O guitarrista que Keith Richards copiou na cara dura em disco clássico dos Stones
Por Bruce William
Postado em 19 de abril de 2026
Os Rolling Stones chegaram a "Let It Bleed" em 1969 cercados por um nível de tensão que, em qualquer banda menos teimosa, talvez tivesse travado tudo. O disco saiu no mesmo ano em que Brian Jones foi afastado do grupo e morreu poucas semanas depois, enquanto Mick Taylor começava a aparecer como substituto. No meio disso, ainda havia brigas, relações pessoais emboladas e sessões de gravação que já não funcionavam como antes.
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Brian Jones, que nos primeiros anos tinha sido uma peça central no som dos Stones, estava cada vez mais distante da banda. Seus problemas pessoais e o uso de drogas afetavam diretamente sua participação nas gravações. Segundo o relato retomado pela Far Out, a situação chegou a um ponto em que ele era mantido longe das sessões principais, ou colocado em outro ambiente para não atrapalhar o andamento do trabalho.
A relação dele com Keith Richards também tinha se deteriorado. Richards estava com Anita Pallenberg, que havia sido companheira de Jones, e a convivência entre os dois guitarristas já não tinha mais aquele jogo musical que marcou a fase anterior dos Rolling Stones. Se antes eles dividiam e entrelaçavam partes de guitarra, agora a banda parecia funcionar mais por sobrevivência do que por química.
Enquanto isso, Mick Jagger também estava envolvido em outro projeto: o filme Performance. A produção aumentou ainda mais o clima estranho em torno do grupo, tanto pelas histórias envolvendo Jagger e Pallenberg quanto pela presença de Jack Nitzsche, chamado para trabalhar na trilha sonora do longa. E foi justamente por esse caminho lateral que Keith acabou encontrando alguém que teria impacto direto em sua forma de tocar.
Ry Cooder entrou nesse cenário como uma espécie de ponto de apoio musical. Ele era um guitarrista profundamente ligado ao blues, ao country e a formas tradicionais da música americana, além de dominar afinações e caminhos que interessavam muito a Richards naquele momento. Em meio ao desgaste com os próprios companheiros de banda, Keith encontrou em Cooder uma fonte nova de informação, técnica e inspiração.
O contato entre os dois apareceu nas sessões de "Let It Bleed", inclusive em trabalhos ligados a "Love In Vain", releitura de Robert Johnson que ganhou tratamento dos Stones no álbum. Cooder não era apenas mais um músico por perto. Para Richards, ele representava uma porta aberta para afinações diferentes, texturas mais cruas e uma maneira de tocar que se encaixava no momento em que os Stones estavam se aproximando ainda mais das raízes do blues e do country.
O próprio Keith Richards não negou a história quando falou sobre o quanto absorveu daquele encontro. "Tirei de Ry Cooder tudo o que ele tinha. A afinação dele, a porra toda. Eu o copiei", afirmou. A frase tem aquele jeito típico de Keith: meio brutal, meio bem-humorado, mas bastante clara sobre o tamanho da influência.
A partir dali, a guitarra de Richards passou a carregar ainda mais esse gosto por afinações abertas, riffs secos e uma forma de preencher o som sem depender de excesso. É claro que ele já tinha uma identidade própria antes disso, mas a convivência com Cooder ajudou a reforçar elementos que ficariam muito associados ao seu estilo nos anos seguintes, especialmente na maneira como ele transformava simplicidade em assinatura.
"Let It Bleed" acabou reunindo músicas como "Gimme Shelter", "You Can't Always Get What You Want" e "Midnight Rambler", mesmo nascendo em um ambiente quase implodido. A entrada de Mick Taylor, a saída de Brian Jones e a presença de figuras como Ry Cooder fazem do álbum uma espécie de retrato de transição dos Stones. O curioso é que, no meio da bagunça, Keith Richards encontrou justamente em alguém de fora da banda uma das chaves para seguir em frente. Às vezes, o roubo é tão assumido que vira quase agradecimento.
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