Quando o Sepultura foi associado a atentado em escola britânica
Por João Renato Alves
Postado em 26 de abril de 2026
Na manhã de 28 de março de 1994, um homem mascarado entrou em uma sala de aula do segundo andar da Escola Hall Garth, em Middlesbrough, Inglaterra e obrigou um professor de matemática a sair, apontando uma arma para a cabeça de um menino. Em seguida, ordenou que os demais alunos se ajoelhassem e fechassem os olhos, sacou uma faca e começou a atacar as crianças, dizendo: "Eles me mataram, agora mataram vocês".
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Nikki Conroy, de 12 anos, morreu quase instantaneamente devido aos múltiplos ferimentos de faca, enquanto duas de suas colegas, Michelle Reeve, de 13 anos, e Emma Winter, de 12, ficaram gravemente feridas antes que o agressor fosse dominado por dois professores. Em um bilhete encontrado na cena do crime, o assassino expressou seu desejo de aterrorizar a escola, escrevendo: "Imagino a morte de jovens donzelas assassinadas em uma sala repleta de carteiras".
Dois dias depois, vários tabloides britânicos publicaram perfis do agressor, Stephen Wilkinson, de 29 anos. O jornal The Sun o descreveu, conforme resgate da revista Metal Hammer, como um "skinhead solitário que vivia para músicas de heavy metal com temática de terror e computadores".
"O grupo favorito do skinhead é a banda brasileira Sepultura, cujos títulos de músicas arrepiantes incluem 'Murder', 'Slaves of Pain', 'Morbid Visions' e 'Screams Behind The Shadows'", relatou o jornalista Guy Patrick. "Alguns fãs de sua música 'Death Metal' - nomeada em referência à obsessão com horror e violência - se autodenominam 'Tropas da Perdição' – menção à canção 'Troops of Doom'."
A matéria também citou trechos da música "Screams Behind The Shadows", do álbum Schizophrenia - "Sinto prazer em ver sua agonia / Ela explodiu meu subconsciente insano / Da vida, não tirei nada além de insultos / Da morte, obtive prazer irracional" - como "prova" da "música entorpecedora" da banda.
Nas semanas seguintes, a revista Kerrang! foi inundada com cartas de fãs de metal, sensíveis ao horror do ataque, mas furiosos com a forma como a banda foi usada como bode expiatório pelos tabloides na cobertura da tragédia.
"Sei que este é um assunto delicado", escreveu M Peel, de Aylesbury, "mas é flagrantemente óbvio que a culpa está sendo atribuída ao heavy metal e o nome do Sepultura está sendo difamado. A culpa não é da sua 'música entorpecedora', mas sim da sociedade em que vivemos."
Na edição de 7 de maio de 1994 da mesma Kerrang!, Max Cavalera compartilhou seus próprios sentimentos sobre como a banda estava sendo demonizada. "Eles nos culpam como músicos porque é mais fácil do que culpar a família ou a sociedade. Para muita gente, nossos discos são uma fuga de toda a merda em suas vidas. Um cara surta e mata uma criança pequena. Provavelmente porque sua família nunca falou com ele, a vizinhança inteira nunca ligou para ele. Ele é um cara solitário e perturbado... Não teve nada a ver com música."
Questionado se sentia que suas letras poderiam "desencadear reações em indivíduos desequilibrados", Cavalera respondeu: "Não. As pessoas sempre me perguntam por que eu não suavizo um pouco minhas letras. Tento explicar que os temas que abordo e sobre os quais escrevo são pesados. Consigo escrever sobre eles com mais honestidade por causa de como cresci no Brasil. Comecei cedo a fazer muita m*rda. Isso bagunçou minha cabeça... mas consegui sobreviver através da música. É fácil para eles me chamarem de louco ou violento por causa do trabalho que faço. Por que me julgar se eles não entendem nada sobre mim?"
Gloria, esposa e empresária de Max, também participou da entrevista. "Para nós, foi realmente horrível, especialmente por termos filhos. Mas se alguém me ligasse e dissesse que isso aconteceu com um dos meus filhos, a última coisa em que eu pensaria seria que tipo de música o cara ouve."
Em dezembro de 1995, Stephen Wilkinson, diagnosticado com esquizofrenia paranoide, foi internado no Hospital Ashworth, em Merseyside, onde permaneceu pelo resto da vida.
O júri, em seu julgamento no Tribunal da Coroa de Leeds, foi instruído pelo juiz a proferir um veredicto de culpado por homicídio culposo com base em responsabilidade diminuída, após quatro psiquiatras forenses testemunharem que Wilkinson sofria de grave doença mental.
Anos depois, em 2014, o jornal Northern Echo publicou uma reportagem sobre a tragédia, entrevistando alguns colegas de classe de Nikki Conroy sobre suas lembranças daquele dia e como isso os afetou. Uma das jovens que falou com o jornal era então enfermeira forense, que havia se reconciliado com o que acontecera em sua escola vinte anos antes e ofereceu uma perspectiva empática.
"Durante anos, lutei para entender como ele pôde fazer isso, mas agora vejo casos de esquizofrenia diariamente e aceito que ele não recebeu os cuidados necessários e passou despercebido. As pessoas terão dificuldade em entender, mas não o culpo pelo que passamos. Aceito que ele estava doente e questiono por que permitiram que ele ficasse tão mal a ponto de cometer um crime como esse."
Ela ainda fez questão de esclarecer que compreender não significa esquecer o ocorrido ou agir como se não tivesse acontecido. "Não sinto pena dele, mas acho que foi negligenciado e acredito que o incidente poderia ter sido evitado se tivesse recebido os cuidados adequados. Se este incidente pudesse trazer algo positivo, gostaria que pudesse aumentar a conscientização sobre a esquizofrenia, pois isso poderia ter ajudado tanto a ele quanto a nós, enquanto lutávamos para entender o que aconteceu naquele dia."
Naquele mesmo ano, o Sepultura passaria pela Inglaterra como uma das atrações do Monsters of Rock em Donington. A banda promovia "Chaos A.D." (1993), seu quinto e mais bem-sucedido álbum de estúdio. O trabalho faturou disco de ouro no Reino Unido, Estados Unidos e Brasil, vendendo mais de 2 milhões de cópias em todo o planeta.
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