O riff do Led Zeppelin que Jimmy Page não queria parar de tocar
Por Bruce William
Postado em 26 de maio de 2026
Jimmy Page já tinha uma coleção de riffs capazes de sustentar qualquer carreira quando chegou a "Kashmir". O Led Zeppelin havia passado pelo blues pesado dos primeiros discos, pela fase mais acústica de Led Zeppelin III, pela consagração do quarto álbum e pela expansão de caminhos em Houses of the Holy. Mesmo assim, havia algo diferente naquela música que entraria em "Physical Graffiti", lançado em 1975. Ela não parecia apenas mais uma grande faixa do grupo. Parecia uma marcha atravessando um território que o próprio Led Zeppelin ainda não tinha explorado daquele jeito.
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A base nasceu da combinação entre Page e John Bonham. Conforme relata a Far Out, o guitarrista usou a afinação DADGAD, que já aparecia em seu repertório desde peças como "White Summer" e "Black Mountain Side", e encontrou um riff que se movia de forma simples, mas com uma sensação enorme de deslocamento. A música também brinca com a percepção rítmica: a guitarra parece seguir uma lógica, enquanto a voz e a bateria criam outra tensão por cima. Não é uma canção complicada para parecer inteligente; é uma canção que soa estranha porque a engrenagem interna dela trabalha de um jeito pouco comum.
Page lembrou esse começo como um daqueles momentos em que a banda percebe que encontrou algo antes mesmo de entender exatamente o que é. "Assim que começamos a tocar 'Kashmir', não sei por quanto tempo seguimos, mas ele não queria parar e eu não queria parar. Há um bootleg em que estamos apenas tocando o riff repetidamente - ele simplesmente encaixa. Então começamos a montar o arranjo. Sabemos que encontramos algo. Ninguém chegou perto disso. É música nova. Ninguém ouviu nada parecido." A lembrança, compartilhada na Guitar.com, combina com outra descrição do próprio Page: ele dizia que, com Bonham, a música virou uma espécie de "besta hipnótica", com a bateria parecendo inverter a batida.
A entrada de Robert Plant levou a música para outro lugar. Apesar do título, a letra não nasceu de uma viagem à Caxemira. Plant se inspirou em uma estrada no sul do Marrocos, depois da turnê americana de 1973, quando passou por uma região desértica que lhe deu aquela sensação de distância, calor e paisagem interminável. Isso explica por que "Kashmir" soa menos como descrição geográfica e mais como delírio de estrada. O nome funciona pelo peso da imagem, não como diário de viagem.
John Paul Jones também foi decisivo para a música ganhar o tamanho que ganhou, mesmo sem aparecer nos créditos de composição. Conforme atesta a wikipedia, ele acrescentou Mellotron e trabalhou os arranjos que envolveram cordas e metais, ampliando o riff de Page sem enterrar sua força. E dentro de "Physical Graffiti", "Kashmir" ocupa um lugar especial. O álbum duplo reuniu gravações novas e material de sessões anteriores, passando por blues, funk, hard rock, acústico e experimentações diversas. No meio dessa variedade, a faixa parece funcionar como um dos pilares do disco. Não é o Zeppelin improvisando em cima de uma base de blues, nem tentando repetir "Stairway to Heaven". É outra arquitetura: repetição, tensão, peso e uma noção quase cinematográfica de espaço.
Robert Plant, que nem sempre fala de Led Zeppelin com aquele saudosismo automático que muitos fãs esperariam, já tratou "Kashmir" como uma das grandes realizações da banda. E dá para entender. A música não depende de explosão imediata, nem de um solo central para provar sua força. O impacto está no acúmulo, na insistência, na forma como o riff continua andando e parece arrastar tudo junto. Bonham toca com contenção pesada, Page segura a espinha dorsal, Jones abre o horizonte e Plant canta como se estivesse vendo alguma coisa longe demais para alcançar.
Talvez seja por isso que Page não queria parar. Há riffs que funcionam como frase, outros como gancho, outros como assinatura. O de "Kashmir" funciona quase como ambiente. Quando começa, a música não parece pedir variação rápida; parece pedir permanência. O Led Zeppelin encontrou ali uma forma de grandeza que não vinha apenas do volume ou da velocidade, mas de uma marcha lenta, estranha e imponente. E, naquele caso, repetir o riff não era falta de ideia. Era a própria ideia.
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