Os apelidos ofensivos que Ezequiel Neves deu ao rock progressivo dos anos 1980
Por Gustavo Maiato
Postado em 24 de outubro de 2025
Nos anos 1980, enquanto o rock brasileiro ganhava corpo com nomes como Legião Urbana e Paralamas do Sucesso, o cenário musical fervilhava de ideias, disputas estéticas e provocações. E entre os personagens mais espirituosos - e ácidos - desse período, estava o jornalista e produtor Ezequiel Neves, figura lendária do jornalismo musical que não poupava críticas ao que considerava "excessos" do rock progressivo.
Quem lembra bem disso é Humberto Barros, tecladista que participou de alguns dos projetos mais importantes do rock carioca, como Kid Abelha e Heróis da Resistência. Em entrevista ao canal Corredor 5 Humberto contou que foi por influência de um amigo jornalista que passou a acompanhar de perto os textos de nomes como Tárik de Souza, Ana Maria Bahiana e o próprio Ezequiel Neves - este último, conhecido tanto pelo talento quanto pela ironia mordaz.

"Ler o Ezequiel era demais", recorda Humberto. "Ele odiava o rock progressivo, odiava mesmo. Chamava aqueles teclados empilhados, tipo os do Rick Wakeman, de 'penteadeira de bicha'. E o estilo inteiro ele apelidou de 'glacê gelado'."
Ezequiel Neves e a crítica ao rock progressivo
Os termos, provocativos e hoje impensáveis em qualquer redação, ilustram bem o humor afiado e o gosto pela polêmica que marcaram Ezequiel. O jornalista, que mais tarde se tornaria produtor e parceiro criativo de Cazuza, via o rock progressivo como o oposto da energia crua e despretensiosa que ele valorizava no rock.
O tecladista, no entanto, admite que pensava diferente do crítico. "Eu gostava de rock progressivo. Sempre curti essa coisa mais europeia, especialmente a música inglesa. Enquanto muita gente ouvia as bandas americanas, eu me encantava mais com a Inglaterra, com os timbres, as harmonias, os arranjos".
Humberto também lembrou que seu interesse por música foi fortemente moldado pela leitura de revistas especializadas, como SomTrês. "Foi ali que comecei a entender o papel dos jornalistas na música. Eu lia os caras, comparava estilos, e percebia como cada um tinha uma maneira diferente de escrever sobre o mesmo som", explicou.
A conversa ainda revelou curiosidades sobre o início de sua trajetória musical. "Meu primeiro instrumento foi um órgão Hammond, não um sintetizador. O primeiro que comprei veio de um anúncio do jornal Balcão", contou. "Naquela época era assim: você ligava pra pessoa, combinava e levava o dinheiro vivo. Era um mundo mais ingênuo - perigoso, mas ingênuo."
Hoje, olhando para trás, Humberto Barros enxerga com carinho aquele período de descobertas e transgressões. "Os anos 1980 foram uma época de inocência criativa. Todo mundo queria inventar algo novo, e até as críticas mais ferinas, como as do Ezequiel, acabavam inspirando a gente de algum jeito."
Confira a entrevista completa abaixo.
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