Dez músicas clássicas de rock que envelheceram muito mal pelo sexismo da letra
Por Bruce William
Postado em 29 de abril de 2026
O rock sempre viveu cercado por pais assustados, programas de TV alarmistas e gente convencida de que uma guitarra distorcida era suficiente para corromper a juventude. Em muitos casos, a preocupação era exagerada, moralista ou simplesmente ridícula. Só que, olhando para algumas letras com a distância dos anos, também fica difícil fingir que todo mundo estava reclamando à toa.
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A Far Out publicou uma lista com dez músicas clássicas de rock consideradas muito sexistas, reunindo casos de épocas bem diferentes. O recorte vai dos anos 60 ao rock alternativo dos anos 90, passando pelo hard rock e pelo pop rock. A questão não é dizer que as músicas deixam de existir, nem apagar sua importância histórica, mas observar como certas letras carregam visões sobre mulheres, relações e poder que hoje soam bem mais desconfortáveis.
Entre os exemplos mais antigos está "You Can't Do That", dos Beatles. A música apareceu em 1964, na trilha de "A Hard Day's Night", mas traz John Lennon assumindo um personagem ciumento e possessivo, incomodado porque a mulher falou com outro homem. A Far Out lembra que Lennon tratou de temas parecidos em outras fases, e que sua própria vida pessoal tinha episódios que ele mais tarde reconheceria como problemáticos.
Os Rolling Stones também aparecem com "Under My Thumb", uma das músicas mais lembradas quando se fala de letras machistas no rock clássico. Mick Jagger canta sobre uma mulher que estaria sob seu controle, em uma narrativa de domínio dentro da relação. A sonoridade da faixa continua marcada pelo groove da banda, mas a letra, vista hoje, deixa pouco espaço para grandes malabarismos interpretativos.
Outro caso citado é "Hey Joe", que Jimi Hendrix transformou em um de seus primeiros grandes registros com o Experience. A música não nasceu com ele, mas sua versão ficou entre as mais famosas. A letra acompanha um homem que mata a companheira depois de vê-la com outro. Dentro da tradição do blues e de baladas antigas, histórias violentas não eram raras, mas a permanência da canção no repertório popular torna o desconforto mais evidente quando se presta atenção ao enredo.
A Far Out também cita "Black Licorice", do Grand Funk Railroad. A música aparece como um caso em que o problema passa por estereótipos raciais e sexuais ao mesmo tempo, já que a letra fala de mulheres negras usando imagens que hoje soam bastante caricatas. A banda vinha de uma fase popular com "We're An American Band", mas essa faixa ficou como um daqueles exemplos em que a tentativa de soar provocativa acaba revelando mais sobre os clichês da época do que sobre qualquer rebeldia real.
A lista também inclui "A Man Needs a Maid", de Neil Young, faixa de "Harvest". A música tem arranjo grandioso, piano e cordas, mas parte de uma ideia que hoje soa, no mínimo, esquisita: o homem que precisa de uma empregada para cuidar de sua vida doméstica. Pode haver fragilidade e solidão por trás da composição, mas a escolha das palavras não ajudou muito a envelhecer melhor.
Nos anos 80, a Far Out lembra "Every Breath You Take", do The Police. Durante décadas, muita gente tratou a faixa como uma canção romântica, inclusive em casamentos. Só que Sting já afirmou em outras ocasiões que a letra tem um lado sombrio, ligado a vigilância e obsessão. Quando a melodia suave é deixada de lado por um instante, o narrador parece menos apaixonado e mais incapaz de aceitar que alguém saiu de sua vida.
O Guns N' Roses entrou com "It's So Easy", de "Appetite for Destruction". A faixa carrega a crueza de Sunset Strip, com Axl Rose narrando uma vida de excessos, álcool, arrogância e relações tratadas de forma brutal. A Far Out destaca especialmente a maneira como as mulheres aparecem na letra, praticamente como acessórios sexuais dentro daquele ambiente de autodestruição e pose de perigo.
A lista também passa por nomes menos óbvios em um recorte de "classic rock", como Sublime, Paramore e Weezer. Em "Wrong Way", do Sublime, a narrativa envolve uma garota explorada sexualmente desde muito jovem, com um tom que hoje soa ainda mais problemático. Em "Misery Business", do Paramore, Hayley Williams atacava outra mulher em uma disputa afetiva, algo que a própria cantora depois reconheceu como incômodo. Já "No One Else", do Weezer, traz Rivers Cuomo cantando do ponto de vista de um namorado controlador.
O ponto mais interessante da lista é que ela mostra como o problema não pertence apenas a uma década, a uma cena ou a um tipo específico de banda. Atravessa Beatles, Stones, hard rock, alternativo, punk-pop e até artistas que, em outras músicas, trataram de temas mais sensíveis ou progressistas. O rock sempre foi feito por gente real, com contradições reais, e muitas vezes essas contradições ficaram gravadas em vinil, CD e playlist.
Ouvir essas músicas hoje não obriga ninguém a apagar a história do rock, mas também não exige fingir que tudo envelheceu bem. Algumas continuam musicalmente fortes, outras ainda fazem parte da memória afetiva de muita gente, mas as letras carregam marcas de um tempo - e, em certos casos, de uma cabeça - que merecem ser vistas pelo que são. A guitarra pode continuar boa; o recibo, infelizmente, também ficou registrado.
"No One Else" - Weezer
"Black Licorice" - Grand Funk Railroad
"Wrong Way" - Sublime
"Misery Business" - Paramore
"You Can't Do That" - The Beatles
"A Man Needs a Maid" - Neil Young
"Hey Joe" - Jimi Hendrix
"It's So Easy" - Guns N' Roses
"Every Breath You Take" - The Police
"Under My Thumb" - The Rolling Stones
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