dias e não conseguíamos encontrar um lugar para morar. Na terceira noite, dormimos no carro, num posto de caminhoneiros em Nova Jersey, e dissemos: ‘Se não acharmos um lugar amanhã, teremos que desistir e voltar para Ohio’. Naquele dia, encontramos nosso apartamento. Então nos mudamos e começamos a enfrentar dificuldades para comer. Mas tudo bem. Precisávamos estar lá."

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Foto: Epitaph
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Estabelecidos na cidade, deram início à busca por integrantes para formar o que logo se tornaria o The Cramps. Recrutar músicos foi tão difícil quanto achar onde tocar. A solução parcial veio pelas mãos de Peter Crowley, DJ e gerente do lendário Max's Kansas City, que os contratou como banda de abertura.

Após algumas apresentações ao lado do Suicide, surgiu a grande virada: abrir para os Ramones - na época, o maior nome do punk rock nova-iorquino. Poison Ivy comenta:

"Os Ramones realmente deram o pontapé inicial pra gente. Antes de tocarmos com eles, a gente quase não era conhecido - até tínhamos dificuldade pra conseguir uma vaga no CBGB. Aí os Ramones começaram a ir aos nossos shows - todas as bandas iam ver os shows umas das outras. Eles nos convidaram pra abrir para eles, e os fãs deles gostaram da gente. Diziam que abrir para os Ramones era como jogar cristãos aos leões. Mas foi incrível - esse foi o maior empurrão que a gente teve na vida. A partir daí, conseguimos tocar e ser contratados por conta própria, e tudo começou a andar."

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Foto: Divulgação
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Com o tempo, a relação entre as duas bandas se fortaleceu, baseada em respeito mútuo e amizade. Joey e Johnny Ramone tornaram-se próximos de Lux e Ivy. Impressionados com a versão dos Cramps para Surfin’ Bird, os Ramones chegaram a pedir permissão para gravar sua própria interpretação da música - retribuindo o gesto com conselhos e apoio ao longo dos anos.

Após inúmeras colaborações nos anos 1980 e 1990, e com o fim dos Ramones em agosto de 1996, o The Cramps resolveu prestar homenagem à banda que tanto os ajudou. Assim surgiu "Sheena’s in a Goth Gang", faixa do álbum "Big Beat From Badsville" (1997), uma espécie de continuação da saga iniciada com "Judy Is a Punk", de 1976. Lux conta:

"Essa música em particular surgiu da nossa convivência com Johnny Ramone. Estávamos assistindo ao noticiário na TV e não tinha nada muito escandaloso acontecendo naquela semana, até que alguns jovens entraram num cemitério abandonado perto da nossa casa em Los Angeles, desenterraram um cadáver e colocaram um cigarro na boca dele. Eram apenas uns garotos góticos, mas de repente começaram a fazer uma grande reportagem sobre gangues góticas em Los Angeles. Passaram a retratar os góticos como verdadeiros criminosos, como uma espécie de 'Laranja Mecânica', assustando os adultos e fazendo parecer que havia bandos de góticos violentos vagando pela cidade."

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Foi assim que Sheena, ícone do punk rock dos anos 70, ganhou nova vida como símbolo eterno do rockabilly voodoo, marca registrada dos Cramps - e mais um elo na história visceral que uniu duas das bandas mais influentes do rock underground.

Fonte: "Journey to the Centre of The Cramps", de Dick Porter

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Sobre Diego Carreiro

Licenciado em Letras e doutor em Teoria da Literatura, ouve de tudo e gosta de pouco - mas, do que gosta, gosta tanto que acaba escrevendo a respeito.
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