Os roqueiros que seguiram na estrada mesmo quando o corpo pedia para parar
Por Bruce William
Postado em 03 de abril de 2026
Existe uma mitologia muito forte em torno da estrada. Para muita gente, o artista de verdade é aquele que sobe ao palco de qualquer jeito, encara dor, febre, exaustão e vai em frente como se isso fosse parte natural do pacote. Só que, em alguns casos, esse impulso de continuar não tem nada de romântico. Tem mais a ver com teimosia, vício de palco, senso de dever ou simples incapacidade de parar. E a história do rock está cheia de exemplos assim, relembra a Far Out.
Motorhead - Mais Novidades
O palco pode mesmo dar sentido à vida de muita gente, como tantos músicos já disseram. Mas há uma linha em que tocar deixa de ser celebração e passa a ser insistência cega. E, quando essa linha some de vista, a estrada deixa de parecer liberdade e começa a parecer outra coisa bem menos nobre: um sujeito se arrastando para cumprir o papel que esperam dele, mesmo quando o corpo já pediu demissão faz tempo.
O caso de Lemmy talvez seja um dos mais duros. Nos últimos meses de vida, já estava claro que ele não tinha mais condições físicas ideais para seguir em turnê com o Motörhead. Mesmo assim, ajustes foram sendo feitos noite após noite para que ele continuasse ali. Mikkey Dee contou depois que a banda foi adaptando tudo o que podia para ajudá-lo a atravessar os shows, e resumiu a situação com uma frase pesada: "Acredite em mim, eu e Phil demos 150%; o Lemmy deve ter dado 300% para conseguir passar pelos sets." Dezessete dias depois do último show, ele faleceu.
Shaun Ryder, dos Happy Mondays, também entrou nessa lista por um motivo bem mais tosco do que heroico. Em vez de parar quando o corpo estava claramente dizendo basta, ele resolveu se entupir do que aparecesse pela frente para conseguir cumprir a agenda. O próprio relato dele é brutal, e quebra a coisa do glamour, pois não há nenhum aí. Só um sujeito insistindo além do ponto: "Tive que enfiar todo tipo de porcaria goela abaixo, codeína, morfina, comprimidos que tinham sobrado de alguém da família que teve câncer, qualquer coisa, só para aguentar. Sou da velha escola, você não sai da turnê porque está morrendo. Aí eu desabei."
No caso de Iggy Pop, a relação entre palco e autodestruição sempre foi mais explícita. Ele já tinha transformado o próprio corpo em parte do espetáculo muito antes de isso virar lenda. Em um show em Nova York, caiu sobre uma pilha de copos e se cortou inteiro, mas resolveu continuar tocando mesmo sangrando. A cena descrita depois por quem viu foi grotesca. Wayne County resumiu de forma perfeita: "Foi horrível. Parecia uma arena romana." É o tipo de episódio que ajuda a construir o mito, claro, mas também mostra o quanto o limite ali já tinha ido embora fazia tempo.
Trent Reznor aparece por outro caminho. No fim da turnê de The Fragile, ele mesmo admitiu que estava em estado constante de abstinência e doença. Disse que aquela fase o levou a um ponto muito escuro, a tal ponto que acabou sofrendo uma overdose quase fatal. O relato é dos mais claros que ele já deu sobre esse período: "Durante toda aquela turnê eu estava num estado constante de abstinência e mal-estar." E completou com uma frase ainda pior: "Ficou muito claro para mim que eu estava tentando me matar."
Essas histórias mostram um lado menos bonito da velha ideia de que o artista precisa ir até o fim por sua arte ou por seus fãs. Às vezes, isso significa entrega. Em outras, significa apenas que ninguém conseguiu, ou quis, puxar o freio na hora certa. O problema é que o rock adora transformar excesso em medalha, mesmo quando o excesso está claramente virando tragédia.
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



"Nevermind" (Nirvana) ultrapassa "Back in Black" (AC/DC) e "Dark Side..." (Pink Floyd) em vendas
Blaze Bayley traz turnê comemorativa "Iron Maiden 30th Anniversary" ao Bangers Open Air
Marko Hietala arrisca palpite sobre o que levou Floor Jansen a sair do Nightwish
A pior banda gaúcha de rock de todos os tempos, segundo Rogério Skylab
Noodles se afasta dos shows do Offspring por problema de saúde; leia comunicado
O roqueiro brasileiro que se queimou com Jô Soares após falar mal de Ayrton Senna
O disco do Iron Maiden que fez integrantes do Metallica perderem o controle dentro de um avião
Para Nicko McBrain (Iron Maiden), Donald Trump deveria estar na cadeia
Por que King Crimson é melhor do que Dream Theater, segundo Mikael Åkerfeldt do Opeth
Aerosmith publica novas fotos e confirma retorno do baterista Joey Kramer
O guitarrista que Chrissie Hynde considera o maior; "simplesmente transcendia tudo"
Mateus Asato elege o último guitar hero que existe e compara com Slash e Van Halen
Floor Jansen quebra silêncio sobre saída do Nightwish em vídeo: "Também estou triste"
A noite em que Chuck Berry invadiu show de banda punk e deixou todo mundo de queixo caído
Revolução feminina? Perfil vê padrão nas saídas recentes de cantoras do metal sinfônico


A banda dos anos 1990 que não tocava depois do Motörhead ou Slayer
O músico que mudou o som do Scorpions; "vamos tornar essa porra pesada novamente"
"Banqueiros são pessoas muitos ruins e sempre se safam", disse Lemmy em 2011
A música que acabou fazendo Lemmy levar um pé na bunda
O rockstar que Ozzy Osbourne considerava o "meu Deus do rock"
O roqueiro que fez Lemmy perceber que tocar podia ter outras vantagens
A música dos Beatles que Dave Grohl considera mais pesada que Black Sabbath e Motörhead
A sincera opinião de Lemmy Kilmister sobre Christina Aguilera
As 10 músicas do Heavy Metal que moldaram o gênero nos anos 80


