O álbum do Rush que Geddy Lee disse ser "impossível de gostar"
Por Bruce William
Postado em 28 de outubro de 2025
No fim dos anos 70 e começo dos 80, o Rush vinha numa sequência em que quase tudo dava certo. O trio testava formatos, esticava ideias e, aos poucos, cruzava fronteiras maiores de público. "Permanent Waves" abriu portas, enquanto "Moving Pictures" consolidou um padrão alto demais para qualquer banda sustentar sem pagar um preço interno.
A virada seguinte cobrou a conta. Os teclados ganharam espaço, o clima no estúdio pesou e a sensação de caminhar numa corda bamba apareceu. Era um período em que o grupo queria manter a identidade e, ao mesmo tempo, conversar com sons novos, uma equação que raramente fecha sem atrito.

É nesse ponto que entra o disco que Geddy Lee não conseguiu abraçar. Falando sobre o processo para a edição de dezembro de 1993 da Bass Player Magazine (via Far Out), ele explicou: "Eu não fiquei satisfeito com 'Grace Under Pressure'. Era uma situação sem saída, porque aquele álbum foi extremamente difícil de fazer. Passamos por um turbilhão e muita pressão, e não acho que eu conseguiria gostar dele dadas as circunstâncias. Assim que o disco ficou pronto, eu quis me afastar - e raramente o ouvi desde então."
A fala explica muita coisa que o ouvinte percebe na primeira passada: camadas de sintetizadores por cima de bases tensas, letras mais pesadas e um desenho sonoro que pede outros caminhos para a guitarra. Ao mesmo tempo, quando as peças se encaixam, aparecem resultados de alta voltagem emocional - "Distant Early Warning" com a urgência certa, "Afterimage" como tributo que corta fundo e "Red Sector A" como retrato de sofrimento visto pela lente da família de quem viveu aquilo.
O disco nasceu sob essa ambivalência: musicalmente ambicioso, emocionalmente denso e logisticamente desgastante. Para quem estava lá dentro, a lembrança principal foi a pressão. Para quem escuta de fora, fica a impressão de um capítulo em que o trio desloca pesos entre instrumentos e muda a ênfase sem perder a mão de composição.
Dá para entender por que Geddy criou distância do material logo após a mixagem. Não é sobre execução ou performance, é sobre a lembrança do processo. Tem álbum que a banda guarda como festa; "Grace Under Pressure" ficou registrado como maratona. E maratona, mesmo vencida, nem sempre dá vontade de reviver.
O curioso é que, olhando em perspectiva, justamente o disco "impossível de gostar" para o baixista acabou virando porta de entrada para quem descobre o lado mais sombrio e contemporâneo do trio. Talvez porque, ao trocar brilho por tensão, ele revela outra face do grupo - aquela que prefere encarar o nó em vez de florear o contorno.
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