O disco dos Stones que dividiu os fãs e hoje é visto de outro jeito
Por Bruce William
Postado em 29 de abril de 2026
Há discos dos Rolling Stones que entram fácil em qualquer conversa sobre os maiores da história do rock. "Beggars Banquet", "Let It Bleed", "Sticky Fingers" e "Exile on Main St". costumam aparecer quase sem discussão. Já "Black and Blue", lançado em 1976, veio de um jeito bem diferente: cercado por dúvidas, mudanças na formação e a sensação de que a banda estava tentando se reencontrar enquanto o trem seguia andando.
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Conforme relata a Ultimate Classic Rock, na metade dos anos 70, os Stones continuavam gigantes do ponto de vista comercial. Os discos vendiam, as turnês lotavam e o nome da banda seguia acima de quase todo mundo. Só que, por trás disso, a situação era menos sólida do que parecia. Keith Richards atravessava uma fase pesada, a química interna já não era tão estável, e a saída de Mick Taylor no fim de 1974 bagunçou ainda mais o quadro.
Foi nesse contexto que "Black and Blue" começou a nascer. As gravações passaram por Munique, Holanda e Montreux, avançando aos pedaços, enquanto a banda também tentava decidir quem seria o novo guitarrista. Nomes como Jeff Beck, Peter Frampton e Steve Marriott chegaram a circular, até que Ronnie Wood acabou entrando de vez. Curiosamente, mesmo aparecendo como integrante oficial na contracapa, ele tocou guitarra em apenas três faixas do álbum.
O resultado não era exatamente o que parte do público esperava. Em vez de um disco puxado por riffs secos e rock and roll mais imediato, como em boa parte da fase anterior, "Black and Blue" trouxe uma mistura maior de funk, soul, reggae, jazz e grooves mais arrastados. Para alguns ouvintes, parecia um desvio interessante. Para outros, soava como uma banda sem direção muito clara.
A recepção crítica da época mostrou bem isso. Houve quem visse o álbum como uma obra dispersa, mais interessada em clima do que em canções realmente fortes. Lester Bangs, por exemplo, resumiu sua impressão de forma dura ao escrever na Creem: "Este é o primeiro álbum sem sentido dos Rolling Stones." A frase pegou e ajudou a consolidar a imagem de Black and Blue como um trabalho menor dentro da discografia da banda.
Mesmo assim, o disco não saiu sem deixar marcas. "Fool to Cry" virou um dos momentos mais conhecidos do álbum, com um lado mais soul e sentimental que não era exatamente o cartão de visitas clássico dos Stones. "Hot Stuff", por sua vez, mergulhava numa pegada mais funk, mostrando uma banda menos preocupada em repetir fórmulas antigas e mais disposta a circular por terrenos que já rondavam sua música havia algum tempo, mas agora apareciam com mais destaque.
Também havia músicos importantes ajudando a desenhar esse som, como Billy Preston, Nicky Hopkins, Wayne Perkins e Harvey Mandel. Tudo isso reforça a sensação de que Black and Blue é um disco de transição: não apenas entre um guitarrista e outro, mas entre uma fase mais mítica da banda e uma etapa em que os Stones precisavam provar que ainda tinham assunto depois de já terem conquistado quase tudo.
Do ponto de vista comercial, o álbum foi tudo menos fracasso. Chegou ao primeiro lugar e ficou quatro semanas no topo, além de receber disco de platina. Isso não impediu que muitos fãs torcessem o nariz, mas mostra que o nome Rolling Stones ainda carregava peso suficiente para sustentar até um disco recebido com desconfiança. Dois anos depois, "Some Girls" ajudaria a recolocar a banda em trilhos mais celebrados.
Talvez por isso "Black and Blue" seja mais interessante hoje do que pareceu para muita gente em 1976. Ele continua longe de ser unanimidade, e dificilmente entra no mesmo altar dos grandes clássicos do grupo. Mas também não soa como simples tropeço descartável. É um disco irregular, de fato, mas cheio de pistas sobre uma banda tentando sobreviver à própria lenda. E, para os Stones, sobreviver quase sempre foi parte essencial do espetáculo.
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