A banda de rock gospel brasileira que furou a bolha e foi cancelada após fake news
Por Gustavo Maiato
Postado em 18 de novembro de 2025
O rock cristão brasileiro viveu seu auge nos anos 1990 e 2000, período em que a música gospel caminhava para grandes audiências e conquistava espaços inéditos na TV, no rádio e nas gravadoras. Embora a maioria dos artistas estivesse restrita ao mercado religioso, algumas bandas ensaiavam diálogos com o público secular - algo ainda visto com resistência em boa parte das comunidades evangélicas. No meio desse cenário, uma banda em particular rompeu fronteiras, ganhou destaque nacional e, ironicamente, enfrentou um dos primeiros "cancelamentos" do gospel moderno.
Catedral - Mais Novidades
Durante entrevista concedida ao Corredor 5, Maurício Soares - gestor da Igreja Novos Começos e CEO da editora Hub Target - relembrou sua passagem pela MK Music e explicou como o grupo Catedral se tornou um fenômeno singular. Segundo ele, a banda foi a primeira a realizar um verdadeiro crossover entre o gospel e o rock alternativo brasileiro. "Eles falavam de amor, respeito, cotidiano, política… não era só 'Jesus, luz e cruz'. Era diferente, e isso abriu portas", contou.
A proposta estética do grupo chamou atenção até de ouvintes que não frequentavam igrejas, o que ampliou sua base de fãs e despertou interesse de gravadoras do mercado secular. "Os caras vendiam 300, 400 mil discos. Uma major viu aquilo e falou: 'Eu quero esse artista aqui'", afirmou Maurício, lembrando do momento em que a banda deixou a MK e assinou com uma gravadora mainstream. O movimento, porém, gerou forte reação dentro do público religioso, que via a migração como uma espécie de "traição".
Nesse clima de tensão, surgiram os boatos que alimentaram um dos episódios mais emblemáticos do gospel brasileiro: o cancelamento do Catedral baseado em uma fake news persistente. Maurício recorda que, na época, espalhou-se a história de que a banda teria ido ao Programa do Jô e "negado Jesus três vezes", referência direta ao episódio bíblico envolvendo o apóstolo Pedro. "E isso correu o Brasil inteiro. Não existia rede social, então o boato demorava para nascer… mas demorava muito mais para morrer", destacou.
Anos depois, já trabalhando com o grupo, Maurício decidiu investigar a história. "Perguntei diretamente para eles e me disseram: 'Nunca fomos'. Para confirmar, mandei mensagem para o Cedoc da Globo. E aí veio a resposta: nunca estiveram no programa". Mesmo assim, o mito seguiu vivo na memória de muitos fiéis. Segundo ele, até líderes importantes juravam ter "visto" a entrevista inexistente, mostrando a força da desinformação muito antes da era das fake news difundidas em massa.
Apesar das turbulências, o legado do Catedral segue marcado por ousadia artística e pela capacidade de dialogar com diferentes públicos. O episódio também expõe como o mercado gospel, ainda em formação naquela época, lidava com mudanças e pressões culturais. Como concluiu Maurício Soares na entrevista, a banda "se tornou uma referência - tanto pela música quanto pelo impacto que provocou dentro e fora do segmento".
Confira a entrevista completa abaixo.
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