O dia em que conheci Mike Stern - Um ícone da guitarra
Por Edsão
Postado em 17 de agosto de 2025
Hoje vou lhes contar o inusitado dia em que conheci, e passei a tarde, com um dos maiores guitarristas de todos os tempos: o americano, ganhador de vários prêmios pela Guitar Player, Down Beat Magazine, e indicado diversas vezes ao Grammy Awards, Mike Stern.
Para os especialistas e amantes das seis cordas, ele é considerado um ícone da guitarra jazz fusion, com uma pegada Bebop/Rocker, furiosa, e que ficou famoso ao integrar a lendária banda responsável pelo retorno de Miles Davis ao mainstream musical.
Em 1980, o Miles estava aposentado, recluso, deprimido, e entregue ao álcool e drogas. Ele foi "resgatado" pela lenda do baixo elétrico, e produtor, Marcus Miller, que recrutou Stern e o baterista, Al Foster, para integrar um novo grupo para o trompetista.

Juntos gravaram os álbuns: "Rubberband", "We Want Miles", "Star People", "The Man With The Horn", "Odds or Evens", e o resto é história.
No início dos anos 2000, tive o privilégio de trabalhar na Yamaha Musical do Brasil, que tinha em seu cast de endorsers, o Mike Stern. A empresa fabricava uma guitarra tipo modelo Fender Telecaster, especialmente para ele, chamada "Pacifica 1611 MS", que é vendida até hoje.
Eu atuava na Área Comercial e era responsável por atender às principais lojas de instrumentos musicais de São Paulo, que ficavam na Rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros, e também viajava pelo país, negociando cordas e baterias da marca.
Na época, o Stern veio ao Brasil para fazer um workshop na EM&T (Escola de Música e Tecnologia), então de propriedade do falecido, Wander Taffo, guitarrista da famosa banda de rock, dos anos oitenta, Rádio Táxi.
Como o pessoal de marketing da empresa estava em outro evento, meu diretor, o grande Kunimitsu Yamaguchi, solicitou que eu fosse buscá-lo no hotel e o levasse para o seminário em que ele iria ministrar.
Confesso que, a princípio, fiquei ressabiado, pois, pensei: "Velho, ferrou! Esse cara tocou com o Billy Cobham, Miles Davis, Jaco Pastorius, Deus e o Mundo, do Jazz, e deve ser uma puta "mala".
Rumei para o Hotel em que ele estava hospedado, na Rua Sena Madureira, na Vila Mariana.
Aguardei um pouco no lobby e, quando ele saiu do elevador, estava acompanhado de outro gigante: o contrabaixista californiano, Linconl Goines.
Para meu espanto, -que pensei que o veria vestido com terno e gravata-, o gajo estava mais para um Mick Jagger (inclusive, parecia fisicamente com ele), e trajava jeans, camiseta, e uma jaqueta de couro preta, toda surrada, num visual rock n’ roll total.
Me apresentei e já fui anunciando que meu inglês era "sofrível". Os gringos riram, e pediram que relaxasse.
Durante o trajeto, ao contrário de a conversa ser institucional (sobre a indústria musical e/ou endorsement), a prosa desbancou para a bagaceira, pois, do nada, ele começou a me questionar quais eram os puteiros mais bacanas do pedaço, lugares para beber caipirinha, e onde comer a melhor feijoada (comecei a gargalhar e, antes de lhe dar dicas), brinquei se ele era mesmo de Boston, Massachusetts, pois, pelo papo, parecia vindo de outro estado brasileiro.
Antes de chegarmos ao EM&T, eles me convidaram para ir, à noite, ao Bourbon Street, em Moema, para assistir, "na faixa", à uma apresentação deles, acompanhados por mais uma sumidade da percussão mundial: o batéra, Dennis Chambers! É mole?
Agradeci, mas declinei (e hoje me arrependo por não ter ido), mas naqueles tempos, estava estressado e com estafa pelas sucessivas viagens a negócios, e participação em muitos shows de artistas que utilizavam itens de nosso portfólio. Eu só queria saber de dormir.
Assim que colocamos os pés na escola, parecia que estava acompanhado de um pop star; pois, todos (sim, todos) professores locais vieram reverenciá-lo, e o olhavam como se estivessem frente a algum ser mítico ou alienígena. Foi engraçado.
Enfim, fomos para o auditório e pensei que ele faria várias exigências quanto a uso de amplificadores; mas, não; tirou o jaquetão, o jogou no chão do palco, plugou a guita no ampli que estava lá, e começou a esmerilhar sua Yamaha.
Fiz questão de ficar alguns minutos no workshop para ver caras como Faísca, Mozart Mello, e Pixinga, de joelhos e babando; hilário!
Bem, após testemunhar toda a simplicidade e despojo de um dos maiores músicos da história, -desde que nos conhecemos até nos congratularmos na despedida, com um aperto de mãos-, aprendi que a moral desta estória, é: jamais devemos prejulgar alguém de imodesto; mesmo que ele tenha um currículo ímpar, em sua área, e que nos leve a denotar prematuramente, este tipo de julgamento.
Fui embora com a lição assimilada, e voltei para as Vendas.
Grande Abraço!
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