A "guerra musical" dentro do Guns N' Roses que fez a banda se desmanchar
Por Bruce William
Postado em 14 de novembro de 2025
Quando o Guns N' Roses explodiu com "Appetite For Destruction', em 1987, muita gente apostava que a banda não duraria nem alguns anos, seja pela vida desregrada, seja pelo clima de caos em volta do grupo. O disco parecia um diário de rua, cheio de excessos e violência, numa Los Angeles dominada por bandas de glam metal bem mais comportadas. De repente, aqueles cinco caras viraram referência para qualquer moleque que quisesse soar mais perigoso do que Ratt, Warrant e companhia.
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Depois do EP "GN'R Lies", ainda dava a impressão de que todo mundo estava na mesma página: um grupo barulhento, sujo e, ao mesmo tempo, capaz de emplacar baladas. Mas Axl Rose começou a ver ali um limite. Ele não queria ser lembrado apenas como o cara de um disco de estreia "perfeito" e de umas poucas músicas semi acústicas. Em entrevistas, deixou isso bem claro: "Eu só quero enterrar o 'Appetite'. Não quero ter que viver a minha vida através daquele disco. Então, em vez de fazer só algumas músicas que a gente acha divertidas, estamos passando por tudo com um pente-fino", disse, em fala resgatada pela Far Out.

A partir daí, a visão dele para o Guns ficou bem diferente da dos colegas. Rose queria uma banda de arena ainda mais exagerada, com pianos, orquestrações e músicas longas no estilo das baladas de Elton John, algo que ficaria evidente em faixas como "November Rain" na fase "Use Your Illusion". Slash e Duff McKagan, por outro lado, preferiam manter o foco nos riffs e na pegada mais "das ruas" que tinham ajudado a construir desde os tempos de bar. O que era para ser "apenas" um segundo álbum virou uma disputa sobre o próprio rumo sonoro do grupo.
Com o álbum de estúdio em andamento, essa diferença virou briga aberta. Slash descreveu mais tarde o clima daqueles anos como uma espécie de guerra fria musical dentro do Guns: "O Duff foi o primeiro de nós que não queria mais fazer aquilo, e a coisa toda virou um problema essencial para a banda, porque nós, músicos já experimentados, precisávamos ser mudados só por causa de uma 'autocastração estilística'. Em um certo momento, virou simplesmente uma guerra, porque o Axl já não gostava mais de nada que viesse de nós, os outros", o que mostra que a discussão já não era só sobre arranjos, mas sim sobre quem mandava na identidade do grupo.
Enquanto isso, a maratona de shows e a rotina de excessos cobravam um preço alto. Integrantes entravam e saíam de clínicas, e histórias de overdose viraram parte do dia a dia do Guns. Em 1992, por exemplo, Slash sofreu um colapso após uma mistura de drogas e chegou a ter parada cardíaca por alguns minutos num hotel, antes de ser reanimado. Não era apenas uma banda lidando com divergências criativas: era um grupo tentando continuar existindo no meio de crises pessoais pesadas.
Quando "The Spaghetti Incident?" saiu, em 1993, o cenário já era outro. Em vez de um novo capítulo autoral, a banda entregou um álbum só de covers de punk e hard rock, sem sequer fazer turnê para promovê-lo. Hoje, o disco é lembrado como o último registro de estúdio da formação clássica, com Slash, Duff McKagan e Matt Sorum ao lado de Axl Rose, além da participação de Gilby Clarke. O próprio fato de o "encerramento" daquela fase vir em forma de versões de outras bandas diz muito sobre o desgaste interno que eles viviam.
Nos anos seguintes, a "guerra musical" virou ruptura definitiva. Entre 1996 e 1997, Slash, Duff e Sorum foram saindo um a um, deixando Axl com o controle do nome Guns N' Roses e a tarefa de seguir em frente com outros músicos, o que acabaria resultando em "Chinese Democracy", lançado apenas em 2008. Do ponto de vista jurídico, o Guns continuou existindo; mas a gangue que gravou "Appetite" e sobreviveu à maratona de "Use Your Illusion" deixou de ser a mesma.
O fato é que essa "guerra musical" não foi só uma disputa entre piano e riffs distorcidos. Ela marcou o momento em que o Guns N' Roses deixou de concordar sobre que banda queria ser: um grupo de hard rock cru que dominava arenas à base de guitarras e caos, ou um projeto grandioso guiado quase inteiramente pela visão de Axl Rose. Quando esse conflito deixou de caber dentro do estúdio, o que quebrou não foi só um alinhamento estético - foi a própria formação que tornou o Guns N' Roses uma das bandas mais comentadas do fim dos anos 1980 e começo dos anos 1990.
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